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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Viganella e o espelho


Viganella, a vila italiana  que trouxe o Sol para o vale

Viganella  é uma pequena vila na Itália localizada na base de um vale profundo, a cerca de 130 km a norte de Milão. A aldeia está situada no lado errado de uma montanha íngreme: o vale é tão profundo que as montanhas circundantes lançam sombra sobre toda a aldeia, bloqueando completamente o sol durante três longos meses durante o inverno. Em 11 de novembro o sol desaparece e não reaparece até 2 de Fevereiro. "É como a Sibéria.”
Durante séculos, os moradores aceitaram o seu destino, até recentemente, quando um engenheiro e arquiteto local propôs uma ideia brilhante: usar um espelho para refletir a luz solar para a vila.


Em 2005, com o apoio de Pierfranco Midali, o presidente da câmara de Viganella, 100.000 euros foram levantados e a construção do espelho começou. Em novembro de 2006, o espelho de 40 metros quadrados, com peso de 1,1 toneladas, foi instalado na encosta oposta da montanha, a uma altitude de 1.100 metros. É claro, o espelho é muito pequeno para iluminar toda a vila e foi direcionado para a praça principal de Viganella, em frente da igreja. O espelho é operado por um computador que segue o caminho do sol durante todo o dia, refletindo a luz solar para a praça da aldeia a meia milha de distância e iluminando uma área de 300 metros quadrados por pelo menos seis horas por dia.




Desde que o espelho foi instalado, uma mudança positiva aconteceu no humor e no comportamento dos habitantes. Pierfranco Midali dá um exemplo relacionado com a missa de domingo: no inverno, as pessoas costumavam ir para casa logo após o final da mesma. Mas quando, graças ao espelho, o sol brilhou sobre a igreja e praça da aldeia, as pessoas passaram a ficar lá fora para conversar umas com as outras.

Viganella tem chamado a atenção de milhões de pessoas em todo o mundo desde que o espelho foi instalado há seis anos.


Enviado por Tita Fan.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Reabre o Cinema Girassol

1 de Agosto de 2013 - Reabertura do Cinema Girassol, Vila Nova de Milfontes

Fechado há quase três anos, vítima da crise e do abandono a que os bens culturais têm sido votados, reabre finalmente no próximo dia 1 de Agosto o Cinema Girassol, em Vila Nova de Milfontes.
Esta reabertura não poderia ter melhor programação, já que coincide com a estreia nacional do filme "A Gaiola Dourada".
O filme conta com a interpretação de alguns atores portugueses, como Joaquim de Almeida, Rita Blanco e Maria Vieira. A realização é de Bruno Alves, nascido em França e luso-descendente, que pretende com este filme homenagear todos os que emigraram em busca de uma vida melhor.

Palavras frontais e corajosas


"Temos pavões montados em cátedras de poderes maçónico-mafiosos que nos têm governado de modo tribal. Mas num tempo é-se pavão e no tempo seguinte é-se espanador."

Frei Fernando Ventura
SICN, 29 de Julho de 2013

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cansaço

Lady Blitz (c) Luís Diferr, 1988

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah, com que felicidade, infecundo cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

(Enviado por Becas)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Abriu a época da caça a Mário Nogueira


1º de Maio de 1886, Chicago

Não é novidade. Chama-se falácia Ad Hominem. Quando não se quer (ou não se consegue) combater a tese, ataca-se o autor. Quando não se pode refutar a teoria, há que derrubar a personalidade que a defende. Já aconteceu assim na semana passada entre Couto dos Santos que partiu para o ataque pessoal a Paulo Guinote quando percebeu que não conseguia contradizê-lo.

As pessoas não têm a coragem de dizer que os professores (90% dos quais têm feito greves há duas semanas), não têm razão. É muito mais fácil descarregar o ódio em alguém que dá a cara pelas lutas e é reconhecido nos Media como um dos seus líderes. Mata-se e esfola-se vivo, se preciso for, o secretário-geral da Fenprof Mário Nogueira. 

Tenho lido de tudo a tentar denegrir e descredibilizar Mário Nogueira. Até, para meu espanto, um artigo de João Miguel Tavares no "Público", em que revela um anti-comunismo histérico e primário. No Expresso, Daniel Oliveira aborda esta espécie de transferência do ódio aos professores - não assumido - para um ódio - assumido - a Mário Nogueira, que emerge dos mais diversos sectores. 

Assim, as consciências ficam tranquilas por ter encontrado o seu bode expiatório e canalizado a sua revolta para um demónio que até está mesmo ali, à mão de semear. Além disso, é só um, não são 100000. Assim é mais fácil não errar o tiro. Abata-se o Mário Nogueira e todos os problemas que os professores levantam cessarão!

Recomendo a leitura do artigo do Expresso:
"Abriu a caça ao Nogueira", por Daniel OliveiraAqui.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Os dias da guerra


"Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e a vida nas horas de guerra.
A escravidão é feita de descanso e de tristeza."


Teixeira de Pascoaes

Auscultação aos professores

Este termo costuma aplicar-se no âmbito da Medicina. Aqui, nesta luta, às tantas, estamos a ficar todos mais ou menos doentes cardíacos, stressados, hipertensos e coisas ainda piores.
Mas convém verificar a "tensão" geral antes de adotar formas de prosseguir a luta contra as medidas desastrosas que o MEC pretende aplicar aos professores. Trata-se de uma reunião aberta a todos os que quiserem aparecer e manifestar a sua vontade e opinião.
A tentativa de diabolização dos Sindicatos tem sido uma verdadeira cruzada, desde o tempo da ministra Maria de Lurdes Rodrigues até aos dias das falinhas mansas de Nuno Crato.
Se experimentarem ir a esta reunião magna, vão ver que o chamado "gangster do bigode" afinal não morde, nem os líderes dos outros Sindicatos vos obrigam a tornar-se "peões ao serviço do comunismo", como certa imprensa (n)os tem mimoseado.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Há vozes que nem a morte consegue calar

José Saramago
16 de novembro de 1922 - 18 de junho de 2010
Por que foi que cegámos,
Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, 
Queres que te diga o que penso,
Diz,
Penso que não cegámos, penso que estamos cegos,
Cegos que vêem,
Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira"

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Professora em greve


Pela defesa da escola pública e da dignidade dos seus professores.
Pelo respeito que sempre devotei aos meus alunos e às suas famílias.
Pelo orgulho que sinto pelo meu trabalho e pela camisola que visto.
Recuso a falta de condições para manter a qualidade do ensino.
Faço greve como forma última de protesto e por consciência profissional.

domingo, 16 de junho de 2013

Professores: mágicos ou feiticeiros?

Feiticeira (c) Olinda Gil

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros...

Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este!More Sharing Services

Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública.

Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar…

Ando há 12 anos na escola, na escola pública.
Durante estes 12 anos aprendi. Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam.
As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica.

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares de outros alunos a sermos também nós pessoas, seres pensantes e activos, não apenas bonecos recitadores!

Talvez resida ai a minha incapacidade para perceber aqueles que se dizem tão preocupados com o meu futuro. Talvez resida no facto de não perceber como é que alguém pode pôr em causa a legitimidade da resistência de outrem à destruição do futuro e presente de um país inteiro!
Onde mora a preocupação com o futuro dos meus filhos? Dos meus netos? Quem a tem?
Onde morava essa preocupação quando cortaram os horários lectivos para metade e mantiveram os programas?
Onde morava essa preocupação quando criaram os mega-agrupamentos?
Onde morava essa preocupação quando cortaram a acção social ou o passe escolar?
Onde mora essa preocupação quando parte dos alunos que vão a exame não podem sequer pensar em usá-lo para prosseguir estudos pois não têm posses para isso?
Não somos reféns nessa altura?
E a preocupação com o futuro dos meus professores? Onde morava essa preocupação quando milhares de professores foram conduzidos ao desemprego e o número de alunos por turma foi aumentado?

Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este!

Os professores não fazem greve apenas por eles, fazem greve também por nós, alunos, e por uma escola pública que hoje pouco mais conserva do que o nome. Fazem greve pela garantia de um futuro!

De facto, Crato tem razão quando diz que somos reféns, engana-se é na escolha do sequestrador!

E em relação aos reféns: não são só os alunos; são os alunos, os professores, os encarregados de educação, os pais, os avós, os desempregados, os precários, os emigrantes forçados... Os reféns são todos aqueles que, em Portugal, hipotecam presentes e futuros para satisfazer a "porra" de uma entidade que parece não saber que nós não somos números mas sim pessoas! Se há momentos para ser solidária, este é um deles! Estou convosco.

Este texto foi publicado originalmente na página de Facebook de Inês Gonçalves

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Demagogias do governo


O QUE ESTÁ EM CAUSA NA GREVE DOS PROFESSORES
"O que está em causa para o governo na greve dos professores   é mostrar ao conjunto dos funcionários públicos, e por extensão a todos os portugueses que ainda têm trabalho, que não vale a pena resistir às medidas de corte de salários, aumentos de horários e despedimentos colectivos sem direitos nem justificações, a aplicar ao sector. É um conflito de poder, que nada tem a ver com a preocupação pelos alunos ou as suas famílias.
Há mesmo em curso uma tentação de cópia do thatcherismo, à portuguesa."
José Pacheco Pereira 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernando Pessoa, 125 anos


Desenhado pelos alunos da Escola Secundária José Gomes Ferreira, Lisboa
ULISSES

“O mito é um nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.”

Fernando Pessoa, A Mensagem, 1934

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Zeco, 1 - ex-ministro, 0

(Cortesia de Luís Costa)

Há dias em que vale a pena ver televisão.

Comecei por ver a cara de Nuno Crato como se tivesse sido atropelado. O colégio arbitral não lhe deu razão quanto à expectativa de ter uma definição de serviços mínimos para assegurar os exames. O seu discurso está a ficar perigosamente parecido, não só na autocracia e na prepotência, como também na tendência para a vitimização, com aquela que juntou 120000 "zecos" na rua há uns bons pares de anos.

Depois, tive o grande gozo de ver o Paulo Guinote arrumar às boxes um ex-ministro petulante e ignorante de factos da história recente da Educação em Portugal, apesar de ter ocupado a pasta respetiva no final do século XX. Até coisas elementares ele confundiu, como a diferença entre Conselho Geral e Assembleia de Escola, para não falar do desconhecimento profundo da proposta de organização do ano letivo que aí vem, com as graves alterações que visa introduzir. Foi só vê-lo a enrolar-se nos números, a mudar de assunto, a fugir às questões, visivelmente incomodado com a preparação do seu interlocutor, e também a sua coragem. Certamente Couto dos Santos não estava à espera de ninguém com esta fibra e que, pela sua independência, não usa chavões gastos.

Habituados que estão a confundir os professores com as cúpulas dos Sindicatos, estes políticos não esperam ver a força nem a segurança que só aqueles que têm razão conseguem evidenciar sem medo algum.
Parabéns, Paulo Guinote. Continuas a representar todos aqueles que, não tendo cargos, dinheiro ou chauffeur, medem a sua coerência pela espinha dorsal que fazem questão de manter.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Personalidades da Cultura solidárias com a greve dos professores


Manifesto: Obrigado professores
"Sem Educação não há país que ande para a frente. E é para trás que andamos quando o governo decide aumentar o número de alunos por turma, despedir milhares de professores e desumanizar as escolas, desbaratando os avanços nas qualificações que o país conheceu nas últimas décadas. Não satisfeito, continua a sua cruzada contra a escola pública. Ameaça com mais despedimentos e com o aumento do horário de trabalho dos que ficam.
Ao atacar os professores o governo torna os alunos reféns. Com menos apoios educativos e menos recursos para fazer face à diversidade de estudantes, é a escola pública que sai enfraquecida. Querem encaixotar os alunos em turmas cada vez maiores com docentes cada vez mais desmotivados. Cortam nas disciplinas de formação cívica e do ensino artístico e tecnológico, negando aos jovens todos os horizontes possíveis.
Os professores estão em greve pela qualidade da escola pública e em nome dos alunos e das suas famílias. Porque sabem que baixar os braços é pactuar com a degradação da escola. Os professores fazem greve porque querem devolver as asas aos seus alunos que o governo entretanto roubou. Esta greve é por isso justa e necessária. É um murro na mesa de quem está farto de ser enganado. É um murro na mesa para defender um bem público cada vez mais ameaçado.
Por isso, estamos solidários. Apoiamos a greve dos professores em nome de uma escola para todos e onde todos cabem. Em nome de um país mais informado e qualificado, em nome das crianças que merecem um ensino de qualidade e toda a disponibilidade de quem sempre esteve com elas. É preciso libertar a escola pública do sequestro imposto pelo governo e pela troika. Aos professores dizemos “obrigado!” por defenderem um direito que é de todos."

Para ver quem são os subscritores deste Manifesto, clique aqui

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Aniversário nº 2 de um governo de imprestáveis


A desgraça não é pequena, quando até tenho saudades da Dra. Manuela Ferreira Leite na pasta da Educação. Já dei por mim a desejar alguém como os Professores Adriano Moreira ou Eduardo Lourenço nesse tipo de cargos hoje em dia. Nuno Crato é a maior desilusão da minha vida. Cheguei a linkar neste Blogue a sua rubrica diária na Rádio "5 minutos de Ciência". 
Admirava-o, respeitava-o e partilhei de algumas das suas ideias sobre Educação que aí veiculava.
Nunca me repugnou trabalhar, considero-me uma profissional séria, não fujo de responsabilidades e sou rigorosa e exigente. 
Mas cansei-me de ver, em nome desse rigor, tantos e perigosos disparates. 
Abomino a mentira e a hipocrisia e sinto-me atraiçoada, como muitos milhares de professores.
Este é aquilo a que se chama com toda a propriedade um grande "desgoverno"; a começar no próprio primeiro-ministro que se tem revelado indigno de qualquer credibilidade.
Sou de um tempo em que a palavra contava e aprendi que a cara das pessoas devia ser digna de olhar o outro de frente e sem subterfúgios. Não é nada disto que se vê: não há a mínima confiança; e governantes indignos da estima e do respeito do seu povo, devem retirar-se.
Vão-se embora, senhores, tenham vergonha da vossa incompetência e desumanidade. 
Boa viagem e até nunca mais, se Deus quiser. 

A propósito da greve dos professores

Ilustração: (c) Luís Diferr, Kallilea, imagem 4, pág.4 (a publicar)

Carta aberta de um estudante grego

O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu.
Decidi escrever este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens.
A minha razão para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual "estaria em causa" devido à greve.*
De que falam vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que verdadeiramente pôs em causa o meu futuro?
Deitemos uma vista de olhos sobre quem, já há muito tempo, constrói o futuro e toda a nossa vida:
  • Quem construiu o futuro do meu avô?
  • Quem vestiu o seu futuro com as roupas velhas da administração das Nações Unidas para a ajuda de emergência e reconstrução e o obrigou a emigrar para a Alemanha?
  • Quem governou mal e estripou este país?
  • Quem obrigou a minha mãe a trabalhar do nascer ao pôr-de-sol por 530 euros por mês? Dinheiro que, uma vez paga a comida e as contas, nem chega para um par de sapatos, para já não falar num livro usado que eu queria comprar numa feira de rua.
  • Quem reduziu a metade o ordenado do meu pai?
  • Quem o caluniou, quem o ameaçou, quem o obrigou a regressar ao trabalho sob a ameaça da requisição civil, quem o ameaçou de despedimento, juntamente com todos os seus colegas dos serviços de transportes públicos quando eles, que apenas queriam viver com dignidade, entraram em greve?
  • Quem procurou encerrar a universidade que o meu irmão frequenta para atingir alguns dos seus sonhos?
  • Quem me deu fotocópias em vez de manuais escolares?
  • Quem me deixa enregelar na minha sala de aula sem aquecimento?
  • Quem carrega com a culpa de os alunos das escolas desmaiarem de fome?
  • Quem lançou tanta gente no desemprego?
  • Quem conduziu 4.000 pessoas ao suicídio?
  • Quem manda de volta para casa os nossos avós sem cuidados médicos e sem medicamentos?
Foram os meus professores que fizeram tudo isto? Ou foram VOCÊS que fizeram tudo isto?
Vocês dizem que os meus professores vão destruir os meus sonhos fazendo greve.
Quem vos disse alguma vez que o meu sonho é ser mais um desempregado entre os 67% de jovens que estão no desemprego?
Quem vos disse que o meu sonho é trabalhar sem segurança social e sem horários regulares por 350 euros por mês, como determinam as vossas mais recentes alterações às leis laborais?
Quem vos disse que o meu sonho é emigrar por razões económicas? Quem vos disse que o meu sonho é ser moço de recados?
Gostaria de dirigir algumas palavras aos meus professores e aos professores em toda a Grécia:
Professores, vocês NÃO devem recuar um único passo no vosso compromisso para connosco. Se recuarem agora na vossa luta, então sim, estarão verdadeiramente a pôr em causa o meu futuro. Estarão a hipotecá-lo.
Qualquer recuo vosso, qualquer vitória que o governo obtenha, roubará o meu sorriso, os meus sonhos, a minha esperança numa vida melhor e em combater por uma sociedade mais humana.
Aos meus pais, aos meus colegas e à sociedade em geral tenho a dizer o seguinte:
Quereis verdadeiramente que aqueles que nos ensinam vivam na miséria?
Quereis que sejamos moldados nas salas de aulas como mercadorias de produção maciça?
Quereis que eles fechem cada vez mais escolas e construam cada vez mais prisões?
Ides deixar os nossos professores sozinhos nesta luta? É para isso que nos educais, para que recusemos a nossa solidariedade?
Quereis que os nossos professores sejam para nós um exemplo de respeito por nós próprios, de dignidade e de militância cívica? Ou preferis que nos dêem um exemplo de escravidão consentida?
Finalmente, quereis que vivamos como escravos?
De amanhã em diante, todos os alunos e pais deviam ocupar-se de apoiar os professores com uma palavra de ordem: "Avançar e derrotar a tirania fascista!"
Lutemos juntos por uma educação de qualidade, pública e livre. Lutemos juntos para derrubar aqueles que roubam o nosso riso e o riso dos vossos filhos.
PS: Menciono as minhas notas do ano lectivo 2011/12, não por vaidade mas para cortar a palavra àqueles que avançarem com o argumento ridículo de que "só quero escapar às aulas": Comportamento do aluno: "Muito Bom". Classificação média: 20 ("Excelente") [a nota mais alta nos liceus gregos].
Traduzida de "Echte Democratie Jetzt"

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eurovisão - Dinamarca porque sim


Palavra que gostei mesmo. A canção era muito bonita. Foi aquela que preferimos logo desde o início. 
E que a Alemanha tenha evocado razões políticas para não ganhar, não me importa nada; aliás nem acredito. Além da supremacia económica e política, também estava com pretensões ao troféu da Eurovisão. Nada como um país periférico como a Dinamarca para fazer engolir as peneiras aos habituais grandes Alemanha, Rússia, etc.
É verdade: não basta um par de pernas (e outros "pares" avantajados) de uma cantora com aspeto de lutadora na lama como a Cascada para ganhar a Eurovisão, desde que os votantes tenham ouvidos. 
Prefiro as sonoridades das flautas que evocam mesmo florestas; e prefiro cantoras com aspeto de fadas; as fadas têm cabelos louros naturais, andam descalças e usam vestidos esvoaçantes. A Emmelie evocou tudo isso, além de cantar bem. E depois, vinha de um país da minha simpatia: a terra de Kierkegaard, de Andersen, da pequena sereia. Para já não falar da Lego e da Carlsberg...
Por todas as razões fiquei contente de não ser a Alemanha a levar a bicicleta e sim a Dinamarca. 
Ah, e já agora, gosto mesmo da canção, dos tambores, das flautas, do visual e dos recursos cénicos. Despojado, belo e simples. 

domingo, 19 de maio de 2013

A lucidez controversa de MEC

Preservar...
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.
É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar. Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade. 

É tão fácil ser rebelde. Fica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou. 

Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros. 

Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.
Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar. 

Miguel Esteves Cardoso [As Minhas Aventuras na República Portuguesa]

terça-feira, 7 de maio de 2013

Do exame da 4ª


(c) Olinda Gil, Sereia do Ilhéu

Agora é o 4º ano da escolaridade obrigatória. Com exame e tudo, como antigamente, na 4ª classe. 
Estive por lá, vi e participei, apesar de não ser professora do ensino básico.
Logo pela manhã, aportaram à Escola Secundária onde trabalho, magotes de crianças ruidosas, entre o entusiasmado e o curioso, pela novidade. 
Não só o espaço era novo  para aquelas crianças, como os professores e até o mobiliário. 
À sua dimensão, tudo se afigurava um pouco monumental, gigantesco mesmo; cerca de metade destes meninos passaram duas horas com as pernas a balançar no ar, os pés sem chegar a tocar no chão, numa posição de evidente desconforto. Tudo era tão estranho que houve mesmo quem chorasse e não fizesse nada de jeito. Outros, mais maduros, ou com mais capacidade de adaptação, lá se desenrascaram.
Vamos aguardar pela publicação dos resultados para ver quais são os ganhos efetivos que a introdução deste exame veio trazer. Ou se o show-off se saldou apenas por mais uma gigantesca operação de propaganda deste governo, o único que conheci até hoje a mandar pôr o seu símbolo nos cabeçalhos das provas.   
Não faço ideia quais os gastos que toda esta operação de logística acarretou, mas às vezes os gastos para este governo parecem importar muito, outras vezes, não faz mal! 
Na minha Escola várias centenas de alunos ficaram sem aulas e voltarão a ficar na sexta-feira, mas parece que também não faz mal. 
Faz de conta que veio um Papa e se deu tolerância de ponto, prontos!
Escolas houve em que se organizou visitas de estudo em massa para entreter os alunos cujas salas de aula estavam ocupadas com os seus colegas da primária a fazer exame.
Quanto se gastou? Quantas aulas se perdeu? Ora, isso não interessa nada! 
O que interessa é que se introduziu mais uma "medida de rigor", para preparar a criançada para a vida, ora pois! 
E, sobretudo, nada de confiar nesses "zecos" que enrouquecem nas salas de aula, para fazer das crianças homenzinhos e mulherzinhas, cultos e educados q.b. 
Essa malta, a quem o cabelo teima em embranquecer, e que despede a família às noites e aos fins-de-semana para fazer autênticas maratonas de correção de provas, na realidade só precisava era de uma boa desculpa para atrasar em cerca de dois dias mais uma dessas etapas, deixando no repouso da mesa de trabalho umas resmas de papel. 
E os alunos sempre estavam a precisar de uns feriados, pois isto de União Europeia só tem o nome e por cá nem sequer há férias de neve; assim sempre deu para um salto a Carcavelos a apanhar um valente escaldão! 

domingo, 5 de maio de 2013

Poema à Mãe

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



(poema Eugénio de Andrade/pintura Gustav Klimt)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

António Vieira atual em 2013

 "Tudo quanto tenta e intenta o diabo em um poderoso, tudo leva ao cabo, ou seja nos pecados de homem, ou nos de ministro. Nos pecados de homem, se se ajunta o poder com o apetite, não há honra, não há honestidade, não há estado, nem ainda profissão, por sagrada que seja, que se não empreenda, que se não conquiste, que se não sujeite, que se não descomponha. E nos pecados de ministro, se o poder se ajunta com a ambição, com a soberba, com o ódio, com a vingança, com a inveja, com o respeito, com a adulação, não há lei humana, nem divina, que se não atropele, não há merecimento que se não aniquile, não há capacidade que se não levante, não há pobreza, nem miséria, nem lágrimas que se não acrescentem, não há injustiça que se não aprove, não há violência, não há crueldade, não há tirania que se não execute.” 

- Padre António Vieira, Sermão da Primeira Dominga do Advento [1652].

quarta-feira, 1 de maio de 2013

1 de maio, dia do trabalhador


Comemoro o dia do trabalhador trabalhando. 
Tenho 60 testes intermédios de Filosofia para classificar, com outros tantos descritores para, criteriosamente, estabelecer uma "avaliação externa".
Pergunto-me se a mesma é dos conhecimentos dos alunos ou da paciência - leia-se "resistência" - dos professores!
Ainda que de mau humor, vos desejo a todos um feliz dia do trabalhador! (Versejei!)