Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de junho de 2014

Contrastes

Alguém dizia que a vida está cheia de contrastes e matizes e nos fascina por todas as partes que encerra.
A mim fascina-me a beleza destes dias de final de verão, a luz e a claridade que se desprende de um dia de sol como este, dando-me uma alegria de viver que é por vezes contagiante.
À noite a escuridão aprisiona-me e fecha-me. Mas hoje, vi uma estrada de luz no lago, azul profundo, iluminado pela lua, e a sua magia encheu-me de felicidade.
A atmosfera única do pôr-do-sol, carregado de tons violeta e rosa, cedeu lugar ao brilho leitoso da lua que desprendia poalhas de cristal sobre as águas do lago, manso e tranquilo.
Esta minha atração pelos opostos, o sol e a lua, o dia e a noite, o calor e a frescura, a agitação e a tranquilidade, fazem de mim uma espécie de animal de instintos, quase selvagens, ao mesmo tempo pueris.
Suspiro e sinto-me bem. Vivo ao sabor dos ritmos da natureza e fico feliz.
Dá-me uma tranquilidade enorme adormecer com a lua, acordar com o cantar dos galos, mergulhar nas águas, respirar com a brisa.
Penso, respiro, leio e escrevo. E amo. 
Dentro em breve começarei também a falar, falar…
Para ti, vinte e cinco anos depois, sempre a minha palavra, a minha lembrança, o meu afeto. 
Sempre tu. E ela. E poucos mais. Muito poucos. 
Porque a amizade não trai, não morre, não passa. 
Como tudo o que é genuíno e puro.

Lelé Batita
07/09/2003

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

5 de outubro, Dia da República

Praça do Município, Lisboa, 5 de outubro de 1910

Hoje é também o dia da implantação da República em Portugal, em 1910. Vai deixar de ser feriado. Talvez assim os mais novos deixem de ter oportunidade de saber o que foi isso.
Embora há dois anos se tenha gasto uma fortuna com as comemorações do Centenário da República, subitamente e sem razões plausíveis (ou sequer compreensíveis, para mim), este dia parece ter perdido toda a relevância e pode bem ser apagado da História de Portugal; assim como o Dia da Restauração da Independência a 1 de dezembro de 1640, quando o país se libertou de 60 anos de domínio espanhol.
Triste país este, que assim vai dando campo a que a memória se perca e a História se dilua, em nome de interesses de duvidosa valia.  

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Rock in Rio Lisboa visto do meu sofá


Em cinco edições, é a terceira vez que, por motivos diferentes, fico em casa a ver o Rock in Rio pela televisão. Por um lado tem vantagens: desde logo o conforto; depois não ter de comer poeira e trazê-la no cabelo, além de aguentar horas em pé em filas de espera à entrada e à saída. Mas por outro, a atmosfera e as emoções que se vivem em concertos ao vivo são impossíveis de se reproduzir em casa. Mesmo assim fiz questão de acompanhar a transmissão das três últimas edições: em 2008, 2010 e agora. Devo dizer que foi a de 2012 aquela de que mais gostei, em especial este fim de semana, pela diversidade e qualidade das propostas. 
Desde Luís Represas com João Gil e Jorge Palma, até Ivete Sangalo, passando pelos Gift e os Xutos e Pontapés, ouviu-se de quase tudo. Porém, foram os Maroon 5, Stevie Wonder, Bruce Springsteen, Joss Stone e especialmente Bryan Adams aqueles que mais apreciei. Ouvi e vi, embora à distância, canções verdadeiramente maravilhosas, em que o calor do público e a sintonia dos artistas em palco com o coro das pessoas, criaram momentos quase mágicos. 
O Rock in Rio, desculpem-me os não apreciadores, tem vindo a afirmar-se como um grande acontecimento musical em Portugal, que deixará uma marca de qualidade, apesar de todos os inconvenientes de uma logística de desconforto e até algum sacrifício. 
Lembro-me de ter assistido de perto ao incrível concerto de Paul McCartney e ao de Sting nas primeiras edições. Foram momentos realmente memoráveis.
Nesses anos cheguei a casa já madrugada alta, estafada, com as pernas bambas, os ouvidos a zumbir e a cabeça cheia de sons e imagens; lembro-me de despir as calças de ganga e ficar a ver as pobres quase ficarem em pé; além disso lembro-me de depois olhar para o espelho e não reconhecer a cor das minhas pestanas...
Nos anos seguintes, em que não fui, segui pontualmente alguns dos nomes mais significativos para mim, como Shakira e Anastacia. Lembro-me de nessa altura reconhecer na televisão o meu irmão, no meio daquela imensa plateia em pé, com a barba pintada de cor-de-rosa! Ele que anda impecavelmente aparado e vestido de fato todos os dias da semana, ali estava transfigurado naquela imagética do pop-rock. Não me admirei por aí além, pois eu mesma, numa das edições, vim para casa cheia de tatuagens auto-colantes com pequeninas guitarras, que espalhei em várias partes do corpo, a condizer com as duas tranças e o boné de pala. Durante um ou dois dias, se estivesse no meio dos meus alunos, seria finalmente um deles.
Quem corre por gosto não cansa. Se pudesse, teria certamente lá estado de novo este ano. Não sei em que figura regressaria a casa, mas certamente tão cansada quanto feliz.




Este vídeo quase não se ouve, foi gravado com o som muito baixo, mas dá para ver o ambiente e perceber o envolvimento do público português a cantar afinadíssimo em coro com Adam Levine.





Aqui foi um momento de completa surpresa para mim: Bryan Adams convida alguém da plateia para cantar com ele e escolhe, aparentemente ao acaso, uma fã: "the girl with the black t-shirt". Tratava-se afinal de Vanessa Silva, uma cantora que tem trabalhado em musicais de Filipe La Féria e em programas de televisão. Resultou num fabuloso e inesperado dueto. Motivo de orgulho para as mulheres portuguesas, achei eu. 
Vejam a notícia aqui.

terça-feira, 22 de maio de 2012

À memória incontornável de Robin Gibb

The Bee Gees; Robin Gibb ao centro.

Robin Gibb com a esposa há pouco tempo

Faleceu há dois dias Robin Gibb, o terceiro irmão dos Bee Gees, vítima de cancro. O seu gémeo Maurice Gibb já tinha morrido em 2003; o irmão mais novo, Andy Gibb, também já falecera, ainda jovem, pelo que, da irmandade resta apenas Barry Gibb, agora com 65 anos (que assegurava a conhecida voz de falsete no trio), além de uma irmã.
Este grupo de disco, muitas vezes premiado, ficou para sempre associado ao êxito mundial de Saturday Night Fever, o filme em que  John Travolta dança do princípio ao fim, e cuja banda sonora vendeu milhões. 
Pelo muito que marcaram as gerações do final dos anos 70 e 80 com as suas canções, estes músicos ingleses são merecedores de uma honrosa lembrança e uma homenagem à memória de Robin Gibb. Deixo aqui aquela que para mim é a sua mais bela canção de sempre.


Notícia e vídeo aqui.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Memórias de uma aula no Liceu de Setúbal


Barreiro, 4 de Outubro de 1967
(Quarta-feira)

Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.

Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos
um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal,dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando
entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite
da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
- Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.
Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.

Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se,efectiva-mente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.

Depois, veio o mais surpreendente:

- Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.

Gargalhada geral.

- Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas
disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não
tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma
matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.
Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.

- Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.

Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.

- Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse,como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.

Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.

- Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria.Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque,no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.ºano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês tem que fazer. Estudar.
Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país.
Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha,basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida,mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam?
Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.

Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal?
Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se Zeca Afonso.

Hélida Carvalho Santos