sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ano da morte do anti-Cristo


Este foi o segundo anti-cristo que conheci. O primeiro chamava-se Friederich Nietszche e foi igualmente maldito.

Pode-se adorar ou odiar Saramago. Não conheço ninguém que lhe ficasse indiferente. Ele marcou uma autêntica revolução na escrita. Nunca antes dele eu tinha visto recriar a língua desta forma: parágrafos de uma página, vírgulas em vez de pontos, formavam jorros de uma nova literatura que desafiou todas as convenções linguísticas.

Com uma produção literária irregular, Saramago publicou o seu primeiro romance aos 27 anos, mas chegou a ficar 20 anos sem escrever; contudo, a maturidade trouxe-lhe uma inspiração sem limites que permitiu a escrita de romances absolutamente imortais e que o elevaram ao prémio Nobel.

Tão ousado como a sua escrita era o próprio homem; odiando a hipocrisia, Saramago era a antítese do cobarde. Assumidamente anti-cristão e ateu, enfrentou sem pudor dogmas que o colocaram nos “cornos da Lua” face aos sectores mais conservadores e religiosos da sociedade portuguesa. O famoso processo despoletado pelo ataque de Sousa Lara (o tal que confundia Thomas Mann com Thomas More), custou um enorme mal-estar a Saramago, que acabou por mudar de residência para Lanzarote com a sua Pilar. Alguns acusaram-no de “abandonar o seu país”, quando talvez tenha sido o país que o abandonou a ele.

Nos últimos anos houve tentativas para “recuperar” esta figura da cultura portuguesa, antes que os espanhóis o reivindicassem para si, como autor residente, que já falava mais tempo em castelhano do que em português.

O reconhecimento acabou por ser legitimado com a adopção como leitura obrigatória do “Memorial do Convento” nos programas de literatura do 12º Ano. Aquilo a que muitos adultos não quiseram aderir seria, afinal, validado por milhares de jovens, que ficaram fascinados com aquela escrita irreverente e tão diferente dos clássicos.

Tive a felicidade de ver em Lisboa uma peça espantosa adaptada do “Evangelho segundo Jesus Cristo” que, qual pedrada no charco, retratava um Cristo humanizado, que assumia o seu amor por Maria Madalena. Paralelamente estreava em Milão “Blimunda”, ópera inspirada no seu “Memorial”. Fernando Meirelles, o realizador da “Cidade de Deus” imortalizou no cinema o seu “Ensaio sobre a Cegueira”, e por fim, Pedro Almodovar filmou os amores de Saramago e Pilar.

O primeiro escritor português a ser premiado com o Nobel está traduzido em 30 línguas e foi publicado em mais de 50 países, incluindo os EUA, onde já vendeu um milhão de livros.

Definitivamente, Saramago, ficará para sempre na minha memória não só como um escritor genial, mas também como o cidadão crítico e interventivo que era, um humanista, símbolo do inconformismo e inimigo da hipocrisia.

Em 2005 no romance “As Intermitências da Morte” Saramago escreveu: “Não me falem da morte. Eu já a conheço por dentro”. E no seu Blogue: “Creio que na nossa sociedade actual nos falta Filosofia”.

Quando atribuiu o Nobel em 98, a Academia revelou que Saramago antes de ser romancista, já tinha sido poeta, ao que ele respondeu que "antes de ser poeta, já tinha sido pobre".

Penso que os artistas geniais deviam ser proibidos de morrer. Saramago ficará para sempre “levantado do chão”!

2 comentários:

  1. De aqui a 50 anos o seu papel nocivo no empobrecimento da Língua já terá sido esquecido. Felizmente que as línguas são como a Natureza, e renascem sempre, por maior que seja o atentado e a devastação.

    Para quem queira saber mais, continua o "Laramago" aqui disponível

    :-*

    http://musicaarcaica.blogspot.com/2008/01/o-laramago.html

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  2. Querido amigo Luís

    Facilmente compreenderás que não estou de acordo contigo em considerar o Saramago igual ao Sousa Lara e, menos ainda, uma "sargeta".
    Como este Blogue admite o contraditório, aqui ficam os links que deixaste.

    Mas, deixa-me que te diga: se há um empobrecimento da língua portuguesa, nomeadamente no domínio que dela têm os estudantes, não é certamnte por causa do Saramago, porque só o lêem no 12ª Ano.

    Se nesse nível já souberem ler e escrever correctamente, não é aí que irão perder essas competências.

    Penso que uma boa parte do problema da Língua Portuguesa reside no facilitismo das medidas impostas pelo nosso ministério da Educação, ao querer que todos os alunos passem à força, mesmo que sejam analfabetos funcionais.

    Outro problema é o mau jornalismo, cuja escrita, ao contrário da de Saramago, não é criativa. mas pobre e feia, sem estilo, nem verve.

    Esses são os reais atentados à Língua e à Cultura Portuguesa.

    Deixemos o Saramago em paz. O homem não disse heresias maiores do que muitos outros.

    Ele fez bem o seu trabalho. Façam bem os outros o seu.

    Obrigada pelo contributo.
    Um abraço.

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