segunda-feira, 12 de abril de 2010

Nigella bites




O programa de culinária "Nigella bites", apresentado por Nigella Lawson, deve estar a modificar alguns hábitos dos homens portugueses. Não das mulheres, que continuam a cozinhar como as suas mães e avós lhes ensinaram.

Mas há fenómenos sobre os quais não consigo deixar de reflectir. Vejamos: entrar numa tasca da vizinhança, quando, para lá de cansada e incapaz de dar ordens a uma cozinha pouco provida, busco alguma comida com sabor caseiro para rapidamente voltar a trabalhar ou ceder ao descanso que o corpo pede, não é surpreendente.

Habitualmente encontro as tradicionais goleadas que arrancam um urro primal da dezena de machos bem bebidos que habitualmente fazem da tasca a sua sala de estar a partir da noitinha. Ou então, as conversas em tom elevado sobre as decisões do Jorge Jesus e quejandos, temperadas pelo frequente vernáculo. Até aqui, também não é surpreendente.

O que é surpreendente é que a tasca pareça uma catedral em silêncio quase reverencial, com os habituais machos, todos de pescoço torcido para o televisor e, pasme-se, com a atenção concentrada nos pormenores das receitas da Nigella Lawson.

Pouco a pouco apercebem-se da minha presença, única mulher na tasca e começam a opinar sobre o aproveitamento dos restos, a frescura das ervas, a pureza dos ingredientes e aquele toque especial que a cozinheira confere aos pratos.

Estavam embevecidos estes senhores; os mesmos que tantas e tantas vezes parecem ter modos mais selvagens do que urbanos e nem dar pela minha presença, hoje, pouco a pouco, entre uma olhadela ao écran e uma garfada, iam-me dizendo qualquer coisa, acompanhada de um respeitoso:

- "A senhora está a ver?"
- "Estou, estou, estou..."

- "Isto é outra coisa!"
- "Pois, sim, claro!"

- "Isto quem sabe, sabe!"
- "Ah, sim..."

- "É que ela dá aqui uma voltinha às coisas, que..."
- "..."

Eu a sorrir delicadamente, dava cúmplice assentimento àquela devoção reverencial, enquanto o dono da casa me adverte:

- "Ó vizinha, olhe que eu já vi estes pugramas todos, já sei o que ela vai fazer no final e já experimentei isto com a minha mulher!"

- "Ah... sim???"
Eu a imaginar a partir de amanhã poder vir comer aqui guacamole com gambas grelhadas Thai Style, mas dos lados soa-me:

- "Ssshhhhht! É pá, vê-me isto!"

E eu a rir por dentro de mim. A esquecer os relatórios dos apoios, as actas e as convocatórias, os balanços, os planos e a revisão do jornal escolar.

- "Estás a ver, pá, o pudim está prontinho para ir para o forno!"

Aqui não pude mais e mostrei um sorriso franco e gostoso por tamanha ingenuidade - o pudim era de gelatina e de imediato a Nigella o conduziu, evidentemente, ao frigorífico!

Eu a rir por dentro, mas também já por fora. A banir o calendário infernal que vou ter de enfrentar amanhã. A rir por ver uma dezena de cavalheiros, dos 30 aos 70 anos, em grupinhos de dois ou três, a opinar sobre temperos, cores e formas num fogão de uma inglesa com aspecto de latina.

- "... a senhora está a ver, pe'cebe?"
- "Estou, estou. Estou a ver!"

E eu a pensar que a Sra. D. Maria de Lourdes Modesto e a Sra. D. Filipa Vacondeus, rainhas da culinária na TV durante gerações, nunca tiveram este "capital erótico" da Nigella Lawson, jornalista free-lancer, emancipada e ainda por cima inglesa...

- "É que é mesmo, ela dá uma volta especial às coisas que...
- "Pois é, é!"

Eu a rir por dentro de mim toda. A pensar com os meus botões a que coisas estava a Nigella a dar uma voltinha, que voltinha queriam aqueles senhores que ela lhes desse, ou que parte do seu ser estava às voltinhas enquanto a viam lambuzar os dedos com os lábios carnudos pintados de carmim, ou enquanto o cameraman foca a curva das suas ancas ou a redondeza opulenta dos seus seios...

- "Se por aqui agora se vê a SIC Mulher, eu passo a vir cá jantar todas as noites!"
- "Venha, vizinha, venha!"

4 comentários:

  1. Olá Lelé

    Para te ser franca, nunca vi esse programa e, ignorância a minha, confesso-te que nem sequer sabia da sua existência.

    Mas que o teu texto está "divinal", disso não tenho a menor dúvida. Li-o umas 3 ou 4 vezes e juro-te que me ri e deliciei, não com os "acepipes" mas com as tuas palavras e o teu humor!...

    Parabéns, amiga.

    Beijinhos

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  2. Também eu me diverti com o teu texto. Gostei do registo jocoso e humorístico!

    Porém, tenho que incentivar o "GOSTO" dos homens!

    Deixa-os lá ir para a cozinha...mesmo que estimulados por uns lábios carnudos a lamber promíscua e gulosamente os dedos! Também Nós temos tradição de uma "cozinha sensual"...é só lembrar as barrigas de freira; os papos de anjo; o manjar celeste; o espera-maridos; os suspiros de freiras, etc,etc...

    Deixa-os lá pôr a gelatina no forno! Why not? Sabemos que algumas das mais famosas receitas nasceram de erros...Gateau Manqué, Tarte Tatin, entre outras.

    Deixa-os lá dar a voltinha especial às coisas...desde que daí nasça uma qualquer "exquisite receipt"!

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  3. Eu por mim, deixo sim! Deixo-os à vontade.

    De cada vez que algum me entra pela cozinha eu aproveito logo para deixá-lo à vontade!

    Tenho coisas mais interessantes para fazer enquanto eles me sujam o fogão, o chão, a mesa e as bancadas...
    ... por exemplo, escrever no Blogue!

    Pode ser que da grande "mess" saia alguma coisa comestível!

    Não esqueças que os grandes "Chefs de Cuisine" são homens!

    Beijo! :-)

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