domingo, 4 de julho de 2010

A Titi acerta contas



“A hora de acertar contas” é o título do artigo que a revista VISÃO publica no seu último número (904, de 1 de Julho) e cuja leitura se aconselha vivamente a todos os professores, ou familiares conscientes de professores, ávidos de emoções fortes. O tema é o livro da insigne Maria de Lurdes Rodrigues (Milú), a ex-ministra que, não contente em ter zurzido os professores e a educação durante 4 anos e sete meses, “o mais longo e estável mandato no sector, após o 25 de Abril” (estável?!!?!), volta agora à carga, alicerçada no seu conhecimento dos factos e na sua opulência intelectual, que todos sabemos ter sido devidamente enquadrada por dois sólidos Secretários de Estado, quais contrafortes de um monumento gótico que se elevou a alturas sublimes e insondáveis para o comum mortal e das quais vislumbrou novos horizontes e oportunidades e rapinou “dados demolidores”.

A praxis esclarecida daquele triunvirato com cabeça pensadora é agora definitivamente imortalizada em letra de imprensa, felizmente numa época em que a reciclagem do papel vai ganhando terreno, o que não impedirá um ou outro exemplar de subsistir, em recônditas prateleiras de livros e também na Biblioteca Nacional, com o ISBN que a misericórdia lhe atribuiu, para que um leitor desprevenido tropece nas suas sílabas e se indigne talvez ou que um investigador futuro do tragicómico início do século XXI o venha a devorar como se de um prato de galantina se tratasse.

O retrato que Milú pinta da classe dos professores permanece consistente e belo e faz dela, como os grandes artistas de vanguarda, um arauto incompreendido (a não ser pelo nosso Primeiro Ministro, os dois referidos Secretários de Estado e o truculento ministro Santos Silva, que, por sinal, também lançou um livro certamente esclarecedor); não restam dúvidas, os professores são uma cambada de lorpas, absentistas e gabirus relapsos que, “a partir dos 40 anos de idade e dez de serviço” tinham o horário da componente lectiva “reduzido de 20 ou 22 horas semanais para 12 ou 14, podendo chegar às quatro horas (…)”, causando ao Estado um prejuízo mensal de 30 + 17 milhões de euros . Mas que bandidos! “Menos de 1% tinham um horário [completo]” e esses eram seguramente totós.

Outras situações escandalosas havia: “professores que não davam aulas há 20 anos progrediam e chegavam ao topo”; mas ninguém vem esclarecer que esses eram Presidentes do Conselho Executivo, os mesmos que foram premiados – pela mesma reforma espúria que pretensamente valorizava o mérito e que instituiu os Titulares – com o novo cargo de Directores, que implica um substancial acréscimo de salário.

Tudo isso são muitos milhões e ainda bem que Milú apareceu para pôr cobro à situação; a mulher revelou-se um valente xerife de Nottingham, mesmo com o Rei presente no país!

Claro que nesta sangria ninguém parece preocupar-se – vivemos momentos exaltantes de PECs e de medidas de contenção e rigor que rapinam os miseráveis do costume e corroem conquistas que tanto suor, sacrifício e sangue custaram na estrada do Capitalismo – dizia eu, ninguém nas alturas parece preocupar-se com as famosas e polpudas reformas como as que Milú provavelmente vai usufruir (professora do ISCTE, ex-ministra, presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e o que mais veremos), e às quais a agora feliz autora juntará os lautos proventos em direitos de autor.

Cedo ou tarde, será hora de acertar contas! E Milú, a visionária esclarecida, ficará para a História como a queirosiana Titi Maria do Patrocínio que tratou os professores como um Raposinho a quem suspeitosamente advertia:
- “Nada de relaxações! Nada de relaxações!”

Texto de Luís Diferr

Imagens: (c)EçaIlustrações

2 comentários:

  1. Grande texto, parabéns Luís!
    Penso que o texto tem de ser mais divulgado.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. É sem dúvida um excelente texto, servido por igualmente excelentes ilustrações.

    ResponderEliminar