segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Basta Pensar


Basta pensar em sentir 
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.
Fernando Pessoa

"A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota!" Jean Paul Sartre



No Egito, enquanto o povo lutava pela sua liberdade.

Enviado por L.A.

A música do mundo ficou mais pobre sem Cesária



Em Cabo Verde ninguém cantava como ela. Mas a sua morte não deixa Cabo Verde mais pobre, mas sim a música do mundo. Deixo aqui uma das suas melhores interpretações, no Olympia de Paris. Os verdadeiramente bons não morrem nunca - são intemporais!

Notícia Daqui.

Aporia de Zenão de Eleia

 "É impossível atravessar o estádio; porque, antes de se atingir a meta, deve primeiro alcançar-se o ponto intermédio da distância a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que está a meio caminho desse ponto; e assim ad infinitum."
O sábio Zenão de Eleia da Grécia Antiga agora escreve no Abrupto de José Pacheco Pereira.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Noruega, o país mais feliz do mundo


"Num relatório divulgado esta semana, a revista Forbes lançou uma lista dos 20 países 'mais felizes' do mundo e uma outra com os 20 países 'mais tristes'. A Noruega lidera a primeira, enquanto a República de África Central se assume como líder da segunda."
(Ler a notícia completa aqui.)

Verdadeiramente, esta notícia não constitui para mim qualquer surpresa. Nem acerca dos mais felizes nem dos mais tristes. O que faz traçar inevitavelmente uma relação entre a "felicidade", ou o que dela se entenda, e a riqueza per capita. As condições de vida concretas determinam o bem estar dos povos, e, desde logo, a sua saúde, física e mental. A pessoa deve sentir-se bem na sua integralidade, tal como o determina a OMS, para poder considerar-se saudável. E isso implica condições de higiene, alimentação, habitação e segurança, à cabeça. Ninguém pensa em construir bibliotecas ou salas de concertos se não tiver um leite e um pão para comer ou uns sapatos para calçar. É isso infelizmente o que ainda vem acontecendo em alguns países de África, sobretudo aqueles que estão mais sujeitos à desertificação.


A Noruega em épocas mais remotas foi um país pobre e conheceu tempos de miséria e fome. Noutros tempos os Vikings vieram por essa Europa abaixo roubar e pilhar devido à fome, às dívidas e às más condições de vida numa região de clima duríssimo.  Após anos de ocupação nazi, o país estava de rastos, mas conseguiu levantar-se graças a muito trabalho e persistência. Mas não só: a Natureza foi generosa, apesar de o clima não ser fácil. Foi a descoberta de jazidas de petróleo no Mar do Norte que permitiu à Noruega ser o que é hoje: um país rico. Assegurando uma gestão equilibrada dos recursos naturais, a política tem uma vertente marcada de consciência social e sentido de cidadania. Assim, os lucros do Estado são entendidos como lucros dos cidadãos. E isto faz toda a diferença em relação à forma de encarar a riqueza, comparando,  por exemplo, com países como Angola, em que a par de uma população faminta e descalça, se encontram fortunas privadas fabulosas.


Na Noruega não se deita abaixo uma árvore; a madeira que é necessária para as casas é comprada à Suécia. As florestas estão virgens, os rios impolutos, a Natureza em estado puro, com poluição próxima do zero. Igualmente próxima do zero está a corrupção e a criminalidade. Não fosse o desmando do louco do Breivik e a criminalidade norueguesa continuaria a nem sequer ser falada. Cada norueguês tem no Banco 100 mil euros em coroas atribuídos pelo próprio Estado, como participação nos lucros do país. E ainda atribui ajudas  externas, como por exemplo, a Portugal! Onde é que isto já se viu? 
A exportação do bacalhau e dos salmões, que são criados em viveiros nas águas tranquilas e frias dos fiordes, também ajudam os cofres do país. 


As contrapartidas deste desafogo económico sentem-se em vários aspetos. Se por um lado os cidadãos dispõem de assistência médica e escolaridade praticamente gratuitas e reformas exemplares, por outro, pagam taxas muito altas sobre os seus - também muito elevados - salários. (Os professores, por exemplo, têm um salário três vezes superior aos de Portugal.) As rendas de casa de um apartamento pequeno em Oslo são altíssimas e o custo dos bens de consumo elevado. Mas, mesmo assim, compensa, pois o desemprego é muito baixo, a mortalidade neo-natal também e a escolaridade e a cultura das pessoas muito elevada, assim como a consciência cívica. Estes são indubitavelmente marcadores daquilo que pode constituir o bem estar de um povo e logo a sua "felicidade". Ou não?


Dos dois referendos já realizados sobre a entrada na UE, resultou um "não" dos noruegueses. Não me admira. Eles estão bem e são felizes. Apesar da loucura terrorista e xenófoba que manchou de sangue o seu "pacific way of life".


Seria o meu país de eleição para viver, não fossem os 18º negativos em Oslo no Inverno.

Um cesto de mimos






Sabina Machella


Letizia Marziali e Fabrizio Pignotti 



Leonídia Marinho



Tita Fan 

António Ventura

Renny & Diane Amundsen

Obrigada a estes e muitos outros amigos, colegas, familiares e amigos, pelas palavras, o carinho, os presentes, as chamadas telefónicas, os poemas, os vídeos, a presença, as dedicatórias nos Blogues. A todos os que se esforçaram por colorir o dia de ontem, o meu afecto e gratidão. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A falácia dos feriados



A propósito do “mito” do “Excessivo número de feriados” em Portugal, reparem no número de feriados dos vários países da União Europeia.

Roménia 6
Holanda 10
Itália 11
Polónia 11
Bélgica 12
Dinamarca  12     
Hungria 12     
Irlanda 12     
Luxemburgo 12     
França  13     
Finlândia 13     
República Checa 13     
Suécia  13     
Malta   14     
Portugal 14     
Áustria 15     
Grécia  15     
Eslováquia 16     
Alemanha 17     
Grã-Bretanha 18     

A média dos feriados é 13.

Portugal tem 14, apenas 1 a mais do que a média.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Calimero perdeu o seu pai



O pintainho de chapéu de casca de ovo, que encantou a nossa infância, perdeu o seu criador. O desenhador Carlo Peroni nascido em Ancona em 1929, morreu ontem aos 82 anos.
"It's an injustice, oh, yes it is!", diria certamente Calimero com uma lagriminha no olho.


Notícia Daqui.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Faz tudo

 (c)Tatiana Struchkova

 "Faz tudo como se estivesses a ser contemplado."
Epicuro


Do Blogue Modus Vivendi

Rica ignorância

 Rica Ignorância
A ignorância degrada as pessoas apenas quando associada à riqueza. O pobre é limitado pela sua pobreza e pela sua necessidade; as suas realizações substituem nele a instrução e ocupam os seus pensamentos. Em contrapartida, os ricos, que são ignorantes, vivem meramente para os seus prazeres e assemelham-se às bestas, como se pode ver todos os dias. Quanto a isso, acrescente-se ainda a exprobação de que a riqueza e o ócio não teriam sido desfrutados para aquilo que lhes confere o maior valor. 

Arthur Schopenhauer
in 'Sobre o Ofício do Escritor', (Filósofo, Alemanha, 1788/1860)













Cortesia da Tuka.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quem mais trabalha na União Europeia


Os dados são da Eurostat. Portanto, fiáveis.
A já mais do que gasta cantilena de que os portugueses trabalham menos do que toda a gente não passa de um argumento de pura má-fé para nos retirarem cada vez mais direitos adquiridos, baixarem os salários reais e nos sobrecarregarem cada vez com mais horas de trabalho e menos férias.
O que este gráfico demonstra a respeito das horas de trabalho nos países da União Europeia é que Portugal está em quarto lugar nas horas de trabalho realizadas; dois lugares acima da Alemanha, quatro da Bélgica, seis da Espanha e dez da França! Curiosamente, os que mais trabalham são os austríacos, os gregos(!) e os britânicos. Portanto, senhores, deixem-se mas é de tretas para nos empoeirar os olhos!

Nobel da Paz no feminino

Tawakkul Karman do Yemen, Leymah Gbowee e Ellen Johnson-Sirleaf, Presidente da Libéria (Foto: John McConnico/AP)

O trabalho de algumas mulheres ativistas dos direitos humanos começa a ser finalmente reconhecido pelo Comité Nobel. Este domingo, 10 de dezembro foram premiadas três mulheres de regiões e culturas bem distintas das habituais Europa ou EUA. São elas Ellen Jonhson Sirleaf, Leymah Gbowee, e Tawakkul Karman. A Pérola de Cultura já tinha assinalado aqui esta atribuição com o contentamento que tal decisão merece. Mas o dia da entrega do Prémio Nobel é sempre algo que os noruegueses vivem com muito entusiasmo. Leia a notícia completa aqui nas palavras do Renny Amundsen.

Manoel de Oliveira faz hoje 103 anos



A genialidade, do meu ponto de vista, pauta-se pela criatividade aliada à modéstia, à humildade, à simplicidade. Conceitos como vaidade, soberba ou arrogância são atributos algo frequentes nos cineastas, mas que não encontram eco algum na pessoa de Oliveira. Galardoado com inúmeros prémios e reconhecimento ao mais alto nível, não só no meio cinematográfico, como também na Cultura europeia em geral, Oliveira nunca se deixou contaminar pelo vedetismo, muito embora a sua obra seja absolutamente excecional.
Parabéns, Manoel de Oliveira! Que viva ainda muitos anos com tanta lucidez e nos possa ir presenteando com o seu enorme talento.


Saiba dez coisas curiosas sobre Manoel de Oliveira aqui

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dia internacional dos direitos dos animais

Os animais, como seres viventes que são, sentem, sofrem e têm alegrias. 
Têm medo. Frio. Fome. Basta apenas olhar em redor. Pense nisso.

Dia Mundial dos Direitos Humanos


"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."
Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU, 10 de dezembro de 1948 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Florbela Espanca, nascer e morrer a 8 de dezembro


Flor Bela Lobo nasceu e morreu no mesmo dia: 8 de dezembro, o dia da Imaculada Conceição, que hoje a Igreja assinala. Do Alentejo (Vila Viçosa) em 1894, até Matosinhos em 1930, o seu percurso de vida durou apenas 36 anos.


Poetisa maior da língua portuguesa, Florbela Espanca parece ter sido marcada por um destino trágico. Vida e morte andaram sempre a par, desde o seu nascimento. A doença, a infelicidade, a inquietação, a busca e a iminência do fim próximo, sempre acompanharam esta mulher de uma sensibilidade rara e de uma enorme ousadia para a  sua época.
Desde a infância Florbela teve problemas: com a saúde, com a família, mais tarde com os amores. A sociedade da época não compreendeu esta mulher de excepção, que nos deixou cedo demais. Apesar disso, ficaram-nos belíssimas poesias, particularmente sofridas, como os sonetos, alguns deles carregados de paixão e arrebatamento, como este que faço questão de partilhar convosco.


O Meu SonetoEm atitudes e em ritmos fleumáticos, 
Erguendo as mãos em gestos recolhidos, 
Todos brocados fúlgidos, hieráticos, 
Em ti andam bailando os meus sentidos... 

E os meus olhos serenos, enigmáticos 
Meninos que na estrada andam perdidos, 
Dolorosos, tristíssimos, extáticos, 
São letras de poemas nunca lidos... 

As magnólias abertas dos meus dedos 
São mistérios, são filtros, são enredos 
Que pecados d´amor trazem de rastros... 

E a minha boca, a rútila manhã, 
Na Via Láctea, lírica, pagã, 
A rir desfolha as pétalas dos astros!.. 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"



Recordar Diego Rivera



Diego María de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez nasceu na  Cidade do México a 8 de dezembro de 1886, era de origem judaica e morreu a 24 de novembro de 1957.
Diego Rivera viveu na Europa entre 1907 e 1921 e teve contacto com nomes maiores da pintura da época, como Salvador Dali, Juan Miró, Pablo Picasso e da arquitetura como o catalão Antoni Gaudí, tendo todos eles influenciado de algum modo a sua obra. 
A sua primeira mulher foi a pintora russa Angellina Belwoff. Após a morte dela, casou-se em 1929 com a pintora mexicana Frida Kahlo, com quem teve uma relação sentimental, tão forte quanto conturbada por mútuas infidelidades.




Em 1930 Rivera foi para os Estados Unidos, onde permaneceu por 4 anos, pintando vários murais, inclusive no Rockfeller Center, em Nova York. É célebre a sua frase de declaração de ateísmo  "Deus não existe", que consta de uma pintura mural chamada  "Sonhos de uma segunda fracassada", que escandalizou as mentes mais conservadoras e ficou proibida durante nove anos.




Qué pasa ó redor de min?

¿Qué pasa ó redor de min?
¿qué me pasa qu'eu non sei?
teño medo d'un-ha cousa
que vive e que non se vé.
Teño medo á desgracia traidora
que ven, e que nunca se sabe onde ven


ROSALÍA DE CASTRO, in FOLLAS NOVAS (1880), 
in POESÍAS (Ed. Patronato Rosalía de Castro, Vigo, 1973)

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pensamentos de domingo

“Um homem não pode ser mais homem do que os outros, porque a liberdade é semelhantemente infinita em cada um”.


Jean-Paul Sartre (1905 - 1980) filósofo existencialista francês do século XX

Cortesia da Tuka 

Passado versus futuro 2

 "Estamos a precisar de um novo abecedário para escrever palavras como honra, prestígio, honestidade, modéstia, humildade, amizade, respeito e por aí fora. Mas de um abecedário despretencioso e construído com paciência e de modo artesanal; (...) E olhem que não é falho de ambição."

Pintura: Duy Huyhn

Passado versus futuro

"The perfect evening"- Anna Bain
"Do que para trás fica tendemos a realçar certos pormenores e a menorizar outros - moldamos as nossas falhas e seleccionamos os melhores bocados da nossa história. Do que está à frente nada sabemos; podemos desejar umas coisas e até tentar empurrar o destino, mas o futuro é sempre uma porta por abrir. Viver é assim um exercício entre a realidade e a ficção - o que somos no presente, o que escolhemos do que fomos e o que mais desejamos do que poderemos ser."
Luís Osório 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cidades cor de Pérola


HÁ CIDADES COR DE PÉROLA ONDE AS MULHERES

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo 
com um desespero fulminante,
a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.


HERBERTO HELDER, in LUGAR POESIA TODA (Assírio & Alvim, 1979)