Ilustração: (c) Luís Diferr, Kallilea, imagem 4, pág.4 (a publicar)
Carta aberta de um estudante grego
O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu.
Decidi escrever
este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento
e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media
mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em
detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens.
A minha razão
para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período
dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram
lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual "estaria em causa" devido à
greve.*
De que falam
vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que
verdadeiramente pôs em causa o meu futuro?
Deitemos uma
vista de olhos sobre quem, já há muito tempo, constrói o futuro e toda a nossa
vida:
- Quem construiu o
futuro do meu avô?
- Quem vestiu o
seu futuro com as roupas velhas da administração das Nações Unidas para a ajuda
de emergência e reconstrução e o obrigou a emigrar para a Alemanha?
- Quem governou
mal e estripou este país?
- Quem obrigou a
minha mãe a trabalhar do nascer ao pôr-de-sol por 530 euros por mês? Dinheiro
que, uma vez paga a comida e as contas, nem chega para um par de sapatos, para
já não falar num livro usado que eu queria comprar numa feira de rua.
- Quem reduziu a
metade o ordenado do meu pai?
- Quem o caluniou,
quem o ameaçou, quem o obrigou a regressar ao trabalho sob a ameaça da
requisição civil, quem o ameaçou de despedimento, juntamente com todos os seus
colegas dos serviços de transportes públicos quando eles, que apenas queriam
viver com dignidade, entraram em greve?
- Quem procurou
encerrar a universidade que o meu irmão frequenta para atingir alguns dos seus
sonhos?
- Quem me deu
fotocópias em vez de manuais escolares?
- Quem me deixa
enregelar na minha sala de aula sem aquecimento?
- Quem carrega com
a culpa de os alunos das escolas desmaiarem de fome?
- Quem lançou
tanta gente no desemprego?
- Quem conduziu
4.000 pessoas ao suicídio?
- Quem manda de
volta para casa os nossos avós sem cuidados médicos e sem
medicamentos?
Foram os meus
professores que fizeram tudo isto? Ou foram VOCÊS que fizeram tudo
isto?
Vocês dizem que
os meus professores vão destruir os meus sonhos fazendo greve.
Quem vos disse
alguma vez que o meu sonho é ser mais um desempregado entre os 67% de jovens que
estão no desemprego?
Quem vos disse
que o meu sonho é trabalhar sem segurança social e sem horários regulares por
350 euros por mês, como determinam as vossas mais recentes alterações às leis
laborais?
Quem vos disse
que o meu sonho é emigrar por razões económicas? Quem vos disse que o meu sonho
é ser moço de recados?
Gostaria de
dirigir algumas palavras aos meus professores e aos professores em toda a
Grécia:
Professores,
vocês NÃO devem recuar um único passo no vosso compromisso para connosco. Se
recuarem agora na vossa luta, então sim, estarão verdadeiramente a pôr em causa
o meu futuro. Estarão a hipotecá-lo.
Qualquer recuo
vosso, qualquer vitória que o governo obtenha, roubará o meu sorriso, os meus
sonhos, a minha esperança numa vida melhor e em combater por uma sociedade mais
humana.
Aos meus pais,
aos meus colegas e à sociedade em geral tenho a dizer o seguinte:
Quereis
verdadeiramente que aqueles que nos ensinam vivam na miséria?
Quereis que
sejamos moldados nas salas de aulas como mercadorias de produção
maciça?
Quereis que eles
fechem cada vez mais escolas e construam cada vez mais prisões?
Ides deixar os
nossos professores sozinhos nesta luta? É para isso que nos educais, para que
recusemos a nossa solidariedade?
Quereis que os
nossos professores sejam para nós um exemplo de respeito por nós próprios, de
dignidade e de militância cívica? Ou preferis que nos dêem um exemplo de
escravidão consentida?
Finalmente,
quereis que vivamos como escravos?
De amanhã em
diante, todos os alunos e pais deviam ocupar-se de apoiar os professores com uma
palavra de ordem: "Avançar e derrotar a tirania fascista!"
Lutemos juntos
por uma educação de qualidade, pública e livre. Lutemos juntos para derrubar
aqueles que roubam o nosso riso e o riso dos vossos filhos.
PS: Menciono as
minhas notas do ano lectivo 2011/12, não por vaidade mas para cortar a palavra
àqueles que avançarem com o argumento ridículo de que "só quero escapar às
aulas": Comportamento do aluno: "Muito Bom". Classificação média: 20
("Excelente") [a nota mais alta nos liceus gregos].
Traduzida de
"Echte Democratie Jetzt"