sexta-feira, 14 de maio de 2010

Professoras indignadas com livro infantil que as compara a vacas



Docentes criticam piada que surge em fase de ataques de alunos à sua autoridade

"Uma anedota destinada a crianças que compara o professor a uma vaca está a causar mal-estar junto da classe e até já levou docentes a queixarem-se à editora Civilização, responsável pelo livro infantil onde foi publicada (ver imagem). Os professores entendem que a piada surge na pior altura, precisamente quando sucedem casos de ataques de alunos à sua autoridade.

A editora já anunciou que vai retirar a anedota do livro 365 Piadas Novas, indicado para crianças a partir dos sete anos. "Recebemos duas ou três cartas de professores e como estamos a fazer uma nova impressão decidimos retirar essa anedota. Por isso, na nova edição já não aparece", adiantou ao DN a directora editorial da Civilização, Simona Cattabiani.

No entanto, este é um episódio que os professores dizem ser lamentável. "Da nossa parte só posso manifestar repúdio por essa piada", refere João Dias da Silva, dirigente da Federação Nacional da Educação (FNE). Já o professor Ramiro Marques, que foi o primeiro a denunciar publicamente o caso no seu blogue ProfBlog, vê a publicação da anedota como "uma falha de supervisão da editora". Apesar de desvalorizar o incidente, o professor admite que "a situação tem a sua gravidade". Até porque "há muitos alunos que chamam vacas às professoras. E esse é que é o problema", sublinha Ramiro Marques.

A intenção do autor é algo que os docentes querem ver esclarecido. O líder do Movimento Mobilização e Unidade dos Professores (MUP), Ílidio Trindade, defende que "é preciso saber se é pura invenção ou se o autor pretende ironicamente demonstrar o que será a forma como são vistos os professores pela sociedade". De qualquer modo, Ílidio Trindade entende que esta anedota "é uma vergonha".

Para Ramiro Marques, a anedota é levada ainda mais a sério devido às circunstâncias. "Veio numa altura má, porque os professores lidam com injúrias todos os dias e não conseguem travá-las. Os alunos desrespeitam-nos e os pais depois ainda os defendem", explica. O docente acrescenta que se o livro tivesse saído há seis anos ninguém ia levar a mal.

O autor do blogue conta que foram colegas da escola que lhe mostraram o livro com a anedota. Na sua opinião, este tipo de situações só acontece porque, em tempos, responsáveis, como secretários de Estado e directores regionais da Educação, puseram em causa a imagem dos professores. E claro que isto se reflecte no bem-estar e na motivação dos professores, alerta Ramiro Marques.

Quanto ao impacto que esta anedota pode ter nas crianças, o psicólogo Jorge Gravanita diz que cabe aos pais desvalorizar a situação. "É uma piada de mau gosto, mas os pais devem explicar o seu sentido", esclarece.

O livro está na 4.ª edição, o que significa que "já vendeu bastante", adianta Simona Cattabiani, da Civilização, que garante: "Não pensámos que pudesse ser ofensivo. A pensar assim todas as anedotas podiam ser entendidas como ofensivas.""


DN Portugal, por ANA BELA FERREIRA, 14 de Maio de 2010


Não tentemos branquear a coisa. O conteúdo é injurioso e de um enorme mau gosto, além de encerrar um profundo desrespeito pelos docentes, mais particularmente pelas mulheres, que constituem a maioria dos professores deste país.

Constato pelos muitos comentários deixados nos blogues de professores e também no Facebook que são as professoras a sentir muitíssimo mais este insulto como algo que as afecta na sua condição de docentes e cidadãs, do que aos seus colegas homens. Até certo ponto é compreensível, pois nenhum colega homem sabe o que é que uma mulher sente se for chamada de vaca.

Mas, a relativizarmos a importância deste episódio, estamos a aceitar tacitamente que se pode faltar ao respeito à figura da professora, o que infelizmente a sociedade parece já ter assumido como normal e corriqueiro.

Caros colegas: vocês são pais, filhos, irmãos e maridos de mulheres.
Experimentem imaginar o que sentiriam se um dia destes uma das mulheres da vossa vida entrasse em casa e vos confrontasse com o facto de ter sido insultada por um aluno ou aluna nos referidos termos...
O que fariam? Diriam para desconsiderar, que "era apenas uma anedota inocente"?

Deixamos passar coisas como esta, que são sementes de ervas daninhas na falta de ética, hoje numa editora, amanhã noutro contexto, e depois queixamo-nos que já não temos mão na má educação e falta de respeito dos alunos e dos pais?

Espero que a Editora cumpra o que promete acima e retire mesmo a infeliz "anedota" na próxima edição do livro. Porém, até lá, os exemplares que ainda se encontram à venda continuarão a espalhar a lamentável ideologia de tratar as professoras como vacas.

E não me venham com a história de que a vaca até é um animal amistoso e simpático, como a coruja ou qualquer outro, porque toda a gente sabe o que é que em Portugal significa chamar vaca a uma mulher! Ora façam-me o favor de não nos tomarem por tolinhas ou ingénuas!

Publico aqui o e-mail enviado pela colega professora e blogger Olinda Gil, que concorda comigo:


Colegas
Enviei o seguinte mail à editora Civilização que nos insulta num livro de anedotas para crianças.
Espero que se indignem e mandem muitos mais mails a esta editora para que não continuem a gozar connosco.


info@civilizacao.pt

Ex.mos Senhores

Esqueceram-se de que os professores são as pessoas que mais compram livros neste país e que fazem com que os outros os comprem.
Uma editora que se chama "Civilização" e que trata assim os professores de um país não pode continuar a ser digna da minha preferência.
Num país onde a falta de autoridade dos professores é cada vez maior, em vez de termos as editoras do nosso lado no combate à iliteracia e desenvolvendo a civilização do povo, assistimos a este lamentável enxovalho.
Nunca mais comprarei livros da vossa editora e vou divulgar por todos os meus contactos este mail, para que saibam da minha indignação.

A professora

Olinda Gil


Actualização: O Forum EDUCAR já reagiu a esta publicação com um artigo, aqui: "Como é possível que se chegasse a isto?"
Têm-me chegado em grande número protestos de colegas professoras via e-mail, dando conta da indignação e também cópias de mensagens enviadas à Editora Civilização.

25 comentários:

  1. Tomei conhecimento deste caso no teu blogue e tenho divulgado esta humilhação a todos os meus contactos. Se todos se indignassem as anedotas acabavam.

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  2. Sabes, Lelé, eu não me admiro nada que sejamos nós , mulheres, a ficarmos incomodadas e a não desvalorizarmos a questão. mas isto dá pano para outras mangas. só gostaria de ver a reacção dos nossos colegas, se em vez de professora vaca, estivesse um professor apelidado com o vernáculo "cabrão". (em muitas zonas do país esta é a pior ofensa que se pode fazer a um homem e já houve quem matasse por isso...é só ler notícias atrasadas).

    Vou fazer o mesmo que a colega Olinda. Também lhes vou escrever.
    beijo no <3

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  3. Isto não tem graça nenhuma, é um enxovalho inadmissível, ainda mais vindo de uma Editora que publica livros para crianças em idade escolar. Aqui no que me concerne, não passa!
    Enviei a notícia ontem a todos os colegas professores, mas é sintomático que só as mulheres se tenham indignado...

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  4. Que dão os cabrões?
    - Os cabrões dão maus livros para as crianças lerem!

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  5. Pronto!
    Sabia que isto por aqui iria entrar pelo politicamente incorrecto.
    Mas não faz mal.
    Puseram-se a jeito, não foi?
    Agora aguentem-se!

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  6. Pois, Luís! Eu bem que pensei nessa...
    beijinho

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  7. Desculpem mas não consegui resistir a dizer uma coisa. Desculpas antecipadas, Lelé.

    Então terminem-se com as anedotas de alentejanos, das gentes do Porto, das gentes de Lisboa, dos Açores e da Madeira. Termine-se já agora com o contra informação também e outros programas do género. As caricaturas também podem ser insulto, como de resto já se viu na Dinamarca.

    Isto anda mau...

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  8. (ainda para o Luís)
    podes fazer um um boneco para ilustrar, a vr se gostam. é melhor não!

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  9. Desculpem que diga mais uma coisa. Já repararam que agora, com este espalhafato todo, vocês só estão a conseguir dar mais publicidade ao caso fazendo com que, o que poderia ser algo que passava despercebido venha a ser do conhecimento público?

    O que antes iria chegar a meia dúzia de crianças agora, com tanta pub, chega a todas. Mas pronto.

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  10. Terás razão nessa parte Elenáro.
    Mas por outro lado, o bom nome da Editora, se é que o tinha ... tadinho!
    Entre as professoras deste país, certamente, vai perder muita clientela.
    Como diz a Olinda, os professores são quem mais compra livros.
    E mais, são quem os adopta e leva os alunos a comprá-los.
    Já pensaste nisso?

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  11. A editora foi, de facto, extremamente infeliz!
    Fico contente por saber que vão retirar a piada de mau gosto.

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  12. Mas por outro lado, o bom nome da Editora, se é que o tinha ... tadinho!

    Lelé, e o que se ganha com isso? Menos uma editora num país que já tem os problemas de concorrência a nível de publicação de livros como tem?

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  13. Elenário - Não posso concordar consigo. Não sei se é professor mas gostava de saber como reagiria, caso seja professor, se lhe chamassem, por exemplo, filho da puta. Talvez não estivessem a chamar puta à sua mãe pois, aqui no Norte, tal expressão é usada, muitas vezes, para encher frases como se usa "pois", "potanto", "quer dizer", etc.

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  14. Elenaro

    A questão não é a existência de anedotas, mas o facto de o seu teor ser ofensivo.
    Poderiam existir anedotas à figura da professora sem a ofender e a toda uma classe profissional.
    Só que isso não foi acautelado e as consequências jogam certamente contra nós, na conjuntura actual que o sistema educativo está a viver.

    Sabes como as crianças são permeáveis à deformação, ao preconceito, às ideias feitas e aos mitos.
    Sei do que falo, pois, apesar de não lidar com crianças, enfrento todos os dias isso mesmo nas minhas aulas.

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  15. Deve ser feita uma petição on-line para suspender a venda deste livro infantil.E processar por difamação o autor do livro.
    Considero uma brincadeira de mau gosto e um atentado à dignidade profissional de toda a classe docente.

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  16. Não precisa de me ensinar como se fala no Norte. Também sou de cá. E eu nunca disse que se tinha que gostar. Aliás, já repeti várias vezes que a piada foi de mau gosto e demonstrou falta de bom senso da editora.

    Está a pegar por aquilo que eu não disse. Só disse e repito (outra vez e para que fique claro) é que, já se tendo chamado a atenção à editora e esta até já tenha respondido que vai retirar a dita cuja do livro, o assunto está resolvido.

    Continuar a bater no ceguinho não vai mudar o que foi feito nem fazer com que as pessoas devolvam o livro que já compraram. É um exercício desgastante para quem o faz e distrai dos verdadeiros problemas que estão nas escolas (por exemplo e já que falamos em editoras: os péssimos manuais que por aí andam; alguns parecem livros para bebés com tanta cor e imagem e pouca informação de interesse/relevante) e, sobretudo, aqueles que são atirados do ministério.

    Penso que todos temos mais onde gastar as energias do que levar uma editora à falência por um erro de mau gosto.

    Falando nisso, não vi indignação quando houve um senhor que, referindo-se ao Primeiro-Ministro, lhe chamou Trocaste ou lá o que foi. Aí vi exactamente o contrário. Risos e até aplausos por toda a comunidade docente. Isto agora é só para os outros? Convém que não nos esqueçamos do que fizemos ontem! É que nos podemos tramar com o que vem amanhã.

    Bem sei que no caso do PM, com tanta reviravolta e cambalhota que o senhor dá... Enfim.

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  17. Lelé

    Já disse o mesmo no meu blogue.

    E como já te disse também, a questão aqui é o alarido todo que se fez. Resumindo, o meu problema não com o fazer ou não mas sim com o como.

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  18. Elenaro
    Digamos que, embora eu não seja apologista de piadas de mau gosto, a cena do "Trocas-te" ou lá o que foi, era, de facto, hilariante, mais ainda por ter sido um lapso (completamente involuntário) e de modo algum um insulto.

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  19. P.S.: Peço desculpa por algum do português no comentário das 23:39.

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  20. Não foi involuntário segundo sei Lelé... Em todo o caso, voluntário ou não, o problema é essencialmente o mesmo. Ninguém te garante que a piada da vaca tenha sido propositadamente uma afronta aos professores. Pode ter sido perfeitamente inocente. Aliás, correndo o risco de estar a ser ingénuo, prefiro acreditar que foi inocente.

    Em todo o caso, a troca do nome para o que foi dito pelo cavalheiro podia ter sido um insulto do ponto de vista do PM. O problema com esta situação é que se está a ver só um lado e não o outro.

    O que era humor inofensivo para um era insulto para outro. Temos que ver os dois lados.

    Mais uma vez, ninguém garante a ninguém, especialmente agora, que inicialmente aquilo não tenha sido uma piada perfeitamente inocente.

    Como vês a questão é a mesma. Depende do ponto de vista. A única que não tem desculpa aqui é a editora que devia ter previsto todos os cenários e não o fez. Mas também, se aquilo já vai na quarta edição como tu me disseste, o problema também não é de agora. Logo, mais uma vez, penso que há exagero na reacção neste momento.

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  21. Achas, por acaso, que se fosse uma piada inocente, em 4 edições (quatro!) o revisor que todas as editoras têm, AINDA estava distraído???? Tssssssss!

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  22. Há mais gente indignada no fórum do educare:

    http://smartforum.educare.pt/index.php?id=138689

    E da editora não há respostas aos nossos mails.

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  23. No mínimo, inquietante! Como é possível uma editora, dita de “Civilização”, deixar passar uma coisa destas? Concordo contigo, Lena, estas coisas não devem ser branqueadas, têm mesmo é que ser denunciadas!

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  24. Continuam a chegar ao meu conhecimento muitos protestos de professoras que, indignadas enviaram e-mails à Editora Civilização.

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  25. Comentário de uma "Vaca enlouquecida" pela "piadinha" infame da Editor Civilização...
    A situação é, no mínimo INQUALIFICÁVEL, e a suposta "piada" não tem nada de inocente. Não concordo com a posição daqueles que afirmam que, a referida "piada" não teria os mesmos efeitos 6 anos atrás, antes de ter tido início o processo de "desmoralização" da figura do docente. A "piada é grosseira, em qualquer quer fosse a ocasião.
    Considero que a Editora deveria ser imediatamente processada e, subsequentemente, valentemente multada, pelo "prejuízo moral avacalhante",causado à classe docente.
    O Estado português, antes de quem quer que seja, deveria, de imediato, tomar uma posição enérgica face a isto.
    Dudu, a vaca "enlouquecida"...
    17 Maio 2010

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