sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Morte Urbana



Lisboa é a cidade da minha vida. Tantos poetas a admiraram, tantos Fados a choraram, tantos séculos por ela passaram… E, no entanto, parecemos ser-lhe tão indiferentes!


Tal como nas pessoas, o charme adquire-se com o tempo… As rugas definem quem fomos e dão-nos um vislumbre de quem somos agora. Mas há quem rejeite a história, quem queira - como uma simples operação plástica - apagar as marcas do tempo; quem tenha vergonha do Passado… Talvez seja por isso que, ao percorrer as ruas desta cidade, cada vez me desiludo mais.


A longa Avenida da República (antiga Avenida Ressano Garcia), uma das mais importantes artérias da cidade de Lisboa foi, outrora, um poleiro da alta sociedade. No princípio do século XX, era composta por grandes mansões da aristocracia portuguesa que ainda resistia à implantação da República, largos passeios repletos de vegetação e pelos mais importantes estabelecimentos comerciais da época. Os poucos prédios existentes deslumbravam até os mais distraídos com as suas fachadas trabalhadas bem ao estilo clássico! Hoje, infelizmente, as coisas estão bem diferentes…


Os largos passeios cobriram-se com uma enorme camada de alcatrão; os belos palacetes substituíram-se por altos prédios sem qualquer vestígio dessa antiga beleza; ícones da cidade (como o imponente cine-teatro Monumental) demoliram-se em prol do “bom” e do “moderno”. No entanto, há quem resista!


A Versailles é a alma dos anos 20 (década em que o café foi inaugurado) na Lisboa do século XXI. Chão em xadrez, empregados de camisa branca, colete cinzento, laço preto e avental branco comprido (como manda a etiqueta), espelhos enormes nas paredes e tectos trabalhados, dos quais pendem grandes lustres de cristal, transportam-nos para uma época áurea da cidade.


A mansão de esquina decorada com grandes painéis de azulejo, pequeno pátio com vegetação tropical e telhado em duas cores, é hoje um dos mais prestigiados restaurantes da cidade. Foi, até meados do século XX, a residência dos Viscondes de Valmor. Agraciada com o prémio Valmor em 1906, encontra-se num notável estado de conservação.


A EMEL é conhecida por ser implacável no controlo do estacionamento na cidade. O que poucos sabem é que a sua sede é um dos mais belos edifícios deste país! Recentemente ampliado, este palacete apresenta-se como sendo um dos melhores exemplos da arquitectura portuguesa do século XX.

P.D.

7 comentários:

  1. Excelente alerta para a importância da nossa memória colectiva!

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  2. A nossa história está nas nossas raízes. E essas raízes são encontradas nestas pequenas coisas. Não podemos deixar que esta chacina continue!

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  3. Parabéns, o texto está muito bem escrito!
    Se é verdade que as cidades, assim como as sociedades, precisam de se renovar, também é verdade que muitas vezes essa renovação se tem feito com critérios meramente economicistas ou interesseiros, à revelia do respeito por belas criações dos nossos antepassados - mas isso, ensina-nos a História, infelizmente não é de hoje.
    Quanto ao estacionamento, fico quase todos os dias perplexo e furioso com a selvajaria de certos condutores, que atiram os seus carros para cima de passeios - por exemplo, à roda de árvores em estacionamentos públicos - quando há vagas alguns metros adiante! O resultado são passeios destruídos, incluindo as grandes pedras do rebordo, o que atesta a enorme falta de consideração pelo que é público e pelos materiais que a Natureza e o trabalho humano nos providenciam. Sempre me perguntei porque não são multados semelhantes vândalos!

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  4. Não há qualquer razão aceitável para permitir a destruição do património arquitectónico. Ele é um testemunho importantíssimo da cultura.

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  5. Sem dúvida! A nossa história tem que ser encarada como um ensinamento e não como uma pedra no sapato...

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  6. Sou lisboeta, mas mesmo que não fosse, partilhava inteiramente das opiniões já expressas, tal a sua importância e oportunidade.
    Quanto ao texto principal está belíssimo.
    Agora, por ser defato lisboeta, um muito obrigada pelo grito de alerta!..bj
    TitaFã

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  7. Pois, infelizmente só reparamos o quanto algumas coisas são importantes quando as perdemos...

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