segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Vaticano - a permanente indigestão


São tantas as incongruências e as pontas deixadas pelo caminho no comportamento da Igreja de Roma, que o mínimo que se pode dizer é que esta instituição não me convence da sua honestidade e pretensa transparência.

Perante a onda de religiosidade efusiva que tem varrido o país nos últimos dias, não há publicação decente que não tenha feito dossiers mais ou menos exaustivos sobre as histórias da pedofilia no seio da Igreja, o silêncio cúmplice do Papa e as respectivas omissões.

Depois dos discursos inflamados de apelo à tolerância e compaixão, alguns dos quais me dei ao trabalho de ouvir, fica-me de tudo aquilo uma sensação de inautenticidade e falta de consistência.

O então Cardeal Josef Ratzinger esteve desde 1981 até 2005 à frente da Congregação da Doutrina da Fé, a instituição que sucedeu à Inquisição. Os chamados "dissidentes liberais" foram perseguidos; e teólogos progressistas, como por exemplo, Leonardo Boff, do Brasil, foram excomungados.

Aos seus homens de confiança, encarregados de investigar os casos de abusos sexuais de menores no seio da Igreja, a dita Congregação recomendou votos de segredo e silêncio, à boa maneira da Mafia, ameaçando-os de excomunhão, caso quebrassem o dever de discrição, sendo considerados traidores.

O resultado foi o silenciamento criminoso de todos os casos que era possível calar e o escamotear sistemático das violações de crianças por responsáveis de paróquias e dioceses, perpetuando na prática o abuso e a violência sobre inúmeros menores, em vários países ao longo de décadas.

Um exemplo flagrante de impunidade é o caso do Wisconsin nos EUA, onde o Padre Murphy abusou de cerca de 200 crianças surdas, e, apesar dos repetidos avisos de bispos norte-americanos, o Vaticano e Ratzinger, então Arcebispo na Alemanha e prefeito da Congregação, nada fizeram para afastá-lo.

Segundo documentos da Igreja entretanto vindos à luz do dia, o agora Papa pura e simplesmente ignorava as cartas dos bispos (por exemplo do Milwaukee), às quais nem sequer dava resposta, e mandou arquivar um processo aberto por ordem do Cardeal Tarcísio Bertone (actual Secretário de Estado do Vaticano) para demitir o padre Murphy.

Apesar de D. Saraiva Martins falar num "plano bem organizado, com um objectivo claro", dando a entender que essa pretensa "conspiração" visava descredibilizar a Igreja por ocasião da visita do Papa a Portugal, é por demais evidente que sobre o Vaticano pesa o ónus da culpa.

O ter silenciado crimes tão repugnantes ao longo do tempo, sem nunca termos verdadeiramente assistido a excomunhões de responsáveis pela pedofilia, (crime muitas vezes "punido" com ligeireza através de simples transferências de diocese e sem os devidos procedimentos disciplinares dentro da instituição), constitui, no meu entender, motivo mais do que suficiente para não depositar qualquer confiança nesta Igreja nem no seu responsável máximo.

Quando irá o Vaticano reconhecer estes erros, que são em grande medida da responsabilidade daquele que dizem por aí ser o doce, santo, amigo, sucessor de Pedro e o maior pensador do século XXI?



Ilustração do topo: PBertrams, Hel Parool, Amsterdam.
2ª Ilustração: autor desconhecido.

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