quarta-feira, 1 de julho de 2009

Os afectos depressivos do povo português vs raiva narcísica


"Pensando nos discursos públicos dos governantes máximos deste país fiquei a pensar no funcionamento do nosso povo. Ousando fazer uma generalização que não corresponda à realidade, atrevo-me a dizer que o povo português tem um funcionamento colectivo depressivo. Senão vejamos: o depressivo tem uma auto-estima baixa, acredita pouco ou quase nada em si próprio desvaloriza-se constantemente, tem muita dificuldade em defender-se e acima de tudo culpa-se de tudo. O depressivo quando se defende, é sob o efeito de uma raiva narcísica, de quem foi muito mal amado, ou pelo menos assim o sentiu. Este parece-me ser o retrato do nosso povo actualmente, naquilo que são as minhas leituras, no que ouço nas ruas, em cafés, supermercados entre outros sítios.

Achamos que somos o pior da Europa, e por incrível que pareça já todos nos ultrapassaram. Não acreditamos que alguma vez consigamos sair deste impasse económico, tal como o depressivo não acredita em si próprio, desvalorizamos o que temos e acima de tudo não nos defendemos enquanto povo que tem direitos. Todos os dias existem atentados a esses direitos.

Leitora atenta dos dizeres dos outros, onde encontro significado para os acontecimentos de vida, um pouco como se faz na nossa prática clínica, fui encontrando explicação para o facto deste povo não se defender. Todos os dias existem aumentos que já não são anunciados, basta olhar com alguma atenção para os letreiros das bombas de gasolina, e ninguém diz nada, ninguém se revolta, ninguém sai à rua e grita que não! Ninguém diz: assim não queremos! Ninguém reclama a deposição dos governantes que numa atitude de poder exploram até quase à miséria quem já não tem nada. E assim vai aumentando tudo: a fome, a miséria humana, as condições de vida das pessoas em geral, o crime, e a raiva do povo que por enquanto se mantêm surda.

E perguntará o leitor que até tem lido alguns dos meus artigos, o que faz uma psicóloga clínica a falar de algo que parece politica? A psicologia e em particular a psicanálise interessam-se por estes fenómenos que explicam o comportamento humano. Voltando à história do depressivo numa analogia com aquilo que se passa no nosso pais desde há alguns anos, convêm explicar que de vez em quando o depressivo vira a mesa, precisamente por causa daquela raiva que vai acumulando. Quem não viu já uma pessoa que habitualmente era calma e triste ter uma explosão de raiva incontrolada? Reclamar do pouco afecto que tem. Ou então fazer alguma coisa pela calada? Pois é senhores governantes, talvez devessem saber um pouco mais de psicologia e das estruturas de personalidade. Este povo tem sido mal amado, tem pouco afecto dos seus governantes. Desde há muito. Quem sabe nas próximas eleições este povo depressivo não surpreende pela calada, e deixa transbordar a sua raiva narcísica num resultado que pode surpreender quem está agora numa atitude autocrática, ou egocêntrica, mas um pouco fora da realidade qual esquizóide que vive no seu mundo."


Lídia Craveiro, psicóloga, in Outros Olhares, 26 de Junho de 2009

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