segunda-feira, 21 de março de 2011

As Sete Virtudes Filosofais ou a Alquimia dos Poetas

(c) Marta Dahlig - "The Seven Deadly Sins"

1. O ORGULHO

Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.

2. A AVAREZA

A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.

3. A LUXÚRIA

Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença.
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.

4. A IRA

Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.

5. A GULA

Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.

6. A INVEJA

Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.

7. A PREGUIÇA

Este lento
talento
de vazarmos tristeza.

José Carlos Ary dos Santos.

(Enviado por L.A.)

3 comentários:

  1. Grande mestre, o Ary dos Santos! Ora aqui está um homem que não tinha medo de dizer o que lhe ia na alma!

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  2. Gostei da "contra-resposta"!
    Ary foi, sem dúvida, alguém que marcou a poesia do século XX e que soube ver na poesia a sua "missão revolucionária", de acordo com expressão de Antero de Quental.

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