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quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia Internacional da Mulher 2017

Carolina Beatriz Ângelo e Ana de Castro Osório - 1911

Enquanto uma em cada três mulheres no mundo sofrer violência doméstica;
enquanto por cada Euro ganho por um homem, a mulher receber apenas 0,83 cêntimos;
enquanto para a mulher ganhar o mesmo que um homem, tenha de trabalhar mais 61 dias por ano;
enquanto todos os anos morrerem milhares de mulheres vítimas de mutilação genital feminina;
enquanto houver discriminação no acesso aos postos superiores no trabalho e na política;
enquanto houver muitos milhares de mulheres que perdem o emprego por estarem grávidas;
continua a fazer todo o sentido assinalar o Dia Internacional da Mulher.

É bom ter em mente estes dados quando ouvirmos dizer que não se justifica continuar a comemorar este dia.
Muitas morreram para que hoje nós possamos gozar de alguns direitos adquiridos.
Por isso não se trata apenas de festejar, mas de continuar a lutar pela igualdade de direitos e oportunidades.
Feliz Dia da Mulher!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

So long, Madiba!

Nelson Mandela (1918-2013) Pintura de Olinda Gil

Se há personalidade que merece ser lembrada hoje, Dia Mundial dos Direitos Humanos, é Nelson Mandela. Desaparecido fisicamente na última quinta feira, este líder sul-africano tornou-se, de modo incontornável e para várias gerações, num símbolo mundial dos direitos humanos, não só pelo fim do Apartheid no seu país, mas também da luta pelos direitos de igualdade e cidadania para todos, independentemente da sua cor ou condição social. Preso durante quase 30 anos, nunca desistiu dos seus ideais, tendo sido um chefe de Estado negro respeitado e reconhecido internacionalmente como um exemplo de coragem e persistência.    

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Malala Yousafzai recebeu o Prémio Sakarov no Parlamento Europeu


Malala Yousafzai deixa-me sempre boquiaberta. Hoje não foi exceção. Ao receber o Prémio Sakarov das mãos de Martin Schulz, proferiu mais um dos seus discursos diretos, curtos e acutilantes, bem dirigidos a quem de direito.
É comovente a coragem e a determinação desta jovem paquistanesa de 16 anos, que, após ter sido baleada pelos talibans, ainda lhes fala direta e abertamente, dispensado ódios ou desejos de vingança. Continuará a sua luta pelo direito à educação de todas as crianças, causa que há muito abraçou e que por pouco não lhe custou a vida.
Reparem nas suas palavras: "Pensem nos 57 milhões de crianças (...) que não querem um IPad, uma XBox, uma Playstation ou chocolates; apenas um livro e uma caneta".
Ver notícia aqui

domingo, 24 de março de 2013

A censura da "primavera árabe"

"A jovem Amina, de 19 anos, acreditou na democracia da Tunísia, depois da "Primavera Árabe" de 2011, e foi condenada à morte pela justiça islâmica por colocar esta foto profana no seu blog.
A frase escrita em árabe significa “meu corpo pertence a mim e não é a fonte da honra de ninguém”, o bastante para ser perseguida pelas autoridades muçulmanas.
O Forum Social Mundial 2013 começará em Túnis na terça-feira, mas a jovem não poderá ir, pois a família internou-a num manicómio para que escapasse da execução da sentença."
É esta a liberdade de que se goza nos países onde se diz ter existido uma revolução democrática. Sem liberdade de expressão, sem direitos para as mulheres, com condenações à morte por crimes que não o são, enfim, mais do mesmo no mundo onde os fundamentalismos islâmicos continuam a fazer lei, à revelia do direito internacional e da salvaguarda dos direitos humanos fundamentais.

(A notícia e a foto são do Facebook e já foram retirados no Brasil. Aqui também não tardará a ser retirada. Por isso resolvi reproduzi-la aqui, antes que seja tarde demais. Continuo a pensar que a denúncia é a melhor forma de lutar contra a discriminação das mulheres.)

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pelas Mulheres, no seu Dia Internacional

(Imagem cuja autoria não foi possível identificar)

Há que valorizar algumas das coisas boas que ainda temos: por exemplo, a liberdade de nos vestirmos, maquilharmos e pentearmos como queremos, seja pela moda, pelo gosto, ou para agradar aos nossos companheiros. Temos a liberdade de ter amigos do sexo oposto sem que isso seja obsceno ou criticável. Podemos ir ao café e estar com amigos e grupos, sem que isso seja socialmente condenado. Podemos escrever, falar, comunicar e ir a manifestações. Para chegar até aqui, houve atrás de nós gerações e gerações de mulheres e homens sem esses direitos que lutaram para que nós deles pudéssemos vir a usufruir. Temos a liberdade de escolher uma carreira e tentar encontrar um emprego compatível com as nossas aptidões. Temos a liberdade de poder tirar carta de condução e ir onde queremos; as mulheres em Portugal conquistaram, a poder de muitas lutas o direito ao voto e outras formas de paridade. Hoje há mulheres taxistas, para-quedistas, condutoras de camião, pilotos de aviação, polícias, atletas de alta competição, juízas... Valorizemos aquilo que ainda temos e que conseguimos; lutemos para vir a conseguir ainda maior paridade e não permitamos que ninguém nos retire aquilo que é e será nosso por direito próprio. 
Bom Dia das Mulheres!

sexta-feira, 1 de março de 2013

Na Mauritânia, meninas obesas sob tortura


Quvenzhané Wallis (a mais jovem atriz nomeada para um Óscar)

Silvana Mota-Ribeiro divulgou hoje na RTP Porto uma notícia que me arrepiou e me fez decidir voltar a este espaço comunicar o que me vai na alma. Então leiam, mas sentadas:
- Sabiam que na Mauritânia há campos de engorda, onde meninas e adolescentes são obrigadas a tornar-se obesas, sob tortura, para arranjar melhor marido?
Parece que 70% da população da Mauritânia acredita piamente que está a fazer um bem a estas meninas, pois segundo a sua crença ancestral, "quanto mais pesada for uma mulher maior o espaço que ocupará no coração de um homem"!!!

No mesmo programa esta feminista fez ainda uma chamada de atenção que me parece pertinente: - ao mesmo tempo que naquele país se engorda as meninas à força, a escassos milhares de Km, na Europa, é outra a tortura: a do emagrecimento forçado, pela moda, pelo medo da exclusão social, e talvez também, para arranjar melhor marido... quem sabe!
Concordo, pois esta situação tem aumentado exponencialmente nos países desenvolvidos, com clínicas de emagrecimento a proliferar por toda a parte e meninas cada vez mais novinhas a pedir aos pais cirurgias plásticas para transformar o corpo. No desejo de se assemelharem às top-models anoréticas das passarelles da moda internacional, estas "torturas" auto-infligidas são também elas contra-natura. Ou não?  

Também as tristemente célebres mutilações genitais, que se praticam quase por toda a África, e não só, se fazem ainda em nome de uma tradição ancestral e uma crença antiga e fortemente arreigada nas populações, segundo a qual se estará a "fazer um bem à menina", evitando assim a sua exclusão social, além de ter a vantagem de lhe "retirar os demónios do corpo"!

Multiculturalismo, muito bem. Tolerância, muito bem. Aceitação das diferenças entre os povos, muito bem. Mas nunca, se as práticas em questão, ainda que em nome da Cultura, forem autênticas barbaridades que atentam contra os mais elementares Direitos dos seres Humanos, na sua integridade física ou psíquica. 
Jamais situações deste teor são aceitáveis e deveriam ser fortemente sancionadas. 
Mas para isso teriam os governos de ter vontade política e desenvolver campanhas de esclarecimento massivas junto das populações para desmitificar tais barbaridades ancestrais e remover os meios para as suas práticas. 
No caso da Mauritânia, é urgente uma ampla denúncia para acabar com esses campos de tortura. Nos países onde se praticam as mutilações genitais, estas deveriam ser proibidas pura e simplesmente, prendendo os prevaricadores. Estes, quer sejam médicos, cirurgiões encartados, curandeiros, bruxos, comadres, avós ou tias velhas, se não matam mesmo, mutilam para sempre, no corpo e na alma, meninas a quem é negado o direito de ser mulher.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Aniversário de Gandhi

"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho."

No dia 2 de outubro de 1869, nasceu Mahatma Gandhi, um dos idealizadores do moderno estado indiano (m. 1948). Foi um dos maiores lutadores pelos direitos humanos e pela paz no mundo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Evocando Maria de Lourdes Pintasilgo



Foi Maria de Lourdes Pintasilgo que ratificou a Lei que criou o Serviço Nacional de Saúde tal como hoje o conhecemos (Lei n.º 56/79, de 15 de Setembro), instituindo cuidados médicos universais e gratuitos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Aung San Suu Kyi recebeu o Nobel em Oslo


(Clique para ampliar)

Convém lembrar que esta ativista dos Direitos Humanos, birmanesa, de 66 anos, esteve sob prisão domiciliária durante décadas por lutar pela Liberdade ; só recentemente pôde ir a Oslo receber o Prémio Nobel da Paz com que foi agraciada em 1991, há 21 anos!!!
A mesma sorte não teve Liu Xiaobo, que continua preso na China e impedido de receber o mesmo prémio, referente a 2009.

Notícia daqui.

Pode ler o discurso de Aung San Suu Kyi em Oslo quando foi receber o prémio Nobel aqui

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Crime repugnante sobre crianças

Escola no Afeganistão 
"O ataque ocorreu na província de Takhar, Afeganistão, e, segundo a polícia, pertence a um grupo de radicais islâmicos que se opõe à educação de raparigas.
As alunas foram contaminadas com um pó tóxico que não foi identificado.
Mais de 120 alunas e três professores da escola morreram. Muitas crianças ficaram inconscientes.
Este já é o segundo ataque semelhante este ano, há um mês, 150 alunas foram envenenadas através da água.
Lutfullah Mashal, porta-voz do National Directorate of Security, acredita que, em 2014, após a retirada das forças estrangeiras do Afeganistão, os talibãs vão fechar as escolas. “Com o envenenamento das raparigas, os talibãs querem provocar o medo. Estão a tentar que as famílias não enviem os filhos para a escola”, acrescentou.
O Ministro da Educação do Afeganistão afirmou que os rebeldes conseguiram fechar 550 escolas em onze províncias."
(Daqui) 

Parecem não ter fim os atentados contra os direitos humanos, sejam eles a educação, a liberdade ou até a própria vida. Para estas pessoas, ditas "talibans", estes, que são valores universais e consensuais parecem não fazer sentido. O respeito pelos direitos humanos fundamentais, como a vida, e das crianças em particular, como a educação, são sistemática e selvaticamente desrespeitados. Isto é a simples destruição civilizacional e a total perversão da vida em sociedade. Não há argumentos de índole cultural, religiosa ou outra, que me convençam a aceitar estas e outras barbaridades!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Dia Internacional das Famílias


Isto dos dias internacionais traz a vantagem ou o pretexto para se refletir sobre as coisas. 
Hoje é uma boa ocasião para pensar sobre o papel da família na sociedade. Sobre os modelos de famílias, desde as convencionais, às monoparentais, às homossexuais, às pequenas, grandes, felizes e infelizes. As disfuncionais, que vivem por vezes no silêncio sufocado dos segredos inconfessáveis, como o incesto ou a pedofilia. 
A minha maior preocupação no que se refere a Portugal vai para as situações de violência doméstica, calada ou pública, pois não posso evitar lembrar-me, especialmente nestas datas, do número incrivelmente elevado de mulheres (sobretudo) que morrem por ano neste país, vítimas deste flagelo. Se ele é assunto de sociólogos, técnicos de saúde mental ou polícia, não sei, tudo deverá depender do caso em concreto, mas deve ser analisado e tratado de acordo com as leis.

Os assuntos da família não se podem dissociar dos modelos de relação homem-mulher e dos seus papéis e estatutos. Neste âmbito, devo confessar que me causa bastante apreensão a condição feminina que vigora nos países árabes, no Médio Oriente, em África e na Ásia. Ainda existem sociedades em que as mulheres vivem em haréns, escravizadas e presas, outras em que, embora teoricamente livres, não têm autonomia para estudar, ter emprego, conduzir um automóvel, ir ao médico ou ao café, etc. Para já não falar nas aberrações a que temos assistido, de apedrejamentos por adultérios ou namoros, espancamentos e mutilações, a quem, aparentemente, apesar de ser esposa ou filha, goza de menos direitos do que o cão ou o papagaio.  Por fim, preocupam-me as situações relacionadas com o papel das mulheres mais velhas que, em certas famílias, representam o que há de mais retrógrado. Essas matriarcas da família são por vezes as piores aliadas no perpetuar de situações de repressão e violência, como por exemplo no Irão, ou nos países onde se continua a sujeitar as meninas ao crime de mutilação genital.

Neste dia internacional, há que repensar que famílias queremos ter e deixar como herança para os nossos descendentes.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Recordar Martin Luther King

"Yes, if you want to say that I was a drum major. Say that I was a drum major for justice. Say that I was a drum major for peace. I was a drum major for righteousness. And all of the other shallow things will not matter."
Martin Luther King

Este é um extrato do seu discurso na Igreja Batista de Ebenezer, a 4 de fevereiro de 1968. No mesmo ano, a 4 de abril, era assassinado em Memphis este homem, que lutou por manter vivo um sonho: o da igualdade de direitos civis para todos os negros.
"Martin Luther King nasceu em Atlanta, a 15 de janeiro de 1929 e foi um pastor protestante e ativista político norte-americano. Destacou-se na defesa direitos civis dos negros, promovendo uma campanha pela liberdade, contra a violência e a segregação racial."
(Daqui)

sexta-feira, 16 de março de 2012

George Clooney preso por boa causa



Ele não é apenas um belíssimo homem e um grande ator; é também um excelente ser humano. Tem-se envolvido em sérias causas pelos direitos humanos, como no caso do Darfour e do Sudão do Sul. 
Hoje exigia, com outros ativistas, junto à Embaixada sudanesa em Washington, o fim dos massacres sobre o povo, que sofre fome, violações e emboscadas com minas. 
George Clooney foi preso pela polícia, algemado com as mãos atrás das costas e metido num carro celular, assim como o seu pai, o jornalista Nick Clooney e Martin Luther King III. Por desacato às autoridades, dizem eles. Vai a julgamento e será condenado a pagar uma multa. Mas terá valido a pena, pois, pelo menos conseguiu fazer-se ouvir nas televisões do mundo.
De vez em quando na História, há um filho da puta que se lembra de fazer "limpezas étnicas" e é evidente que nesses casos pessoas como Clooney, que vão ao terreno, se tornam testemunhas bastante incómodas. Mas ele não desiste; ainda ontem jantou com Barack Obama e James Cameron, na Casa Branca, aproveitando para falar destes assuntos e do papel que, no seu entender, a China deveria assumir na luta pela paz mundial.



George Clooney está envolvido no Enough Project, com John Prendergast, co-fundador desta ONG, com o propósito de combater crimes contra a humanidade, onde quer que eles existam.
What else, George?


sexta-feira, 9 de março de 2012

O caso de Joseph Kony, mediático por más razões

"Kony y otros tres dirigentes del Ejército de Resistencia del Señor llevan eludiendo su detención desde 2005, cuando la Corte Penal Internacional (CPI) los acusó de crímenes de lesa humanidad y una serie de crímenes de guerra, entre los que se incluyen el asesinato, el reclutamiento forzoso de niños y niñas menores de 15 años, la esclavitud sexual y la violación."
(In Amnistia Internacional )


"Um vídeo que pretende chamar a atenção para o ugandês Joseph Kony, procurado por crimes de guerra e contra a humanidade, contava hoje mais de 50 milhões de visualizações, três dias depois de ter sido divulgado.O objectivo do vídeo, acessível no «site» Youtube, é tornar «famoso e visível» e levar à justiça o líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês), acusado de milhares de mortes e raptos, torturas e exploração de dezenas de milhares de crianças nos últimos 20 anos, de acordo com o realizador Jason Russell.O filme de 30 minutos, da organização não governamental «Invisible Children» (crianças invisíveis) com sede em São Diego (Califórnia), reclama uma intervenção militar norte-americana para deter Kony, procurado pelo Tribunal Penal Internacional."

(Notícia daqui)

O vídeo pode ser visto no You Tube, tem 30 minutos de duração e começa com a frase:
"Nothing is more powerfull than an idea whose time has come". 
Vejam até ao fim.
(Vídeo enviado por P.D.)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

100 a 140 milhões de meninas mutiladas


Este é o número estimado de meninas que sofreram mutilação genital no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. É alarmante esta verdade que, apesar da crueldade que a prática implica, continua a existir debaixo dos nossos olhos distraídos.

Estão referenciados 28 países africanos onde a mutilação genital feminina é prática corrente e socialmente aceite, mais uns quantos no resto do mundo, como a Indonésia. Portugal é considerado pela OMS como um país de risco. Esta ação tem lugar entre nós, por muito que nos custe a acreditar, assim como na vizinha Espanha, apesar de ser considerada crime.

A jornalista Conceição Queiroz apresentou um trabalho de reportagem a 28 de Março de 2011 sobre este flagelo, depois de ter andado por África a fazer um levantamento da situação. Numa região entre o Quénia e o Uganda encontrou uma província em que 90% das meninas eram mutiladas. E numa determinada comunidade propuseram-lhe algo como “se quiser, nós fazemos, para a sua reportagem”. Tratava-se de uma menina de três anos! A jornalista, não só evidentemente não quis, como nunca mais voltou ao Quénia.

Em Portugal, mais concretamente na região de Lisboa, a sua equipa de reportagem organizou uma simulação com câmara oculta para, fingindo-se interessada, encontrar o rastilho dos seus praticantes. Foi-lhe indicada uma mulher da Guiné, a viver no Cacém. Não chegaram a combinar o preço, mas o contacto disse-lhe que, “se ela não pudesse fazê-lo, ele conhecia quem poderia.”

Casos existem em que as meninas, quase sempre africanas, embora muitas vezes nascidas em Portugal, são levadas pelos familiares em período de férias aos seus países de origem para serem submetidas a esta barbaridade.  Há épocas propícias, à luz das culturas africanas, para a realização das mutilações: nalguns países é na época das chuvas, noutros no inverno, o que coincide com o período do nosso verão.

Quando estas meninas sobrevivem, crescem e acabam por casar e ser mães, em Portugal ou noutro país europeu. E nos serviços de saúde pode ocorrer um fenómeno tão bizarro quanto chocante: num número significativo de casos, os técnicos de saúde, por exemplo na sala de partos, não identificam as cicatrizes ou a dificuldade de dar à luz destas mulheres como sendo decorrentes de uma mutilação genital na infância; atribuem frequentemente estas anomalias a malformações de nascença ou partos anteriores realizados de forma incorreta! 
Como me custa a acreditar que tais sinais anatómicos não sejam por demais evidentes, pergunto: não será mais “confortável” não querer ver, do que encarar uma realidade que é chocante e com a qual não se sabe exatamente como lidar???

No Egito, país onde esta prática parece remontar ao tempo dos Faraós, alguns dos médicos adotaram a seguinte medida, que eles consideram profilática: já que a mutilação genital se faz, então que se faça com instrumentos cirúrgicos esterilizados, para evitar infeções. Na realidade, a OMS proibe que os médicos pratiquem qualquer mutilação que não seja por razões estritamente médicas e sempre para salvar uma vida, nunca para arruiná-la!

As “comadres”, “tias”, “avós” ou curandeiras, que normalmente fazem isto nas aldeias, podem usar desde facas, até lâminas de barbear, latas, cacos de vidro ou qualquer objeto cortante que tenham à mão. Estirpam o clítoris e os pequenos lábios da vulva das meninas e posteriormente cosem-na com uma agulha e uma linha.
Evidentemente que existe um grande número de meninas que morre por hemorragias ou infeção generalizada. Outras contraem infeções pélvicas graves, com sequelas crónicas de esterilidade. Outras ainda contraem hepatite B ou VIH, acabando por morrer também, ou contaminar os seus bebés, se chegarem a tê-los, contribuindo assim para espalhar o flagelo da SIDA em África.

Do ponto de vista da integridade física, aquelas raparigas nunca aprendem a lidar com o seu corpo como algo que dá prazer, pois sempre associam a sexualidade à dor. São mulheres que não estão (nem estarão nunca) inteiras. Também as sequelas psicológicas são incalculáveis. Sentimentos de frustração, rancor e  ódio aos seus carrascos são frequentes. Muitas vezes ao pai, pois embora a prática seja levada a cabo por mulheres, é incentivada pelos homens.

A deformidade resultante de uma mutilação genital pode ser ligeiramente atenuada com uma cirurgia plástica de reconstrução, o que pode custar cerca de 15 mil euros. Mas a mulher nunca chegará a obter prazer sexual, o que resulta numa incapacidade para ultrapassar completamente o traumatismo.

Há que alertar as consciências para esta barbaridade e não há outra forma senão a denúncia sistemática e contundente destas práticas. Há quem lhes chame “medievais”, mas têm a sua raíz muito mais para trás da Idade Média. Perde-se no tempo e nos mais remotos ritos tribais ancestrais, desde há pelo menos 3000 anos.

Há do meu ponto de vista uma componente machista nesta prática, pois a mulher mutilada é uma mulher que não tem prazer no sexo; logo, não procurará outros homens e a função dos seus órgãos será meramente reprodutora. Daqui podemos inferir que ela passa a ser um bem patrimonial, mas não um ser com direitos iguais, que poderia até desejar outros homens. Então, a mulher mutilada confere ao homem uma espécie de "garantia" de propriedade e de fidelidade! Logo, a continuidade das mutilações convém à mentalidade machista, reinante nas sociedades fortemente patriarcais.

As organizações ativistas neste campo alertam para o facto de que esta prática está mais difundida em países onde as meninas são impedidas de ir à escola, têm menos direitos que os seus irmãos rapazes e a quem é vedada uma série de direitos: à instrução, ao emprego, à autonomia e à cidadania, pois muitas vezes nem registo de nascimento possuem.
Portanto, como muitas vezes acontece, é o atraso civilizacional e o atavismo das mentalidades retrógradas a atentar contra os direitos humanos.

Mito, religião, magia? Não sei, mas a Cultura e as Tradições não podem justificar tudo. Nem tudo o que é “cultural” é aceitável do ponto de vista dos Direitos Humanos. Esta prática é intolerável sob todos os pontos de vista: físico, psicológico, social, cultural, ético e religioso.

O Sheik Munir, Imã da mesquita de Lisboa, foi ouvido a este respeito e afirmou categoricamente que tal prática não está enquadrada em sítio algum do Corão. E acrescentou ainda que “o próprio profeta Maomé teve várias filhas e nenhuma delas foi mutilada”. Também não há na Bíblia ou em qualquer outro livro sagrado apelos a esta prática, pelo que tentar fundamentá-la na religião é um argumento falacioso.

O pessoal médico deve ser alertado, assim como os governantes, os legisladores, os professores e toda a comunidade: uma prática que implique um desrespeito pelos valores da vida humana e da integridade dos indivíduos, física ou psicológica, deve ser pura e simplesmente banida e criminalizada, tanto à luz das leis dos países como do Direito Internacional.
 Lelé Batita
(Ilustração de autor que não foi possível identificar)