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quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia



Com o objectivo primeiro de defesa da diversidade linguística, a UNESCO decidiu, em 1999, proclamar o dia 21 de Março Dia Mundial da Poesia.
Vieram com Lutero os vendilhões do templo – e o Sol se cobriu;
Vieram com os Césares os fumos de mandar – e o Sol se cobriu;
Vieram com Trento os autos-de-fé – e o Sol se cobriu;
e nunca mais Portugal foi luz.

Porque, porém, dobrou o joelho – eis aí a pergunta;
Porque é tão fácil, entregou o guerreiro a sua espada – eis aí a pergunta;
Porque foi tão fácil, renunciou o monge à sua alma– eis aí a pergunta;
a pergunta que, sem resposta, fez da Nação um luto.

Inês o sabe e não perdoa – que por ela pecaram os portugueses;
Fernando o sabe e não perdoa – que por ele pecaram os portugueses;
África o sabe e não perdoa – que por ela pecaram os portugueses;
curva o remorso as frontes, abate a pena as mentes.

Só pagará a dívida o que em mim for frade – num só claustro, o mundo;
Só pagará a dívida o que em mim for braço – de meu irmão ajuda;
Só pagará a dívida o que em mim for nada – perante um Deus que é Tudo;
como se Portugal inteiro em mim coubesse. 

Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho, Editora Ulmeiro
Enviado por Carmela

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia em português


"Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!"

Ary dos Santos

(Enviado por P.D.)

As Sete Virtudes Filosofais ou a Alquimia dos Poetas

(c) Marta Dahlig - "The Seven Deadly Sins"

1. O ORGULHO

Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.

2. A AVAREZA

A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.

3. A LUXÚRIA

Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.

4. A IRA

Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.

5. A GULA

Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.

6. A INVEJA

Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.

7. A PREGUIÇA

Este lento
talento
de vazarmos tristeza.

José Carlos Ary dos Santos.

(Enviado por L.A.)

Pérola


Entre rimas, entre versos,
Entre artistas, sonhadores,
Jazem vidas, desamores
Moram mundos, universos.

E, numa fábula dispersa,
Sedenta de emoção,
Faminta de uma lição,
Repousa a alma, submersa.

Submersa em ouro, prata
Platina, Marfim
A Pérola acorda enfim
E, num suspiro, constata.

“Sou mais do que um excremento,
Sou mineral, pedra preciosa!
Sou cultura, poesia, prosa,
Sou gente, sou voz, sou Conhecimento!"

Para o Blogue Pérola de Cultura, no dia Mundial da Poesia.

Poema de P.D., a quem agredeço o generoso presente.
 
(Ilustração de autor que não foi possível identificar)

Poesia e música, uma combinação perfeita

domingo, 20 de março de 2011

Porquê um dia mundial da poesia?

"O Dia Mundial da Poesia celebra-se a 21 de Março, foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999. O propósito deste dia é promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo."
In Wikipédia

Dia Mundial da Poesia


SABER ENVELHECER

Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores
E lavra ainda e planta o teu eirado,
Que outros irão colher, quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, não importa a idade,
Tem cada idade a sua juventude.

Mary y Lopez

(Cortesia do meu pai)

Evocando o Dia do Pai


O PAI

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois… Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar… E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
… menino, meu menino…
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda

I wish you time


I don't wish you all sorts of gifts.
I just wish you, what most people don't have:
I wish you the time to be happy and to laugh
and if you use it, you can make something out of it.

I wish you the time for your doings and thinking,
not only for yourself, but also to give away.
I wish you the time - not to hastle and run,
but the time to know how to be contented.

I wish you the time - not to pass just like that.
I wish that some of it may be left for you
as a time to marvel and (as a time) to trust,
instead of just looking at the time on your watch.

I wish you the time to reach for the stars,
and the time to grow, that means to mature.
I wish you the time to hope anew and to love.
There is no sense in putting this time off.

I wish you the time to find yourself,
to see the happiness in each day and each hour.
I wish you the time also to forgive.
I wish you: the time to live.

Original by Elli Michler

(Enviado por Tita Fan)

Foto de Pérola de Cultura

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia 3


O Fecho-éclair

"Filipe Segundo
tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.

Cingia a cintura
com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.

O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.

Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.

Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair."


Em memória de António Gedeão, poeta e professor.

Dia Mundial da Poesia 2


"Pergunta se os seus versos são bons. (…) Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente.(...)

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente."


Rainer Maria Rilke, "Cartas a um jovem poeta", tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995.


A propósito do dia mundial da poesia, um excerto das palavras singelas deste escritor nascido em Praga, na República Checa, a um jovem aspirante a poeta, e, portanto, adequada a comemorar este dia e a incentivar novos poetas...

L.A.

Imagem: Pintura de Henri Fanti-Latour

Dia Mundial da Poesia


O Dia Mundial da Poesia celebra-se a 21 de Março. Foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999. O propósito deste dia é promover a leitura, a escrita, a publicação e o ensino da poesia através do mundo.

(Informação da Wikipédia)

A Palavra

"A palavra não tem olhos mas pálpebras de neblina
às vezes transparente Por isso ela caminha lentamente
como uma sombra em corredores de sombra
e treme como se fosse cair ou perder o seu hálito

Ela quer ler a sua própria chama
que às vezes não é mais do que um archote de cal
Nunca sabe o dia da semana porque o seu calendário é o vento
e arde sob a chuva da sombra como uma lâmpada trémula

Mas o seu rosto não se vê em nenhum espelho
e embate na porta atrás da qual se ouvem ecos
que não são de ninguém ou já foram e talvez sejam de retratos
e procura levantar a parede que falta sempre num dos seus lados."


António Ramos Rosa