sábado, 26 de setembro de 2009

Para o período de reflexão

Por enquanto não é proibido sonhar.
Obrigada ao compositor Manuel Freire e ao poeta António Gedeão.




Dedico esta canção no dia de hoje aos meus amigos Ramiro Marques, Cristina Ribas, Miguel Loureiro, Ilídio Trindade, Paulo Prudêncio, Anabela Magalhães, Mário Carneiro, Octávio Gonçalves, Ricardo Silva, Francisco Trindade, Paulo Guinote e Olinda Gil, pela generosa partilha das suas (nossas) utopias.

5 comentários:

  1. Lelé Batita
    Pela parte que me toca, um simples obrigado, só por te lembrares de mim, oferendo a lembrança do sonho (amo Gedeão), antes da realidade, porque a realidade talvez esteja no:

    Poema para Galileu

    Estou olhando o teu retrato, meu velho paisano,
    aquele teu retrato que toda a gente conhece,
    em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
    sobre um modesto cabeção de pano.
    Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
    (Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
    Disse Galeria dos Ofícios.)
    Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

    Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
    Eu sei… eu sei…
    As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
    Ai que saudade, Galileu Galilei!

    Olha. Sabes? Lá em Florença
    está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
    Palavra de honra que está!
    As voltas que o mundo dá!
    Se calhar até há gente que pensa
    que entraste no calendário.

    Eu queria agradecer-te, Galileu,
    a inteligência das coisas que me deste.
    Eu,
    e quantos milhões de homens como eu
    a quem tu esclareceste,
    ia jurar- que disparate, Galileu!
    - e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
    sem a menor hesitação-
    que os corpos caem tanto mais depressa
    quanto mais pesados são.

    Pois não é evidente, Galileu?
    Quem acredita que um penedo caia
    com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
    Esta era a inteligência que Deus nos deu.

    Estava agora a lembrar-me, Galileu,
    daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
    e tinhas à tua frente
    um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
    a olharem-te severamente.
    Estavam todos a ralhar contigo,
    que parecia impossível que um homem da tua idade
    e da tua condição,
    se tivesse tornado num perigo
    para a Humanidade
    e para a Civilização.
    Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
    e percorrias, cheio de piedade,
    os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

    Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
    desceram lá das suas alturas
    e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
    nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
    E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
    conforme suas eminências desejavam,
    e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
    e que os astros bailavam e entoavam
    à meia-noite louvores à harmonia universal.
    E juraste que nunca mais repetirias
    nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
    aquelas abomináveis heresias
    que ensinavas e descrevias
    para eterna perdição da tua alma.
    Ai Galileu!
    Mal sabem os teus doutos juizes, grandes senhores deste pequeno mundo
    que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
    andavam a correr e a rolar pelos espaços
    à razão de trinta quilómetros por segundo.
    Tu é que sabias, Galileu Galilei.

    Por isso eram teus olhos misericordiosos,
    por isso era teu coração cheio de piedade,
    piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
    a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
    Por isso estoicamente, mansamente,
    resististe a todas as torturas,
    a todas as angústias, a todos os contratempos,
    enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
    foram caindo,
    caindo,
    caindo,
    caindo,
    caindo sempre,
    e sempre,
    ininterruptamente,
    na razão directa do quadrado dos tempos.

    António Gedeão

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  2. Obrigada Lelé
    Vou colocar esta semana o post acerca do festival de BD que me enviaste.
    Beijinhos aos dois.

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  3. Obrigada, Miguel!
    O poema para Galileu é lindíssimo!
    Costumava dá-lo aos meus alunos quando Galileu fazia parte dos programas.
    Antes, em outras eras da Educação...
    Um abraço.

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