terça-feira, 12 de julho de 2011

1º Anel do Inferno


"Passei o portal. Acabo de entrar no primeiro anel do Inferno. É, certamente, o maior, uma vez que venho de fora e todos eles são concêntricos. E é também, de certeza, o mais povoado. Digo isto, porque está apinhado. Parece um autocarro da Carris em hora de ponta.

O ambiente que se respira é fétido, muito fétido mesmo, mas deve ser o menos escaldante, pois ainda o consigo suportar em mangas de camisa e calças de ganga. Suponho que o pior será o que está mais próximo do núcleo. Deve ser algo semelhante a estar em Mercúrio. Quem serão os desgraçados que lá estão? Veremos, paciente leitor! Comecemos então o reconhecimento do terreno. Vai ser canja ― a queimar, claro ― porque as almas estão rotuladas. Vejamos então quem aqui está.

Há incontáveis criaturas com uma placa de aço reluzente ao pescoço, com a seguinte palavra: “Resignado”. Mas também há muitos rendidos, acobardados, subservientes… Que mal terão feito para estarem aqui? Olha, vai ali um diabrete. Vou fazer-lhe umas perguntonas.

― Boa… Bo… Bem, Sr. Diabrete, pode dizer-me por que razão estas almas vieram aqui parar?
― Aqui não se diz “bem”, diz-se “mal”. E quem és tu, pá?
― O editor do Danação!
― Então és colega, mano!!! Mas olha qu’és a cara chapada do do Dardomeu!
― Pura coincidência!
― Mal, volta lá a repetir a pergunta, que já me esqueci, enquanto espetava aqui o tridente nesta alminha!
― Eu pergun…
― Estava a reinar, patego! Atão tu achas qu’eu m’olvidava?! Mal, aqui há mais variedade do que numa drogaria… eheheheh!!! Há aqui gente que s’agachou, outros que me venderam a alma, outros que diziam imundos e profundos nos comentários dos blogues e no Facebook, e depois iam para as suas escolas praticar o mais devoto e fundamentalista dos submissos carreirismos. A esses até me dá mais prazer espezinhá-los. Só m’apetecia fazer deles uma espetada e comê-los ao lanche. Também há aqui muitos dos que foram em romagem à Capital. Enfim, há de tudo como na farmácia.
― Então não era como numa drogaria?
― Que mais dá, catano?!
― Mas esta gente só está aqui porque se “desvinculou”?
― O qu’é isso, pá, “desvinculou”?
― É…
― Eu sei, ó labrego! Estou só a… infernizar-te! Esta maralha… enquanto tu e outros lorpas como tu andáveis a derrubar moinhos de vento, eles acumularam papelada qu’eu sei lá: formação, pseudoformação, créditos e mais créditos, louvores, relatórios de todas as sortes, fichas de auto-avaliação… Fizeram tudinho, tudinho mesmo, enquanto vós vos babáveis com as palavras baratas que vos diziam, com as palmadinhas nas costas…
― Então presumo que nós não viremos para aqui!
― Heheheheheheh! Inda és mais tamanco do que eu pensava! Heheheheh!
― Ei, espere aí, ainda tenho uma… Foi-se! Dan…

Isto tresanda a suor, mas quem aqui está não mostra evidências de sofrimento relevante. Há até uma música de fundo nesta ígnea espelunca: “Sultans of Swing”, dos Dire Straits”. Estranho!!!"


Luís Costa, Blogue DaNação

1 comentário: