sexta-feira, 13 de abril de 2012

A melhor "festa" ainda está para chegar


Os governantes devem estar loucos!

"Provavelmente face ao reconhecimento pela OCDE de que se mantêm em níveis muito elevados os índices de insucesso dos alunos portugueses, o MEC acaba de decretar o aumento do número de alunos por turma nos ensinos básico e secundário (mínimo de 26 e máximo de 30). 

Nuno Crato dá assim cumprimento ao seu axioma de que a qualidade das aprendizagens dos alunos é diretamente proporcional à grandeza numérica da turma em que se inserem. Vitor Gaspar vê assim cumprida a norma orçamental que impõe esta medida.
A FENPROF discorda de mais este atentado à qualidade do ensino e reafirma a exigência de redução do número de alunos por turma."
O Secretariado Nacional da FENPROF
12/04/2012

Este cartoon faz-me lembrar do meu primeiro ano, em que eu, caloira, sem praxes nem padrinhos, mas muita vontade de estudar, encontrei ao entrar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa uma turma de 263 alunos. 
Tratava-se da cadeira de Filosofia do Conhecimento, lecionada pelo Professor José Barata-Moura, homem de muito bom trato e voz de cantor, bem colocada e auxiliada pelo respetivo microfone, que tinha de ser ministrada no Grande Anfiteatro. 
Cada aula era uma espécie de conferência e nós, os caloiros, um atento auditório que tudo sorvia com evidente prazer. Corria o ano de 1978 e o que menos importava era o tamanho da turma. 
Depois de ter havido anos em que não entrou ninguém nas Universidades, anos de serviço cívico, anos propedêuticos e outras "coisas", que, por estranhas que parecessem, se enquadravam compreensivelmente num país em convulsão e à procura de um rumo, o tamanho das turmas não importava mesmo nada.
Contei-vos a história enquanto aluna: as condições não eram boas, mas os alunos eram todos maiores de 18 anos e tinham escolhido um curso superior, o qual frequentavam por livre vontade.
Hoje os argumentos são bem outros: reina uma ditadura de economicismo a todo o custo. Nem que para reduzir os gastos se pervertam as mais elementares condições de trabalho dos docentes.
Nada do que vivi em 78 é comparável àquilo que vai ser imposto a docentes e alunos, do 5º ao 12º ano, sendo que todos esses anos de ensino são de frequência obrigatória. Com alunos com Necessidades Educativas Especiais e turmas enormes, como se faz um ensino personalizado, diferenciado, etc.? Com os encarregados de educação a exigirem uma atenção individualizada aos problemas específicos de cada criança...
Como, senhores governantes??? 
Não se pode fazer omeletes sem ovos, nem o milagre da multiplicação dos saberes, quando as variáveis concretas em jogo o impossibilitam.
Não poderei contar ainda a história do que isto vai ser enquanto professora; contar-vos-ei quando as mais básicas competências físicas se tiverem já arruinado, perante a degradação de todas as condições de trabalho que eu considero expectáveis para um ensino de qualidade. 
Ou então, dêem-me um anfiteatro com microfone, um auditório com população discente maior de 18 anos e com uma opção de curso conscientemente escolhida. 
Depois sim, poderemos falar de qualidade, ok?

1 comentário:

  1. Querem lá eles saber dos problemas que causarão! A ordem é poupar, poupar, poupar... a todo o custo!

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