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terça-feira, 22 de junho de 2010

Cavaco Silva: Bento XVI sim, Saramago não!



"Ele até disse os nomes dos meus netos, um a um, foi repetindo todos!"
Cavaco Silva

Evidentemente, sendo Saramago arrasado como foi no próprio dia do seu funeral, pelo jornal do Vaticano, a posição do presidente, coerentemente, só podia ser a de recusar-se a participar das cerimónias.

Em vez da presença, mandou os faxes, a coroa, e assunto arrumado, pois o que interessa é o beijo no anel papal, que o pontífice até decorou os nomes da criançada Silva.

Tal como no tempo da outra senhora se dizia, "quem não é por mim é contra mim". Portanto, sendo o Vaticano contra José e Cavaco pelo Vaticano, logo Cavaco é contra José. A matemática nestas coisas nunca falhou e a propriedade transitiva também não. Impecável, esta lógica salazarista, mais actual do que nunca!

Eu acho que quem andou a calcorrear Portugal de lés-a-lés atrás do Papa não ficava bem num funeral de um ateu, assim a atirar para o herege e, ainda por cima, velado num espaço que é tudo menos sacro-santo. Com direito a Bach e tudo, tocado por uma violoncelista vestida - heresia das heresias! - com um vestido vermelho de Pilar usado por esta na ocasião do Nobel!

Um funeral assim um bom bocado vermelho; eu quase posso jurar que vi o Satanás espreitar furtivamente atrás de uma coluna quando tentava fotografar à socapa dos seguranças a coroa de flores enviada pelo Fidel!

Aquilo parecia um funeral a atirar para o esquerdista, tal a quantidade de cravos que caíam sobre a urna, que, por mais um pouco, só faltava a populaça entoar ali mesmo, no cemitério a "Grândola, vila morena/terra da fraternidade", à mistura com os exemplares autografados do Memorial, da Jangada e quejandos, agitados no ar, quais planfletos, quais bandeiras de uma cultura que esbraveja para não morrer junto com o escritor.

Eram muitos intelectuais, artistas, actores, músicos. Políticos da esquerda, pois claro, que chatice! Escritores e poetas, então eram aos molhos. O que poderia ali fazer Cavaco? Nem Maria ali teria a companhia de senhoras de véu e terço, nem incenso, nem hóstia! Não havia beija-mão, nem ninguém se podia entreter com um pedaço de bolo-rei para trincar!

Era muito povo, sei lá, se calhar até alguns não sabem ler, têm de mandar o vizinho soletrar em voz alta o romance. "Tão lindo, tão lindo!" Vinham de longe, falavam a cantar, traziam bandeiras e cravos vermelhos. Talvez cheirassem a suor. Mas não tinham vergonha de chorar o seu "camarada", o escritor que levou o seu linguajar numa escrita oralizada até ao fim do mundo. Mesmo que esse fim não seja o céu mas os quintos dos infernos!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

"E agora, José?"


O poema que envio é de Carlos Drummond de Andrade e o próprio Saramago refere, numa das suas crónicas, que o acompanhava desde sempre e considerava mesmo um privilégio dispor dele, porque se chamava José e, ao longo da vida, muitas vezes se interrogou: "E agora, José?"

Acho que o poema e/ou interrogação faz sentido, após estes dias de consternação e tristeza, por isso não quis deixar de o enviar. No entanto, hoje já é um novo dia e temos que o encarar com serenidade, para continuar a caminhada...
L.A.

JOSÉ

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

(...)

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?"


Carlos Drummond de Andrade

Ilustração de Tacci, in Portugal, caramba!

domingo, 20 de junho de 2010

"A Morte é só nossa e parte connosco"


Ao lusco-fusco, pairava sobre Lisboa aquela luminosidade ténue dos fins de tarde especiais. Uma névoa deixava entrever, de quando em vez um raio de sol que teimava em espreitar. Reinava uma calma que parecia propositada para aquele momento de recolhimento.

A nobre escadaria, ladeada pelos imensos castiçais dourados tinha ontem uma luz especial derramada pela clarabóia.

Cheirava a flores como se fosse um campo primaveril. As cerca de trinta coroas sumptuosamente arranjadas com flores naturais e estrategicamente colocadas, emprestavam ao ambiente um perfume que nada tinha a ver com morte, no sentido lúgubre a que fui habituada.

Aquele que tinha sido até há poucas horas o rosto de José, estava agora emudecido, placidamente aguardando o desfecho daquele fim, já que em nenhuma outra trajectória acreditava.

Nunca tinha visto um morto de óculos. Pilar não deve ter querido alterar-lhe a imagem de todos conhecida. Ele não tinha uma expressão de agonia, nem de sofrimento, antes uma tranquilidade de quem cumpriu o caminho e dorme agora, serenamente, o sono dos justos.

Eu estava pela primeira vez a participar num velório fora de um espaço religioso. As missas, o cheiro a mofo das capelas funerárias e os choros, quantas vezes postiços, sempre me irritaram muito, para não falar dos cumprimentos, efusivamente falsos, às famílias dos defuntos.

Ali tudo era diferente. Um morto que fora ateu, em espaço público, profano, arejado, belo, iluminado, enquadrado por magníficas pinturas onde sobressaem heróis reais da cultura portuguesa, faziam parecer aquele velório uma cena irreal, como se de um filme se tratasse.

No entanto, a autenticidade e a simplicidade despretensiosa que se respirava ali, tinham tudo a ver com o sentimento identitário que algumas figuras da cultura portuguesa, por serem especiais, genuinamente fazem nascer nos cidadãos anónimos.

Não era preciso dar condolências, nem chorar, nem fingir desgosto, nem fazer o sinal da cruz, nem ajoelhar, nem rezar, nem fungar para o lenço, nem deixar mensagens pré-formatadas em fitas brancas ou lilases. Apenas comparecer, numa interioridade discreta, prestar uma homenagem cuja forma só o íntimo de cada um concebera, aceitar este luto e partir. Silenciosamente, como se entrou.

As memórias, essas ficarão com cada um dos cidadãos que, como eu, quiseram despedir-se de José. Esse mesmo, o que tem nome de erva. Para muitos uma erva daninha, adubada de nefasta heresia, ainda hoje condenada pelo jornal oficial do Vaticano, que nem perante a morte mostra qualquer tolerância. Mas para muitos outros uma erva-doce de lucidez, de autenticidade e de criatividade, temperada de uma coragem como só se conhece raramente.



Fotos de (c)Pérola de Cultura

Apenas uma intermitência da morte


"Foi serralheiro e funcionário público. Comunista. Amado e detestado. Começou a viver da escrita passava dos 50 anos. Conheceu Pilar já sexagenário. Recebeu o Nobel da Literatura – o único dado à língua portuguesa – aos 76 anos. Partiu ontem. Sem “nenhuma esperança”. De “mão dada” com a criança que foi numa aldeia do Ribatejo."

“Quando me for deste mundo, partirão duas pessoas. Sairei, de mão dada, com essa criança que fui”, disse Saramago em 2006.

“Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de a conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”, disse Saramago um dia, numa das várias muito belas declarações públicas de amor a Pilar."

“A finitude é o destino de tudo. O Sol, um dia, apaga-se”.


In Público, 19/06/2010

Ilustração de (c)João Caetano

sábado, 19 de junho de 2010

In Memoriam - A “metáfora” da morte em Saramago


Recebi este contributo para ajudar a perpetuar a memória de Saramago. Tal como eu, também L.A. é uma admiradora deste que agora, embora partindo, conquistou a imortalidade.
Deixo aqui o seu trabalho de compilação de textos alusivos ao momento. Que “sirva para reflexão”, como ela diz.


Aprendemos com as obras notáveis de José Saramago que a morte não é um fim, afinal é uma libertação se soubermos viver a vida…e ele soube, como diria o grande poeta Camões, libertar-se da “lei da morte”.
L.A.

“(..) filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de Montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer.”
As Intermitências da Morte

“(...) tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar- lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos seus nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende(...)”
Memorial do Convento

“São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro de seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.”
Memorial do Convento

“Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.”
As Pequenas Memórias

"Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."
As Intermitências da Morte

Enviado por L.A.

Porque me lembrei das palavras de Camões?


"E aqueles que por obras valerosas
se vão da lei da Morte libertando"


Camões, "Os Lusíadas", Canto I, 2ª estrofe

Há quem o odeie por ter sido comunista, pobre, ateu e ousado.
Apesar de não ser bonito e não ter grau unversitário, era frontal e dono de uma alma suficientemente nobre para lutar pelos direitos humanos e dos animais, e contra a hipocrisia!

Os grandes homens nunca morrem



“Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já”.

José Saramago, "Viagem a Portugal", Caminho - O Campo da Palavra, Lisboa 1995, p. 387.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ano da morte do anti-Cristo


Este foi o segundo anti-cristo que conheci. O primeiro chamava-se Friederich Nietszche e foi igualmente maldito.

Pode-se adorar ou odiar Saramago. Não conheço ninguém que lhe ficasse indiferente. Ele marcou uma autêntica revolução na escrita. Nunca antes dele eu tinha visto recriar a língua desta forma: parágrafos de uma página, vírgulas em vez de pontos, formavam jorros de uma nova literatura que desafiou todas as convenções linguísticas.

Com uma produção literária irregular, Saramago publicou o seu primeiro romance aos 27 anos, mas chegou a ficar 20 anos sem escrever; contudo, a maturidade trouxe-lhe uma inspiração sem limites que permitiu a escrita de romances absolutamente imortais e que o elevaram ao prémio Nobel.

Tão ousado como a sua escrita era o próprio homem; odiando a hipocrisia, Saramago era a antítese do cobarde. Assumidamente anti-cristão e ateu, enfrentou sem pudor dogmas que o colocaram nos “cornos da Lua” face aos sectores mais conservadores e religiosos da sociedade portuguesa. O famoso processo despoletado pelo ataque de Sousa Lara (o tal que confundia Thomas Mann com Thomas More), custou um enorme mal-estar a Saramago, que acabou por mudar de residência para Lanzarote com a sua Pilar. Alguns acusaram-no de “abandonar o seu país”, quando talvez tenha sido o país que o abandonou a ele.

Nos últimos anos houve tentativas para “recuperar” esta figura da cultura portuguesa, antes que os espanhóis o reivindicassem para si, como autor residente, que já falava mais tempo em castelhano do que em português.

O reconhecimento acabou por ser legitimado com a adopção como leitura obrigatória do “Memorial do Convento” nos programas de literatura do 12º Ano. Aquilo a que muitos adultos não quiseram aderir seria, afinal, validado por milhares de jovens, que ficaram fascinados com aquela escrita irreverente e tão diferente dos clássicos.

Tive a felicidade de ver em Lisboa uma peça espantosa adaptada do “Evangelho segundo Jesus Cristo” que, qual pedrada no charco, retratava um Cristo humanizado, que assumia o seu amor por Maria Madalena. Paralelamente estreava em Milão “Blimunda”, ópera inspirada no seu “Memorial”. Fernando Meirelles, o realizador da “Cidade de Deus” imortalizou no cinema o seu “Ensaio sobre a Cegueira”, e por fim, Pedro Almodovar filmou os amores de Saramago e Pilar.

O primeiro escritor português a ser premiado com o Nobel está traduzido em 30 línguas e foi publicado em mais de 50 países, incluindo os EUA, onde já vendeu um milhão de livros.

Definitivamente, Saramago, ficará para sempre na minha memória não só como um escritor genial, mas também como o cidadão crítico e interventivo que era, um humanista, símbolo do inconformismo e inimigo da hipocrisia.

Em 2005 no romance “As Intermitências da Morte” Saramago escreveu: “Não me falem da morte. Eu já a conheço por dentro”. E no seu Blogue: “Creio que na nossa sociedade actual nos falta Filosofia”.

Quando atribuiu o Nobel em 98, a Academia revelou que Saramago antes de ser romancista, já tinha sido poeta, ao que ele respondeu que "antes de ser poeta, já tinha sido pobre".

Penso que os artistas geniais deviam ser proibidos de morrer. Saramago ficará para sempre “levantado do chão”!

José Saramago 1922-2010


Poema à boca fechada

"Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo."


José Saramago

(Poema enviado por Ana Silva)

"O escritor José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, morreu hoje, em Lanzarote, vítima "de uma múltipla falha orgânica", após uma longa luta contra o cancro. O corpo estará em câmara ardente a partir das 17h00 na ilha espanhola e o funeral será em Lisboa."

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