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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Os dias da guerra


"Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Representa um estado de esforço alegre e doloroso; alegre, porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso porque lhe exige trabalho nos dias de paz e a vida nas horas de guerra.
A escravidão é feita de descanso e de tristeza."


Teixeira de Pascoaes

Auscultação aos professores

Este termo costuma aplicar-se no âmbito da Medicina. Aqui, nesta luta, às tantas, estamos a ficar todos mais ou menos doentes cardíacos, stressados, hipertensos e coisas ainda piores.
Mas convém verificar a "tensão" geral antes de adotar formas de prosseguir a luta contra as medidas desastrosas que o MEC pretende aplicar aos professores. Trata-se de uma reunião aberta a todos os que quiserem aparecer e manifestar a sua vontade e opinião.
A tentativa de diabolização dos Sindicatos tem sido uma verdadeira cruzada, desde o tempo da ministra Maria de Lurdes Rodrigues até aos dias das falinhas mansas de Nuno Crato.
Se experimentarem ir a esta reunião magna, vão ver que o chamado "gangster do bigode" afinal não morde, nem os líderes dos outros Sindicatos vos obrigam a tornar-se "peões ao serviço do comunismo", como certa imprensa (n)os tem mimoseado.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Professora em greve


Pela defesa da escola pública e da dignidade dos seus professores.
Pelo respeito que sempre devotei aos meus alunos e às suas famílias.
Pelo orgulho que sinto pelo meu trabalho e pela camisola que visto.
Recuso a falta de condições para manter a qualidade do ensino.
Faço greve como forma última de protesto e por consciência profissional.

domingo, 16 de junho de 2013

Professores: mágicos ou feiticeiros?

Feiticeira (c) Olinda Gil

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros...

Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este!More Sharing Services

Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública.

Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar…

Ando há 12 anos na escola, na escola pública.
Durante estes 12 anos aprendi. Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam.
As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica.

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares de outros alunos a sermos também nós pessoas, seres pensantes e activos, não apenas bonecos recitadores!

Talvez resida ai a minha incapacidade para perceber aqueles que se dizem tão preocupados com o meu futuro. Talvez resida no facto de não perceber como é que alguém pode pôr em causa a legitimidade da resistência de outrem à destruição do futuro e presente de um país inteiro!
Onde mora a preocupação com o futuro dos meus filhos? Dos meus netos? Quem a tem?
Onde morava essa preocupação quando cortaram os horários lectivos para metade e mantiveram os programas?
Onde morava essa preocupação quando criaram os mega-agrupamentos?
Onde morava essa preocupação quando cortaram a acção social ou o passe escolar?
Onde mora essa preocupação quando parte dos alunos que vão a exame não podem sequer pensar em usá-lo para prosseguir estudos pois não têm posses para isso?
Não somos reféns nessa altura?
E a preocupação com o futuro dos meus professores? Onde morava essa preocupação quando milhares de professores foram conduzidos ao desemprego e o número de alunos por turma foi aumentado?

Todas as atrocidades que têm sido cometidas contra nós, alunos, e contra a qualidade do ensino que nos é leccionado não pode ser esquecida nunca mas especialmente em momentos como este!

Os professores não fazem greve apenas por eles, fazem greve também por nós, alunos, e por uma escola pública que hoje pouco mais conserva do que o nome. Fazem greve pela garantia de um futuro!

De facto, Crato tem razão quando diz que somos reféns, engana-se é na escolha do sequestrador!

E em relação aos reféns: não são só os alunos; são os alunos, os professores, os encarregados de educação, os pais, os avós, os desempregados, os precários, os emigrantes forçados... Os reféns são todos aqueles que, em Portugal, hipotecam presentes e futuros para satisfazer a "porra" de uma entidade que parece não saber que nós não somos números mas sim pessoas! Se há momentos para ser solidária, este é um deles! Estou convosco.

Este texto foi publicado originalmente na página de Facebook de Inês Gonçalves

terça-feira, 11 de junho de 2013

Personalidades da Cultura solidárias com a greve dos professores


Manifesto: Obrigado professores
"Sem Educação não há país que ande para a frente. E é para trás que andamos quando o governo decide aumentar o número de alunos por turma, despedir milhares de professores e desumanizar as escolas, desbaratando os avanços nas qualificações que o país conheceu nas últimas décadas. Não satisfeito, continua a sua cruzada contra a escola pública. Ameaça com mais despedimentos e com o aumento do horário de trabalho dos que ficam.
Ao atacar os professores o governo torna os alunos reféns. Com menos apoios educativos e menos recursos para fazer face à diversidade de estudantes, é a escola pública que sai enfraquecida. Querem encaixotar os alunos em turmas cada vez maiores com docentes cada vez mais desmotivados. Cortam nas disciplinas de formação cívica e do ensino artístico e tecnológico, negando aos jovens todos os horizontes possíveis.
Os professores estão em greve pela qualidade da escola pública e em nome dos alunos e das suas famílias. Porque sabem que baixar os braços é pactuar com a degradação da escola. Os professores fazem greve porque querem devolver as asas aos seus alunos que o governo entretanto roubou. Esta greve é por isso justa e necessária. É um murro na mesa de quem está farto de ser enganado. É um murro na mesa para defender um bem público cada vez mais ameaçado.
Por isso, estamos solidários. Apoiamos a greve dos professores em nome de uma escola para todos e onde todos cabem. Em nome de um país mais informado e qualificado, em nome das crianças que merecem um ensino de qualidade e toda a disponibilidade de quem sempre esteve com elas. É preciso libertar a escola pública do sequestro imposto pelo governo e pela troika. Aos professores dizemos “obrigado!” por defenderem um direito que é de todos."

Para ver quem são os subscritores deste Manifesto, clique aqui. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eis a explicação



Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault:


Colbert: - 
Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço...
Mazarino: - 
Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado... é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: - 
Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: - 
Criando outros.
Colbert: - 
Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: - 
Sim, é impossível.
Colbert: - 
E sobre os ricos?
Mazarino: - 
Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: - 
Então como faremos?
Mazarino: - 
Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer, e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Blogging connecting people *

Lelé Batita, editora deste Blogue, abraçada por Anabela Magalhães
Foto de Armanda Sousa, 26-01-2013, Lisboa

Afetos são coisas do coração. Lutas são coisas da razão e da lógica. Se os segundos se decidem, com hora e dia marcado, já os primeiros não só não se decidem como não se escolhem.
Antes mesmo de ter encontrado pela primeira vez pessoalmente a Anabela Magalhães em Lisboa, já a "conhecia" razoavelmente do seu Blogue com o mesmo nome.
A empatia não se fez demorar e antes se confirmou em presença.
Esse era um tempo em que não havia divisões partidocráticas e Maria de Lurdes Rodrigues com Jorge Pedreira e Valter Lemos tinham conseguido colocar contra si a esmagadora maioria da classe docente. De tal modo foi a avalanche que até mulheres de membros do partido do governo de Sócrates iam para a rua engrossar as manifestações. Era um tempo em que os Blogues da esfera docente se uniram aos movimentos independentes de professores para não raramente tomarem em mãos a mobilização dos professores de todos os graus de ensino e arrastar consigo as forças sindicais, quantas vezes hesitantes e conciliadoras.
Desse tempo vem a minha amizade com a Anabela. Ela mulher do Norte, eu do Sul, temos em comum a coerência e o horror à cobardia. E quantas faturas temos pago por causa disso. Mas ainda assim, parece que não nos conseguem parar nem calar, enquanto as injustiças e os absurdos nos baterem à porta.
Ao longo dos anos a Anabela veio a revelar-se uma das bloggers mais ativas e participativas em todas as lutas da classe docente. Grande professora, mulher de armas e sem dúvida alguma, uma boa amiga.
A Armanda Sousa, outra grande mulher do Norte, excelente professora e grande colega, com o seu espírito de guerreira celta, também veio por aí abaixo, de câmara fotográfica em punho e apanhou este que considerei um dos mais belos momentos do dia. Sob o olhar atento do meu compagnon de route, Luís Diferr, este foi mesmo "aquele abraço"!
Obrigada, queridas amigas por, estando tão longe, me fazerem sentir tão perto.

(* máxima adaptada da campanha da Nokia por Renny Bakke Amundsen, blogger norueguês e um dos  meus melhores amigos fora de portas)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Agonia


"A luta dos professores" é um magnífico texto de Luís Costa que vale a pena ler.
Partilho da sua visão, embora não o saiba expressar com o seu talento literário.
Hoje a luta é pela estrita sobrevida de uma carreira ceifada, contra o desespero das expectativas aniquiladas. Um dia após o outro, os rostos estão mais cansados e o horizonte mais vazio. Uma classe profissional em lenta agonia. Sob o olhar indiferente das inteligências que tudo decidem.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dois anos para ouvir os conselhos do Rex


Foto: Rex, por Pérola de Cultura

Republico este texto que escrevi a 16 de Maio de 2009 e publiquei neste Blogue.
Acho curioso revê-lo hoje. Só para refrescar as nossas memórias e ver como demorou...

Vivo e trabalho como cão de guarda numa Escola.
Tenho muitos anos e ultimamente tenho visto os professores muito cansados e abatidos. Meteram-se numa luta desigual contra um governo prepotente, sem saber se tinham condições de levá-la até às últimas consequências.

Uns andam a chorar pelos cantos e a tomar diazepinas; outros vão para o exterior da escola fumar cigarros atrás de cigarros, como se procurassem a solução dos problemas no fundo do maço; outros ainda, com tendências intelectuais, põem-se a escrever blogues em vez de dormir, ou compõem obras poéticas; outros, ainda um pouco entusiastas, fazem caminhadas ao fim de semana de manhã cedo por Monsanto.

Todos procuram um escape ou uma terapia para combater os fantasmas do medo e reduzir a angústia. De um modo geral andam olheirentos e com um aspecto muito cansado.

Já ouvi alguns dizerem que iam depor as armas; outros, pelo contrário, dizem que vão resistir até ao fim às imposições injustas que sobre eles se vêm abatendo e que, ainda por cima, têm vindo a desuni-los.

Não sei o que isto irá dar: ouvi dizer que há uma manifestação nacional dia 30, promovida pela Plataforma Sindical, mas também uma frente jurídica que não dorme, inspirada por um tipo que tem um “Umbigo”.

Percebo pouco do que é que isto tudo quer dizer, pois quando quero ir espreitar a televisão, expulsam-me da sala de professores. Afinal, eu sou apenas um cão. O que sei, é o que o vou ouvindo dizer enquanto estou no meu posto.

Já lhes tenho dito que não deviam entrar em stress, que os governos vêm e vão, que têm oportunidade de correr com este nas próximas eleições, mas…
Quem é que vai ouvir os conselhos de um velho cão de guarda cansado?

(Nota: entretanto Rex foi abatido por doença. E houve muitas lágrimas na escola. Fica aqui a minha memória deste animal muito meigo e dedicado, de quem alunos, professores e funcionários gostavam imenso. Depois de fazer este texto muitos passaram a dizer por brincadeira que não se podia falar ao pé do Rex, pois ele tinha um ship...)