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sexta-feira, 29 de março de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Depressão arrasa professores


Depressão arrasa professores e alguns até perdem a memória 
Apesar de o Ministério da Educação não divulgar dados, são cada vez mais os professores de atestado devido a depressões e burnout (exaustão física e emocional). Dirigentes sindicais e directores de escolas mostram-se convictos de que a crise agravou esta situação que, acrescenta o Diário de Notícias, não afecta apenas os docentes contratados mas também os com décadas de carreira.
 O DN apresenta, na edição de hoje, alguns testemunhos na primeira pessoa de professores afastados da sala de aula porque a “alegria” de leccionar deu lugar ao vazio escuro da depressão.
“Sei que fiquei mais gordo, por causa dos medicamentos, mas sei porque vejo nas fotografias, não me lembro disso”, confessa ao jornal um professor com 28 anos de carreira mas que passou os últimos três em casa, de baixa. Neste caso, a mudança de escola foi dramática e foi “perdendo as forças para controlar a sala de aula”.
A psicóloga Lígia Costa, da direcção de um dos sindicatos da Federação Nacional de Educação, destaca, ao DN, que os estudos “apontam o stress como factor explicativo de 50% a 60% dos dias de trabalho perdidos e como o segundo problema de saúde relacionado com o trabalho mais frequente”.
Ainda segundo a psicóloga, muitos destes “processos acabam por assumir a forma de quadros clínicos de ansiedade e perturbações depressivas”.A crise estava evidentemente associada a esta situação. O dirigente da Fenprof, Mário Nogueira, refere que “a sobrecarga horária”, as “responsabilidades que vão muito além do que seria o papel do professor”, a “crescente hierarquização e controle”, bem como “a criação de grandes agrupamentos”, em nada contribuem para o bem-estar e trabalho dos docentes.
Um estudo europeu da Sociedade Portuguesa de Inovação, citado pelo DN e que data de 2011, indicava que os professores portugueses foram os que revelaram índices mais elevados de stress e burnout (exaustão física e emocional), de entre nove países estudados.
In  DN25 de Março de 2013 

domingo, 24 de março de 2013

A censura da "primavera árabe"

"A jovem Amina, de 19 anos, acreditou na democracia da Tunísia, depois da "Primavera Árabe" de 2011, e foi condenada à morte pela justiça islâmica por colocar esta foto profana no seu blog.
A frase escrita em árabe significa “meu corpo pertence a mim e não é a fonte da honra de ninguém”, o bastante para ser perseguida pelas autoridades muçulmanas.
O Forum Social Mundial 2013 começará em Túnis na terça-feira, mas a jovem não poderá ir, pois a família internou-a num manicómio para que escapasse da execução da sentença."
É esta a liberdade de que se goza nos países onde se diz ter existido uma revolução democrática. Sem liberdade de expressão, sem direitos para as mulheres, com condenações à morte por crimes que não o são, enfim, mais do mesmo no mundo onde os fundamentalismos islâmicos continuam a fazer lei, à revelia do direito internacional e da salvaguarda dos direitos humanos fundamentais.

(A notícia e a foto são do Facebook e já foram retirados no Brasil. Aqui também não tardará a ser retirada. Por isso resolvi reproduzi-la aqui, antes que seja tarde demais. Continuo a pensar que a denúncia é a melhor forma de lutar contra a discriminação das mulheres.)

sábado, 23 de março de 2013

Earth hour


Hoje das 20:30 às 21:30 apague todas as luzes e desligue todos os aparelhos de que não precise.
É a hora do planeta. Em toda a Terra há milhares de cidades a apagar as luzes dos seus monumentos mais emblemáticos. É uma boa altura para organizar um jantar à luz de velas, chamar os seus amigos e usufruir do prazer de participar numa atitude simbólica à escala mundial. 
 2000 milhões de pessoas e 5200 cidades participarão. O planeta agradece. 
Com a adesão do  World Wide Fund Portugal.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Rejubilar e regurgitar ou o fumo branco da Capela Sistina

(Cartoon cujo autor não foi possível identificar)

Fátima Campos Ferreira dizia, embevecida e em direto na RTP1, que os católicos presentes na Praça de S. Pedro regurgitavam quando, após a saída do fumo branco da chaminé da Capela Sistina, um cardeal anunciou à janela "Habemus Papam".
Poucas horas mais tarde a SIC Notícias, difundia que os homossexuais católicos emitiram uma comunicado a dar conta do seu "desalento pela escolha do cardeal Bergoglio para Papa". 
Este jesuíta considera a homossexualidade e o casamento gay como "um plano de  Satanás para enganar os filhos de Deus" e a "destruição do plano de Deus".
A esta seguiram-se dezenas de notícias nas redes sociais a dar conta do passado do cardeal Bergoglio, associando-o ao general Videla, que fez milhares de vítimas na Argentina durante a ditadura militar.
Enquanto isso, uma parte das pessoas, sobretudo as católicas, rejubilavam com esta nomeação, enchendo-se de alegria e esperança por a Igreja Católica ter pela primeira vez um Papa da América Latina, vendo nisso uma esperança de mudança e progresso. 
Outras houve que se encantaram com a escolha do nome Francisco, associando-o, de imediato e na sua boa-fé, a S. Francisco de Assis, o religioso que renunciou à riqueza e se despojou de todos os bens materiais para se unir aos pobres e aos animais, vivendo em comunhão com a Natureza.
Com maior probabilidade o cardeal escolheu, na minha opinião, o nome igual a S. Francisco Xavier, o co-fundador da Companhia de Jesus, à qual pertence.
Por acaso, este Papa nasceu a 17 de dezembro como eu, e também como eu, se licenciou em Filosofia. Por aí, poderia ser-me, à priori, uma figura simpática. Mas bastaram poucas horas para que por todo o lado se pusessem a descoberto notícias que, a serem confirmadas, mais uma vez vêm demonstrar que o Vaticano não tem remédio, é sempre mais do mesmo, a "evolução na continuidade", como dizia o Professor Marcello Caetano.
Este cardeal tinha ficado em segundo lugar na eleição que escolheu Joseph Ratzinger para Papa. Agora, com a resignação daquele, este subiu a primeiro lugar. Apenas a dança das cadeiras, nada mais. O aparelho retrógrado do Estado mais rico e mais tradicionalista do mundo no seu melhor. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pelas Mulheres, no seu Dia Internacional

(Imagem cuja autoria não foi possível identificar)

Há que valorizar algumas das coisas boas que ainda temos: por exemplo, a liberdade de nos vestirmos, maquilharmos e pentearmos como queremos, seja pela moda, pelo gosto, ou para agradar aos nossos companheiros. Temos a liberdade de ter amigos do sexo oposto sem que isso seja obsceno ou criticável. Podemos ir ao café e estar com amigos e grupos, sem que isso seja socialmente condenado. Podemos escrever, falar, comunicar e ir a manifestações. Para chegar até aqui, houve atrás de nós gerações e gerações de mulheres e homens sem esses direitos que lutaram para que nós deles pudéssemos vir a usufruir. Temos a liberdade de escolher uma carreira e tentar encontrar um emprego compatível com as nossas aptidões. Temos a liberdade de poder tirar carta de condução e ir onde queremos; as mulheres em Portugal conquistaram, a poder de muitas lutas o direito ao voto e outras formas de paridade. Hoje há mulheres taxistas, para-quedistas, condutoras de camião, pilotos de aviação, polícias, atletas de alta competição, juízas... Valorizemos aquilo que ainda temos e que conseguimos; lutemos para vir a conseguir ainda maior paridade e não permitamos que ninguém nos retire aquilo que é e será nosso por direito próprio. 
Bom Dia das Mulheres!

quinta-feira, 7 de março de 2013

Exposição de pintura de Olinda Gil em Aljustrel



Nada melhor para assinalar o Dia Internacional da Mulher do que visitar uma exposição de pintura de Olinda Gil em Aljustrel. 
Ela, professora de História nascida na Beira, é uma mulher com África dentro, com cabelos e coração de fogo.
Traz nos pincéis a simplicidade e a força telúrica do amor, das plantas, da água, dos animais, da Natureza e dos amantes.
Define a sua pintura como naïf... 
Vão conferir. 
Inaugura amanhã, 8 de março, pelas 17:30 na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Aljustrel.

domingo, 3 de março de 2013

Marés de Lisboa









Fotos na manifestação de 2 de março (c) Luís Diferr

Quem quiser apoucar e dizer que foi irrelevante ou que não serve para nada, deixem lá: as câmaras de televisão não mentem. No Terreiro do Paço até havia uma dessas telecomandadas, que parecia um ovni, qualquer coisa high-tec, com luzes, pilotada à distância a medir ou contar, a infra-vermelhos, ou coiso e tal, modernices inventadas pela engenharia. Não sei números, nem faço questão de saber. Estive lá, da Fontes Pereira de Melo, onde me integrei na maré da Educação, logo atrás o Sindicato dos Músicos e a seguir a animadíssima maré da Saúde. Pouco passava das três da tarde e às sete ainda a cauda da manifestação não tinha conseguido entrar no Terreiro do Paço. Faça as contas quem souber, eu por mim não tenho quaisquer dúvidas de que foi das maiores manifestações de sempre em Portugal e sem organização institucional/sindical, note-se. Muitos milhares de idosos, a deslocarem-se com sacrifício por alguns km, jovens que já nasceram depois da revolução de abril... o que significa isto? Que tire as devidas ilações quem quiser. 
Do meu ponto de vista o governo deve ir para casa, não tem (MESMO) apoio popular. Não vale a pena continuar a querer tapar o sol com a peneira. 

sábado, 2 de março de 2013

Hoje há marés de Grândolas para todas as cores



Para quem pergunta repetidamente para que servem manifestações, só tenho uma hipótese de resposta:
- em termos práticos, pode não servir para nada se os nossos governantes continuarem com a surdez obsessiva que vêm demonstrando. 

Já no tempo da Dona Maria de Lurdes de má memória era isso mesmo que se passava: autismo, pseudo-indiferença e obstinação pelo poder.
A senhora chegou a dizer a frase temerária que era irrelevante ter 120000 professores em protesto na rua. Era o mesmo que 20000! Coitada, odiada se tornou e caiu, como todos caem. E estes também cairão. É uma questão de tempo.  Só que está na mão de todos aqueles que, como eu se sentem espoliados e compelidos de forma ilegítima a pagar dívidas que não contraíram, protestar e mostrar a sua indignação perante a insensibilidade, para não dizer desumanidade, dos que nos desgovernam. 

Participarei na maré da Educação. Contra tudo o que seria lógico, a Educação é um dos sectores mais sacrificados da sociedade. Desinvestir na Educação é hipotecar o futuro das novas gerações, condenando-as ao abandono escolar e ao insucesso; é condenar os docentes mais qualificados a uma profunda decepção e a sacrifícios incomportáveis para a sua idade e indignos do seu percurso; por fim, é lançar para o desemprego muitos dos que apostaram numa carreira condigna, por gosto e legítima escolha.

Contudo, a manifestação que hoje terá lugar reunirá muitas outras marés, muitos outros sectores da população, desde jovens estudantes até pessoas aposentadas, passando por desempregados, mal empregados, precários e suas famílias.

Não é altura para ficar no sofá. Amanhã pode ser tarde e poderás ver-te com uma carta de demissão na mão, quando menos esperavas, ou constatares que não tens como pagar as contas ou as propinas dos teus filhos. 

Andar faz bem e ainda podes ver alguns amigos que não contavas encontrar.
Vamos evocar aqui o ano de 68, pois faz todo o sentido recuperar alguns dos seus princípios. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Na Mauritânia, meninas obesas sob tortura


Quvenzhané Wallis (a mais jovem atriz nomeada para um Óscar)

Silvana Mota-Ribeiro divulgou hoje na RTP Porto uma notícia que me arrepiou e me fez decidir voltar a este espaço comunicar o que me vai na alma. Então leiam, mas sentadas:
- Sabiam que na Mauritânia há campos de engorda, onde meninas e adolescentes são obrigadas a tornar-se obesas, sob tortura, para arranjar melhor marido?
Parece que 70% da população da Mauritânia acredita piamente que está a fazer um bem a estas meninas, pois segundo a sua crença ancestral, "quanto mais pesada for uma mulher maior o espaço que ocupará no coração de um homem"!!!

No mesmo programa esta feminista fez ainda uma chamada de atenção que me parece pertinente: - ao mesmo tempo que naquele país se engorda as meninas à força, a escassos milhares de Km, na Europa, é outra a tortura: a do emagrecimento forçado, pela moda, pelo medo da exclusão social, e talvez também, para arranjar melhor marido... quem sabe!
Concordo, pois esta situação tem aumentado exponencialmente nos países desenvolvidos, com clínicas de emagrecimento a proliferar por toda a parte e meninas cada vez mais novinhas a pedir aos pais cirurgias plásticas para transformar o corpo. No desejo de se assemelharem às top-models anoréticas das passarelles da moda internacional, estas "torturas" auto-infligidas são também elas contra-natura. Ou não?  

Também as tristemente célebres mutilações genitais, que se praticam quase por toda a África, e não só, se fazem ainda em nome de uma tradição ancestral e uma crença antiga e fortemente arreigada nas populações, segundo a qual se estará a "fazer um bem à menina", evitando assim a sua exclusão social, além de ter a vantagem de lhe "retirar os demónios do corpo"!

Multiculturalismo, muito bem. Tolerância, muito bem. Aceitação das diferenças entre os povos, muito bem. Mas nunca, se as práticas em questão, ainda que em nome da Cultura, forem autênticas barbaridades que atentam contra os mais elementares Direitos dos seres Humanos, na sua integridade física ou psíquica. 
Jamais situações deste teor são aceitáveis e deveriam ser fortemente sancionadas. 
Mas para isso teriam os governos de ter vontade política e desenvolver campanhas de esclarecimento massivas junto das populações para desmitificar tais barbaridades ancestrais e remover os meios para as suas práticas. 
No caso da Mauritânia, é urgente uma ampla denúncia para acabar com esses campos de tortura. Nos países onde se praticam as mutilações genitais, estas deveriam ser proibidas pura e simplesmente, prendendo os prevaricadores. Estes, quer sejam médicos, cirurgiões encartados, curandeiros, bruxos, comadres, avós ou tias velhas, se não matam mesmo, mutilam para sempre, no corpo e na alma, meninas a quem é negado o direito de ser mulher.

Parabéns ao Rio de Janeiro


A cidade maravilhosa faz hoje 448 anos da sua fundação oficial. 
Muitos parabéns a todos os cariocas! Eis aqui um pouco da História:

Aniversário da Cidade
1º de março ou 20 de janeiro? - Muitos ficam indecisos entre as duas datas. Por isso, inúmeras vezes se tem comemorado o aniversário do Rio de Janeiro no dia do santo padroeiro. Para afastar quaisquer dúvidas, fica aqui registado sucintamente o episódio de fundação da cidade. Em 1555, os franceses invadiram o Rio de Janeiro pretendendo aqui fundar uma colónia. Em 1564, os portugueses resolveram, enfim, organizar uma expedição para expulsá-los e fundar uma cidade fortificada com o objetivo de impedir para sempre outras investidas. Estácio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, chegou em terras cariocas no dia 28 de fevereiro com alguns navios e soldados, desembarcando na praia entre o morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar. No dia seguinte, 1º de março de 1565, fundou oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao rei menino de Portugal e escolheu o santo de mesmo nome para padroeiro, a quem se presta homenagem no dia 20 de janeiro. A lenda diz que o mordomo encarregado de cuidar da capela do santo foi atacado por índios. Invocou seu nome e imediatamente chegaram reforços. Em uma das canoas um moço louro lutou bravamente, desaparecendo depois de finda a batalha. Foi identificado como sendo o santo padroeiro que lutara em defesa de sua cidade.
Por feliz coincidência (?), um grande mestre do samba, natural do Rio de Janeiro e ele próprio um símbolo da cultura carioca, o pagodeiro Jorge Aragão, faz também hoje 64 anos. Desejo-lhe muitos mais anos de vida, para nos brindar com o seu talento e as suas músicas inigualáveis. Parabéns! 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

4º aniversário da Pérola de Cultura


Ilustração: (c) Ziba Karbassi

Não fosse o Sol estar presente para alegrar esta manhã fria de inverno, nem me teria lembrado que hoje é dia 24 de fevereiro e que, precisamente há 4 anos, decidi criar este espaço de partilha e prazer. 
Ter-me lembrado deste aniversário fez-me por momentos voltar a estas páginas, das quais, por via de muitos afazeres e alguns constrangimentos impostos pelo maravilhoso mundo da Internet, me tenho mantido arredada.
Não houve jantar com os amigos que tão gentilmente colaboraram, nem bolo de aniversário como habitualmente, mas a crise tem-nos deixado a todos num tal estado de torpor e desânimo que não admira que não haja nem espírito nem euros para a festa.
Não quero porém deixar passar esta data sem vos dar a todos um abraço com muito carinho e gratidão: aos que lêem, aos que comentam, mas especialmente àqueles que durante quatro anos fizeram deste Blogue um conjunto de páginas dignas, de divulgação da Cultura, das Artes ou das Ciências, sempre com bom gosto e, sobretudo, bastante autenticidade no que escreveram ou desenharam. 
Bem hajam pelas vossas colaborações e até sempre. Vemo-nos por aí.
Por hoje fica um brinde à vossa saúde, em noite de Lua cheia!
Com amor,

Lelé Batita

Obrigada Luís Diferr, pela simpática dedicatória "4 anos de Pérolas rolantes, contra ventos e Miguéis".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"O roubo do presente" por José Gil


"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-line enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."
José Gil, filósofo, in Visão

Sobre o entoar da canção "Grândola vila morena" que agora vem ressurgindo (primeiro num órgão de soberania como a Assembleia da República e depois junto do governante Miguel Relvas), eis a interpretação de José Gil na TSF.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Valter Hugo Mãe sobre os professores


Os professores 
 "Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito
... Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os
professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se."
Texto de Valter Hugo Mãe 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Bento XVI volta a ser Joseph Ratzinger

Este é um Blogue crítico, reflexivo,  descomprometido e irreverente. Muitas vezes a roçar o ateísmo. 
O que não significa que todos os que aqui escrevem sejam como eu. Há um respeito pelos sentimentos de fé dos meus amigos e colaboradores.
Porém, não esconderei a satisfação que me deu saber que o atual Papa apresentou a sua demissão do cargo de Sumo Pontífice da Igreja Católica. 
Nessa mesma Igreja fui educada e dela me afastei, provavelmente de forma irreversível, desde que comecei a pensar nas barbaridades e incongruências praticadas em nome da fé cristã.

Joseph Ratzinger, o Papa bento XVI
Desde as cruzadas aos autos-de-fé, passando pelas atrocidades cometidas contra homens de Ciência e crimes de incesto nas próprias famílias dos Papas (como os famigerados Bórgia, por exemplo), uma avalanche de atos repulsivos buliram para sempre com a minha consciência de cristã (católica na infância, com comunhão, crisma e tudo) e deixei de me sentir uma das ovelhas dessa imensa comunidade no mundo.
O mesmo penso em relação a todos os fundamentalismos religiosos que usam o nome de Deus, quer se chame Alá, Jeová ou Nosso Senhor, para lesar o próximo e atacar os direitos humanos e a liberdade de pensamento e expressão, excluir minorias ou ditar de cátedra que isto é bom e Deus aceita, aquilo é mau e que Deus repudia. O que é normal e o que é anormal, o que deve e o que não deve ser feito. 

"Devemos ser todos irmãos em Cristo", repetem os Papas. 
Se calhar é em nome de uma duvidosa tolerância que se convida todos os tipos de líderes de Estado para a festa da "coroação", mesmo que sejam autores de atrocidades (como os ditadores Mugabe ou Kadhafi). Mas não somos todos irmãos? Não devemos perdoar e dar a outra face?
Porquê então a ausência do Dalai Lama, também ele chefe de Estado e líder religioso?

Em tempos idos não éramos assim "tão" irmãos de Giordano Bruno e Galileu Galilei, quando torturámos, espancámos e queimámos vivo o primeiro e arruinámos a carreira, queimámos os livros, mostrámos os instrumentos de tortura e condenámos a prisão domiciliária perpétua o segundo, pois não? 

Também não queremos ser irmãos de pessoas que por "azar" se apaixonam por outras que nasceram com o sexo semelhante ao nosso, pois é contra-natura e Deus vai achar repulsivo. 
Deus também não vai gostar que nos deitemos com o nosso namorado antes do casamento, pois, se calhar, quem sabe, após a experiência, já não queiramos casar com aquele mas sim procurar outro com quem as coisas funcionem melhor. Sim, porque isto do corpo também tem as suas empatias. Mas não, sexo é pecado se não for com o exclusivo propósito da procriação. E tudo o que é pecado é sujo e feio e, como tal, Deus não gosta.

Como uma das prerrogativas do Papa é (ou era) ser infalível, nenhum dos seus ditames pode ser questionado, porquanto todas as encíclicas assinadas pela sua mão, passam a ter o mesmo valor das Sagradas Escrituras, que supostamente foram ditadas pelo próprio Deus e da palavra divina ninguém pode duvidar. Se o Sumo Pontífice da Igreja Católica é infalível e até lhe chamam o Santo Padre, se é Santo não se pode enganar e é como se fosse Deus na Terra. Sabe o que faz e diz, e o que diz é sagrado verbo. O que escreve é de cera forma também uma "sagrada escritura", já que ganha força de lei. Para não ser questionada e para dela ninguém poder duvidar assume-se como dogma.

Perdão, mas não funciono com dogmatismos e para mim não há homens infalíveis e nem santos. Nem Papas, nem Ayatollahs, nem gurus de nenhuma espécie.

Diálogo e abertura na Igreja, precisa-se urgentemente. Reconhecer erros do passado, também não faz mal a ninguém, mas mais importante do que isso é pensar no presente e projetar-se no futuro e saber que Igreja queremos ter e para quê.  

Nunca escondi a minha antipatia por Joseph Ratzinger, desde a primeira hora. Sabia que ele fazia parte da ala mais conservadora e retrógrada dos Cardeais do Vaticano e tinha responsabilidades na excomunhão de católicos progressistas, como por exemplo, Leonardo Boff e outras pessoas ligadas a interpretações teológicas mais liberais. 
A minha má impressão sobre aquele que muitos viram como um grande pensador ou mesmo filósofo alemão, poliglota, culto, reflexivo e moderno, confirmou-se quando soube das suas ligações à Juventude Hitleriana e, last but not least, a imperdoável omissão sobre o conhecimento dos factos ligados aos crimes de pedofilia nas fileiras da Igreja, cujos dossiers ignorou propositadamente, só tendo vindo a admitir a sua existência anos mais tarde.

Depois disso, só ocasionalmente ouvi falar dele, pois propositadamente, decidi não perder tempo com a sua pessoa, as suas viagens, as suas campanhas anti-preservativo e outros dislates afins.
Não gostei nunca das suas falas mansas que cheiram a falso, pois manso é que ele não é e não deve ser tão cordeiro como quer fazer parecer. 

Ratzinger evidencia algumas fragilidades, o que é normal para a sua idade e condição física. E neste momento revelou lucidez e sentido de oportunidade, e aqui tenho de lhe tirar o chapéu, ao apresentar a demissão e terminar as suas funções na vida pública, antes de nos sujeitar ao espetáculo degradante a que assistimos com João Paulo II nos últimos anos do seu pontificado. 
É a primeira vez desde há séculos que um Papa sai de funções a não ser pela mão pesada da morte.

"Já não me sinto com forças para continuar a governar barca de S. Pedro"Aqui o intolerante, preconceituoso e rígido Ratzinger portou-se mais como um homem de Estado (o Vaticano é isso mesmo e não só a sede da Igreja Católica Apostólica Romana) do que como Papa, o que atesta a sua formação alemã e pragmática. A mesma faceta demonstrou ao aderir ao Twitter e começar a enviar mensagens a mais de um milhão e meio de seguidores. Qual Cavaco Silva!
Faz bem em sair de cena pela porta grande, antes de começar a ter desmaios, quedas e a babar-se ou adormecer durante os discursos. Aufwiedersehen Joseph; e obrigada por nos poupares!

Muitos crentes viram no raio que supostamente caiu sobre o teto da Basílica de S. Pedro algum tempo depois um sinal do céu. Parecia "Deus a manifestar-se". 
Pode ser, mas a manifestar o quê? Raiva, júbilo, alívio? 
Seria o equivalente do terramoto de hoje de manhã, após as experiências nucleares realizadas por aqueles loucos megalómanos na Coreia do Norte?
Os deuses não são distraídos como se possa pensar! E os artistas da fotografia também não...

Ver aqui a imagem do raio sobre a Basílica de S. Pedro em Roma.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eis a explicação



Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault:


Colbert: - 
Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço...
Mazarino: - 
Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado... é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: - 
Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: - 
Criando outros.
Colbert: - 
Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: - 
Sim, é impossível.
Colbert: - 
E sobre os ricos?
Mazarino: - 
Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: - 
Então como faremos?
Mazarino: - 
Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer, e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Aniversário de Almeida Garrett

"Almeida Garrett e a Cidade Invicta", (c) José Ruy

PREITO

É lei do tempo, Senhora,
Que ninguém domine agora
E todos queiram reinar.
Quanto vale nesta hora
Um vassalo bem sujeito,
Leal de homenage e preito
E fácil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora:
E aqui juro e firmo agora
Que a um despótico reinar
Me rendo todo nesta hora,
Que a liberdade sujeito...
Não a reis! - outro é meu preito:
Anjos me hão-de governar.

“Folhas Caídas” Almeida Garrett,
Vinhetas do álbum em BD de José Ruy 
“ALMEIDA GARRETT E A CIDADE INVICTA”
"Almeida Garrett e a Cidade Invicta", (c) José Ruy

A 4 de fevereiro de 1799 nasce no Porto, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett. Escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português, foi o grande impulsionador do teatro em Portugal. Propôs a edificação do Teatro Nacional e a criação do Conservatório. Em 1816 inscreveu-se na Faculdade de Leis e tomou contacto com os ideais liberais. Em 1843 começou a publicar as “Viagens na Minha Terra”. Foi o homem que deu à língua portuguesa o preceito de modernidade.

Cortesia de Tita Fan

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Blogging connecting people *

Lelé Batita, editora deste Blogue, abraçada por Anabela Magalhães
Foto de Armanda Sousa, 26-01-2013, Lisboa

Afetos são coisas do coração. Lutas são coisas da razão e da lógica. Se os segundos se decidem, com hora e dia marcado, já os primeiros não só não se decidem como não se escolhem.
Antes mesmo de ter encontrado pela primeira vez pessoalmente a Anabela Magalhães em Lisboa, já a "conhecia" razoavelmente do seu Blogue com o mesmo nome.
A empatia não se fez demorar e antes se confirmou em presença.
Esse era um tempo em que não havia divisões partidocráticas e Maria de Lurdes Rodrigues com Jorge Pedreira e Valter Lemos tinham conseguido colocar contra si a esmagadora maioria da classe docente. De tal modo foi a avalanche que até mulheres de membros do partido do governo de Sócrates iam para a rua engrossar as manifestações. Era um tempo em que os Blogues da esfera docente se uniram aos movimentos independentes de professores para não raramente tomarem em mãos a mobilização dos professores de todos os graus de ensino e arrastar consigo as forças sindicais, quantas vezes hesitantes e conciliadoras.
Desse tempo vem a minha amizade com a Anabela. Ela mulher do Norte, eu do Sul, temos em comum a coerência e o horror à cobardia. E quantas faturas temos pago por causa disso. Mas ainda assim, parece que não nos conseguem parar nem calar, enquanto as injustiças e os absurdos nos baterem à porta.
Ao longo dos anos a Anabela veio a revelar-se uma das bloggers mais ativas e participativas em todas as lutas da classe docente. Grande professora, mulher de armas e sem dúvida alguma, uma boa amiga.
A Armanda Sousa, outra grande mulher do Norte, excelente professora e grande colega, com o seu espírito de guerreira celta, também veio por aí abaixo, de câmara fotográfica em punho e apanhou este que considerei um dos mais belos momentos do dia. Sob o olhar atento do meu compagnon de route, Luís Diferr, este foi mesmo "aquele abraço"!
Obrigada, queridas amigas por, estando tão longe, me fazerem sentir tão perto.

(* máxima adaptada da campanha da Nokia por Renny Bakke Amundsen, blogger norueguês e um dos  meus melhores amigos fora de portas)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Os Miseráveis


Para os amantes da História, aqui está uma excelente metáfora dos dias conturbados pós-Revolução Francesa. 
Jean Valjean, entre a tortura dos trabalhos forçados e as constantes fugas do seu inimigo de longa data Javert, encontra a ternura de uma menina, órfã de uma antiga empregada sua, dos tempos de anonimato, cuja candura o faz mudar para sempre. 
Por dentro do sobrevivente aventureiro existe a ternura de um pai, um amigo e companheiro de lutas, que fica inesquecível na memória de todos os que tenham lido este épico maravilhoso de Victor Hugo. 
Têm sido muitas as adaptações ao cinema e mais recentemente ao teatro musical, de cuja peça nasceu esta última produção. 
Desde 1958, com Jean Gabin, até 2000 com Gérard Depardieu e John Malkovitch, passando pela criação de Claude Lélouch com Jean-Paul Belmondo em 1995, e uma outra com Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman e Clare Danes em 1998, o público cinéfilo tem vindo a apreciar as várias versões de "Os Miseráveis". 
Esta última, nomeada para vários Óscares, encantou-me, não só pela excelência das reconstituições, como também pelas metáforas, belíssimas, da Revolução. 
A cena final evoca claramente "A Liberdade guiando o Povo" de Delacroix, enquanto a primeira cena nos remete para filmes como o "Ben-Hur" ou "Quo Vadis", pelos planos e pelas cenografias esplendorosas.
Mas a verdadeira e melhor surpresa são atores como Russell Crowe ou Hugh Jackman a cantarem mesmo bem e sem dobragem. 
Anne Hathaway é comovedora pela forma convincente como canta. 
E claro, a bela e dotada Amanda Syfried, que desde "Mamma Mia", cada vez canta melhor. 
Vale a pena ver este filme, do mesmo produtor de "O Fantasma da Ópera" e do realizador de "O Discurso do Rei", Tom Hooper
Três horas de pura excelência e encanto.  



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Peter Pan amoral e Sininho insuportável



(c)Disney

As crianças não são hiperactivas, são mal-educadas

É uma comédia que se acumula no dia-a-dia. Um sujeito vai ao café ler o jornal, e o café está inundado de crianças que não respeitam nada, nem os pardalitos e os pombos, e os pais "ai, desculpe, ele é hiperactivo", que é como quem diz "repare, ele não é mal-educado, ou seja, eu não falhei e não estou a falhar como pai neste preciso momento porque devia levantar o rabo da cadeira para o meter na ordem, mas a questão é que isto é uma questão médica, técnica, sabe?, uma questão que está acima da minha vontade e da vontade do meu menino, olhe, repare como ele aperta o pescoço àquele pombinho, é mais forte do que ele, está a ver?". E o pior é que a comédia já chegou aos jornais. Parece que entre 2007 e 2011 disparou o consumo de medicamentos para a hiperactividade. Parece que os médicos estão preocupados e os pais apreensivos com o efeito dos remédios na personalidade dos filhos. Quem diria?
Como é óbvio, existem crianças realmente hiperactivas (que o Altíssimo dê amor e paciência aos pais), mas não me venham com histórias: este aumento massivo de crianças hiperactivas não resulta de uma epidemia repentina da doença mas da ausência de regras, da incapacidade que milhares e milhares de pais revelam na hora de impor uma educação moral aos filhos. Aliás, isto é o reflexo da sociedade que criámos. Se um pai der uma palmada na mão de um filho num sítio público (digamos, durante uma birra num café ou supermercado), as pessoas à volta olham para o dito pai como se ele fosse um leproso. Neste ambiente, é mais fácil dar umas gotinhas de medicamento do que dar uma palmada, do que fazer cara feia, do que ralhar a sério, do que pôr de castigo. Não se faz nada disto, não se diz não a uma criança, porque, ora essa, é feio, é do antigamente, é inconstitucional.
Vivendo neste aquário de rosas e pozinhos da Sininho, as crianças acabam por se transformar em estafermos insuportáveis, em Peter Pan amorais sem respeito por ninguém. Levantam a mão aos avós, mas os pais ficam sentados. E, depois, os pais que recusam educá-los querem que umas gotinhas resolvam a ausência de uma educação moral. Sim, moral. Eu sei que palavra moral deixa logo os pedagogos pós-moderninhos de mãos no ar, ai, ai, que não podemos confrontar as crianças com o mal, mas fiquem lá com as gotinhas que eu fico com o mal.

Henrique Raposo

domingo, 6 de janeiro de 2013

Feliz Dia de Reis

 Imagem tradicional dos três Reis Magos


Imagem atual dos três Reis Magos sem presentes e congelados

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz Ano Novo

(c) Charles Schulz

Ponderei seriamente se havia ou não de assinalar os habituais votos de Bom Ano. Acho que sim, os leitores merecem e os amigos também. 
Não é que a disposição seja de festa, bem pelo contrário, sei bem que a partir da meia-noite, a vida de todos nós está para piorar. Só já peço a saúde necessária para poder trabalhar; assim o emprego não me fuja.
Não encontrei melhor imagem para assinalar este momento do que esta de Charles Schulz, pois lembrou-me o que me vai na minha sala de aula, com 30 criancinhas aos berros e mais ou menos uma "baita confusão"...
Para todos os que ainda por aqui passam, o meu abraço fraterno e desejo de muita força para enfrentar o que vier.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Natal

Rafael - A Sagrada Família 

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce...
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

Miguel Torga

(Enviado por Carmela)

A arte de ensinar


A arte de ensinar não se aprende. Para se ensinar tem que existir uma, diria, vocação inata.
É muito mais importante ter-se conhecimentos medianos e conseguir transmiti-los na sua maioria do que ser, o que se chama um génio, mas nada, ou quase nada, passar para os seus discentes.
A relação que se cria entre o tutor e o aprendiz também é essencial.
Estamos em tempos de mudanças sociais, sejam elas quais forem, e consequentemente os paradigmas pedagógicos estão a alterar-se. Por muito difícil que seja, cabe ao professor a sua adaptação a esta nova realidade. Muitos dizem que “o ensino já não é o que era” e têm razão. Eu, em vez de conotar negativamente esta frase, prefiro reflectir e dar passos que motivem os alunos para se empenharem e investirem na sua peça mais preciosa, o cérebro.
Diria que a mudança é inversamente proporcional à idade do indivíduo, no entanto, já vi "séniores" mais actualizados do que alguns jovens. Esta afirmação é pessoal e meramente percepcional, sem qualquer tipo de estudo para a confirmar e é afirmada com base de uma experiência de vida.
É certo que todos nós temos de mudar e cabe-nos dar esse passo.
Olho à minha volta e vejo muitos docentes que se recusam a mudar e não conseguem ver que estão fora de tempo porque, “sempre foi assim” e os malandros d’"os alunos é que não me compreendem".
Felizmente que a maioria não é assim. Neste tempo de mudança estão a aparecer muitas formas diferentes de ensinar, especialmente relacionadas com o uso das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC).
Se, por um lado, nunca houve tanta mudança em tão pouco tempo, por outro, nunca houve tantas formas possíveis de divergirmos as nossas estratégias de ensino.
Será que ainda existem professores que se recusem a utilizá-las?
Repito, temos o dever de alterar as nossas formas de ensinar, em prol de contrariar a tendência da desactualização dos padrões de ensino.
Só assim se é um verdadeiro professor.

O que não sabe pensar