sábado, 24 de outubro de 2009

TRÊS CANTOS – quase 40 anos de memórias




Corria o ano de 71 e eu tinha acabado do entrar no Liceu.
O D. Pedro V, a Escola da moda, talvez das raras do país onde rapazes e meninas coexistiam nas mesmas turmas.
Sentia-me gente grande.

No regresso a casa, quase sempre feito a pé, passava a namorar os escaparates das papelarias e uma revista em particular começou a chamar-me a atenção – chamava-se “MC”, que queria dizer Mundo da Canção. Inevitavelmente, os poucos escudos destinados ao lanche no D. Pedro V começaram a ir parar à papelaria e iniciava-se assim a colecção de todos os números que podia adquirir da “MC”.

Foi nas suas páginas que conheci José Mário Branco, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Luís Cília, Sérgio Godinho, Fausto e tantos outros, que só depois do 25 de Abril viria a ter o privilégio de ver cantar ao vivo e a cores.

Em casa já tinha ouvido os meus pais falarem das emissões da Rádio Argel, que era possível escutar clandestinamente e onde falava Manuel Alegre. Rapidamente percebi a relação entre o poeta e os cantores de intervenção de que a revista falava.

Aconteceu nalguns casos que depois de ser anunciada a saída de um disco, ele era proibido e nunca mais se ouvia. Mas a maior parte das canções, escritas com as metáforas necessárias para ludibriar a censura, ouvia-se nalgumas rádios e começava a ser trauteada, com a letra que decorávamos aplicadamente das páginas da “MC”.

Era assim que apareciam no nosso “reportório”, acompanhadas por dedos desajeitados que se feriam nas cordas das nossas violas, primeiro as canções do Zeca, do Adriano e do Fanhais e depois as outras. A falta de jeito era tão grande que, daquele grupinho de aprendizes de baladeiros, ninguém se tornou cantor profissional, mas sim ávidos consumidores de uma certa cultura, talvez para o resto da vida.

Ontem à noite no Campo Pequeno fui confrontada com estas memórias entre a lágrima e o arrepio: perante mim estavam aqueles três homens de mais de 60 anos, como se fosse ontem, eu ainda menina fardada com o emblema do Liceu D. Pedro V, em 71, descendo a rua sem ter lanchado para comprar mais um número do “Mundo da Canção”.

Perante uma plateia de saudosos do 25 de Abril desfilaram todas aquelas canções que aprendemos a trautear e a transformar em hinos da resistência nos anos quentes da primavera marcelista: “Que força é essa”, “Maré Alta”, “O charlatão”, “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, "Eh companheiro" e tantas outras.

O Campo Pequeno foi mesmo pequeno para conter toda a emoção de 40 anos de canções que marcaram a nossa memória e um gigantesco coro ecoou afinado pela sala:
“que força é essa amigo…”, “a liberdade está a passar por aqui…”, “sete rios de multidão que levavam a história na mão…”, “Rosalinda, se tu fores à praia…”

Sérgio Godinho, Fausto e José Mário Branco poderiam ter escrito todas aquelas canções há dois dias, pois elas continuam a ter a actualidade arrepiante das coisas intemporais.


Fotos de Pérola de Cultura no Campo Pequeno em Lisboa, 23/10/09

2 comentários:

  1. Olá Lelé
    Gostei muito de ler a tua reportagem do concerto, feita de emoções e recordações.
    Beijinhos

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  2. Pois, também tive o privilégio de lá ir avivar um nadinha mais as saudades.
    Só tive pena de que ninguém ousasse dançar, nem que fosse na cadeira.
    «On ne peut pas tout avoir, a dit le diable. C'est defendu.»
    E pode ser que tenha razão, mas é pena: já tivemos o 25 de Abril, agora temos uma ministra da Educação nova e os Três Cantos... só queríamos mais e mais e mais.
    Cumprimentos.

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