quinta-feira, 7 de julho de 2011

Há cidades cor de pérola



Há cidades cor de pérola onde as mulheres existem velozmente.
Onde às vezes param, e são morosas por dentro.
Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos estremecem.
Mulheres que imaginam num supremo silêncio,
elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos.
Onde consumo uma amizade bárbara.
Um amor levitante.
Zona que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores.
Para que algumas mulheres sejam cândidas.
Para que alguém bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero fulminante,
a quem beijo os pés supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria.
Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço,
dentro de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade,  desde a treva, de crime em crime
- espero a felicidade de loucas delicadas mulheres.
Uma cidade voltada para dentro do génio,
aberta como uma boca em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial de sua cabeça ardente:
- E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Herberto Helder "Lugar" Poesia Toda, Assírio & Alvim, 1979

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