sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Vitorino hoje no Centro Cultural de Belém



Vitorino apresenta hoje no CCB o seu mais recente trabalho "Tango", agora com uma incursão no Tango argentino, onde colabora com o “La Boca Livre” Tango Sextet de Buenos Aires. Serão tocadas músicas de Astor Piazzola e outras.


"Há sempre uma razão profunda e instalada na nossa memória que nos conduz o gosto por coisas inexplicáveis. Quando dei os meu primeiros passos de dança, comecei pela marcha e pelo pasodoble: era sempre prá frente ou para trás, uma espécie de andar aperaltado mas com ritmo.

Porém, o tango era muito mais complicado e arrebatador. Mas dançá-lo bem dava prestígio nos bailes que, no interior português, eram o acontecimento mais importante para o relacionamento entre os adolescentes dos dois sexos.

Hoje voltei mais para dentro da minha memória e entrei para a aba do capote do meu pai que no Inverno nos levava ao cinema e donde saíamos cheios de frio direitinhos para a cama. O mais novo, encostado ao pai, tinha direito a descer a rua do jardim debaixo do capote (quentinho). Nessa tarde, e para lembrar que era quinta-feira ou domingo (noites de cinema) alguém tinha ligado o altifalante instalado no telhado do Cinecapitólio, que parecia uma enorme corneta cinzenta, e se ouvia na vila toda. O projectista que manuseava aquela máquina gigante e da qual ainda guardo o cheiro quente, acre mas agradável, tinha gostos interessantes: enquanto organizava as bobines dos filmes que vinham de Lisboa na camioneta da carreira, punha a tocar “Adios pampa mia” na voz de Carlos Gardel e enchia a vila de tango. Às vezes volta-me lá de longe em revoadas de som a introdução do tango com os violinos, os baixos e os bandoneons marcados em uníssono e logo depois a voz clara e adocicada de Carlos Gardel em destaque.

Mais tarde já em Lisboa e com algum sentido crítico em desenvolvimento, apercebi-me que o tango era peça importante nas revistas dos anos 30/40 (o famoso “Maldita Cocaína") e que Tomaz Alcaide ainda gravou para a Valentim de Carvalho alguns tangos de autores Portugueses.

Comecei então ao contrário: o tango entrou-me pela infância adentro e só depois de adulto o entendi como um género musical muito interessante, talvez marinheiro, chulo, sensual e de conceito paralelo ao do fado, mas muito diferente na forma de se exprimir. Sendo aquilo, é muito elegante e diverso, desenvolvendo-se em propostas sempre inovadoras. È uma música que acompanha de muito perto a delicadeza de relacionamento que os Argentinos de Buenos Aires (porteños) têm com os Portugueses que os visitam, ou lá vivem.

Atrevi-me pois a gravar num estúdio porteño situado no bairro Floresta, onde antes corria um pequeno rio chamado Maldonado, referido num tango de Jorge Luis Borges / Astor Piazzolla, com o inspirado e motivador nome Frida Estúdio.

Pela mão generosa e atenta do maestro Ramon Maschio fui introduzido numa dezena de tangos dos anos 20, 30 e 40, verdadeiras preciosidades, clássicos de difícil leitura que em conjunto com mais três tangos portugueses e um cantado pela grande e solidária Patrícia Andrade, completam um ambicioso e equilibrado disco.

Sobre o “La Boca Livre Tango Sextet” que me honra no acompanhamento musical desta aventura, nem falar: escutá-los sim com todos os sentidos em alta. E o coração também."


Lisboa 13 de Junho de 2009

Por Vitorino Salomé

LA BOCA LIVRE TANGO SEXTET DE BUENOS AIRES

Ramón Maschio, direcção musical / guitarra
Pablo Fraguela, piano
Irene Cadario, violino
Rubén Slonimsky, bandonéon
Pedro Pinto, contrabaixo
Daniel Salomé, saxofone soprano
Rui Alves, percussão


Há 10 anos, em 1999 Vitorino gravava em Havana um disco com o Septeto Habanero, onde recupera o glamour dos velhos boleros cubanos, um disco que devorei e do qual vos deixo esta amostra.

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