quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Prada e o Pingo Doce

(c) Helmut Newton, Vogue, UK, 1966

"Continuo espantado com as reacções das almas bem-pensantes à promoção do Pingo Doce. Quem aproveitou - e apareceu no fórum da TSF - só elogiou. Afinal muita gente poupou muito dinheiro. A esquerda snob fala, do alto da sua sapiência, em "miséria humana" e pede a intervenção dos polícias da ASAE. De facto, o interesses dos mais desfavorecidos - os que foram às compras - nada lhe dizem. E se houve confusão, não foi maior nem mais feia do que se os saldos tivessem sido na loja da Prada. Mas aí estariam os snobes, não os pobres, e não haveria indignação, aposto. Porque é que não deixam em paz quem escolheu fazer uma promoção e quem decidiu beneficiar dela?"
José Manuel Fernandes 

Não poderia estar mais em desacordo com esta comparação infeliz entre os saldos na loja da Prada e a promoção de ontem nas lojas Pingo Doce.
Nunca fui a um saldo na Prada, mas vejo muitas vezes a população portuguesa a fazer compras no Pingo Doce. E posso garantir que a maioria não é composta por gente que frequenta as lojas da Prada.
Os que procuram caviar ou champagnes exóticos sabem bem onde encontrar esses produtos e há lojas gourmet especializadas neles. 
Muitas vezes se vê no Pingo Doce as pessoas que fazem contas à vida e aos tostões.
Provavelmente o José Manuel Fernandes não faz compras, deve ter quem as faça por ele.
Não sei quem ele costuma encontrar na Prada, mas eu e outros como eu, a quem chamam desdenhosamente da esquerda-caviar, encontramos muitas ciganas no Pingo Doce a pedir sistematicamente no balcão da charcutaria fiambre do mais barato ou no talho carne de cozer da pior qualidade, entrecosto ou mesmo toucinho. Os bifes, as costeletas e os lombinhos, nem vê-los! 
Enfim, povo, povão mesmo, daquele que cheira mal, pois para levar as carcaças e o leite, não leva o desodorizante!
Esse mesmo povão acotovelou-se, impacientou-se e emporcalhou bastante o espaço à sua volta, aproveitou para papar à borla em sinal de protesto pela espera nas filas das caixas e porque a larica ao fim de umas horas não perdoa. As boas maneiras e a educação para a cidadania, essas vão às urtigas sempre que a mostarda sobe ao nariz, ora pois, e é um vê-se-te-avias. 
Tudo isto para poupar uns tostões e lhe saber um pouco menos a fel o inferno de vida que lhe andam a impor, embora sem perceber a manipulação de que foi alvo. Pura ilusão.

2 comentários:

  1. De facto a comparação de José Manuel Fernandes foi infeliz. Porque se nos saldos da Prada há gente que se comporta assim, não sei se há que nunca assisti, esse facto não legitima a falta de civismo e a selvajaria a que assistimos no Domingo.
    Beijos, Lelé!

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    1. Sim, eu também não assisti, mas parece que é verdade: algumas das tias "queques", dadas às griffes, em presença de saldos de trapinhos de marca, perdem o chique e comportam-se ao empurrão. Não quer dizer que sejam todas; como também não quer dizer que todas as pessoas que foram às compras ao Pingo Doce se tenham comportado de modo selvagem. Mas que a situação se tornou incontrolável, é óbvio, pois requereu a intervenção da PSP em 16 lojas e houve gente hospitalizada. O lixo e a sujidade eram inacreditáveis.
      Nunca se viu nada assim, nem nos tempos do racionamento.

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