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sexta-feira, 8 de março de 2019

Às Mulheres


“A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher”
(José Carlos Ary dos Santos)

A todas as mulheres do mundo.

(Pintura de autor que não foi possível identificar)
Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. 
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"

À memória de Maria João Seco, que partiu a 27 de Fevereiro de 2018.

segunda-feira, 4 de março de 2019

As máscaras que usamos



Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

BREVE O DIA, BREVE O ANO, BREVE TUDO


Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensando, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que magoa, é vida.


(27-9-1931)

RICARDO REIS, in ODES DE RICARDO REIS. 
FERNANDO PESSOA (Ática, 1946 (imp.1994)


Pintura: Tamara de Lempicka, "La Dormeuse"

terça-feira, 10 de junho de 2014

Dia de Camões

Luiz Vaz de Camões 
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades

Continuamente vemos novidades
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E do bem, se algum houve, as saudades

O tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria
E em mim converte em choro o doce canto

E, afora este mudar-se cada dia
Outra mudança faz de mor espanto
Que não se muda já como soía. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cansaço

Lady Blitz (c) Luís Diferr, 1988

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah, com que felicidade, infecundo cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

(Enviado por Becas)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Há vozes que nem a morte consegue calar

José Saramago
16 de novembro de 1922 - 18 de junho de 2010
Por que foi que cegámos,
Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, 
Queres que te diga o que penso,
Diz,
Penso que não cegámos, penso que estamos cegos,
Cegos que vêem,
Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira"

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernando Pessoa, 125 anos


Desenhado pelos alunos da Escola Secundária José Gomes Ferreira, Lisboa
ULISSES

“O mito é um nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.”

Fernando Pessoa, A Mensagem, 1934

domingo, 5 de maio de 2013

Poema à Mãe

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



(poema Eugénio de Andrade/pintura Gustav Klimt)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Aniversário de Almeida Garrett

"Almeida Garrett e a Cidade Invicta", (c) José Ruy

PREITO

É lei do tempo, Senhora,
Que ninguém domine agora
E todos queiram reinar.
Quanto vale nesta hora
Um vassalo bem sujeito,
Leal de homenage e preito
E fácil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora:
E aqui juro e firmo agora
Que a um despótico reinar
Me rendo todo nesta hora,
Que a liberdade sujeito...
Não a reis! - outro é meu preito:
Anjos me hão-de governar.

“Folhas Caídas” Almeida Garrett,
Vinhetas do álbum em BD de José Ruy 
“ALMEIDA GARRETT E A CIDADE INVICTA”
"Almeida Garrett e a Cidade Invicta", (c) José Ruy

A 4 de fevereiro de 1799 nasce no Porto, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett. Escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português, foi o grande impulsionador do teatro em Portugal. Propôs a edificação do Teatro Nacional e a criação do Conservatório. Em 1816 inscreveu-se na Faculdade de Leis e tomou contacto com os ideais liberais. Em 1843 começou a publicar as “Viagens na Minha Terra”. Foi o homem que deu à língua portuguesa o preceito de modernidade.

Cortesia de Tita Fan

sábado, 22 de dezembro de 2012

Natal

Rafael - A Sagrada Família 

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

Miguel Torga

(Enviado por Carmela)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Poema dos dias

 (Imagem cujo autor não foi possível identificar) 
Pequenos deuses caseiros
que brincais aos temporais,
passam-se os dias, semanas,
os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.
o jogo dos tiranos.
Pequenos deuses caseiros
cantai cantigas macias
tomai vossa morfina,
perdulai vossos dinheiros
derramai a vossa raiva
gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.
pequenos deuses caseiros.
Erguei vossos castelos
elegei vossos senhores
espancai vossos criados,
violai vossas criadas,
e bebei,
o vinho dos traidores
servido em taças roubadas
servido em taças roubadas
Dormi em colchões de pena,
dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem,
alteai vossas janelas,
e trancai as vossas portas,
pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
e reforçai, reforçai as sentinelas.
Sidónio Muralha
Poema enviado por Carmela

sábado, 1 de dezembro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

Em memória de Manuel António Pina

"Talvez tenha morrido; nunca o saberei"



A dor acompanhar-me-á
a dor de não ter escrito
o teu nome e de não ter sabido
as perguntas e as respostas; 
nos teus braços quem me receberá?

E fará tanto frio
que a eternidade
se consumará sem mim no quarto agora vazio
de exterioridade e de contemporaneidade.

Só terei as minhas palavras,
mas também elas são mortais
mesmo as mais banais e mais
próprias para falar de coisas acabadas.

Terei talvez morrido; nunca o saberei.
Nem não o saberei tão perto estarei,
o rosto inclinado no teu peito,
a minha vida um sonho teu, desfeito.


Manuel António Pina

sábado, 22 de setembro de 2012

José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça em Belém



"Acordai", uma canção com poesia de José Gomes Ferreira e música de Fernando Lopes Graça, foi entoada por um coro de 300 pessoas em frente ao Palácio de Belém durante a vigília de ontem.
O povo não é estúpido e a cultura também saiu à rua como (mais uma) forma de protesto.

sábado, 15 de setembro de 2012

É a hora!

Fernando Pessoa
(c) Jean-Claude Fournier

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal hoje és nevoeiro...

Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Dinheiro


O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
 João de Deus, Campo de Flores'
(Enviado por Gabi e Carmela) 

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Poemas com sabor a Sol, a Sal e A-mar"

Ilustração e projecto de capa (c) Luís Diferr


Decorreu hoje no Museu da Música em Lisboa o lançamento do livro "Poemas com sabor a Sol, a Sal e A-mar" da autoria da Dra. Isabel Ribeiro Monteiro, uma conceituada poetisa, cronista e blogger. 
Esta querida amiga e colega é professora de Língua e Literatura Portuguesas  na Universidade de Lisboa para a 3ª idade e esta é a sua sétima obra literária publicada.
Este livro contou com uma ilustração inédita de autoria de Luís Diferr*, concebida especialmente para se harmonizar com a temática dos afectos, que este conjunto de poemas retrata.
É sempre com enorme prazer e honra que partilho os momentos em que os livros da Isabel Ribeiro Monteiro vêem a luz do dia; e hoje foi mais um belíssimo momento em que os mais chegados puderam ouvir alguns dos seus poemas recitados e peças de música a envolver este lançamento.
Obrigada Isabel por continuares a oferecer-nos tanta beleza e sentimento. Esperamos que o faças muitas mais vezes e durante muitos anos. Cá estaremos para te apoiar e ajudar a difundir o teu talento e a força telúrica da tua poesia, tão humanamente sensível e tão profundamente feminina.
"A poesia é para ler, dizer, cantar", dizia hoje uma das representantes das Edições Esgotadas
Eu acrescentaria: a poesia é para mastigar, digerir, sentir, embriagar-nos e encantar-nos. Até às entranhas, como a Isabel sabe tão bem fazer!


* Ver aqui a homenagem do ilustrador à autora do livro.


Foto (c) Pérola de Cultura
Luís Diferr com Isabel Ribeiro Monteiro no lançamento do livro "Poemas com sabor a Sol, a Sal e A-mar"  publicado por "Edições Esgotadas", Museu da Música, em Lisboa. (26 de Junho de 2012)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Versos sem título


É o verão que chega a quem não deve.
Um aroma que se exala com doçura...
Manjerico redondo, fofo e leve
Que na janela virada a sul
Da terra húmida e escura
Se espraia para o céu azul.

Assim é botão Matilde, que eu amo,
Em cujo peito descanso a cabeça,
Em cujo ser descanso a alma.
Pelo mar afora vai o barco que eu chamo,
Na viagem que em cada dia recomeça.
Nele vamos nós, para além donde cresce a palma!
Texto e desenho (c) Luís Diferr