terça-feira, 14 de abril de 2009

Mini saias e decotes proibidos em Faro


"Funcionárias da Loja do Cidadão de Faro proibidas de usar saias curtas e decotes

Instruções dadas em acção de formação antes da abertura da loja

As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos. As instruções foram dadas numa acção de formação antes da abertura da loja, denunciou uma funcionária.

Segundo conta hoje o “Correio da Manhã”, as instruções foram apresentadas durante uma acção de formação promovida pela Agência de Modernização Administrativa.

“Esta acção incide sobre várias matérias e, em particular, sobre o que deve constituir um atendimento de qualidade, que ajuda ou prejudica o relacionamento com os cidadãos”, justificou Maria Pulquéria Lúcio, vogal do Conselho Directivo da agência, ao jornal.

Os “aspectos de postura pessoal foram abordados como importantes para uma imagem cuidada” das funcionárias, acrescentou.

Pulquéria Lúcio confirmou a proibição do uso de decotes exagerados, perfumes agressivos e gangas, mas negou a referência a saltos altos e a roupa interior escura."

PÚBLICO, 10.04.2009 - 08h36

MEU COMENTÁRIO:
Aquilo que se oferece dizer é que, definitivamente, vivemos uma época de obscurantismo e estupidez. Só em nome de falsos puritanismos bacocos é que se pode entender uma medida como esta. E cabe perguntar: por este andar, onde é que isto vai parar?

Como em toda e qualquer situação, o que deve prevalecer é o bom senso. É evidente que uma pessoa, homem ou mulher, não pode ir nua para o local de trabalho, nem deverá assumir qualquer atitude provocatória, que possa incomodar de forma óbvia os sujeitos sociais com os quais vai interagir. Isto é válido tanto para funcionários de loja, quer ela seja do cidadão ou não, como para qualquer repartição, banco, hospital ou escola.

Para exibição dos atributos de cariz sexual ou quaisquer atitudes de indução ao acasalamento, há locais e circunstâncias mais adequadas e eficazes do que o local de trabalho.

Mas não exageremos. Chegar ao ponto de proibir perfumes, definir tamanhos de saia ou de decote, faz-me lembrar outros tempos, em que, aluna de um dos Liceus mais vanguardistas de Lisboa, ainda assim, fui chamada ao gabinete da Sra. Vice-Reitora e compelida a baixar a bainha da bata, sob pena de procedimento disciplinar!

Não imagino o que faria se um chefe meu me viesse falar na cor da minha roupa interior, mas acho que teríamos um problema. Suponho que estas exigências não devem ter sido colocadas aos funcionários homens, que devem poder usar à vontade os ténis velhos, o cabelo seboso ou as calças a cair pelo traseiro abaixo, porque isso não deve fazer mal nenhum.

Por este andar, o senhor chefe da tal Loja terá de começar por traçar os centímetros acima do joelho a partir dos quais uma saia é “mini” e elaborar uma lista dos perfumes considerados “agressivos”. Para esta última medida, supostamente deverá mandar vir de França especialistas em perfumes, ou os seus criadores, pois não se conhecem aos chefes das repartições competências estéticas nem químicas para o definir…!

Se querem cuidar da imagem dos funcionários, seria mais interessante começar por mandá-los fazer check-up estomatológico ou odontológico, para não exibirem cáries ou mau hálito ao público, evitar o cheiro de “chulé” ou de “sovaco”, esses sim “perfumes agressivos” muito mais difíceis de suportar do que um decote ou uma mini-saia!

Não estamos em tempo de permitir a descriminação entre homens e mulheres nos locais de trabalho e muito menos atitudes misóginas de pequenos ditadores que gostam de abusar do poder. Definitivamente, não é pelo tamanho da saia, do cabelo ou da cor do baton que se afere as qualidades de trabalho de uma funcionária, nem o atendimento será necessariamente de maior qualidade se esta tiver aspecto de rata de sacristia.

1 comentário:

  1. Cara colega,

    Em primeiro lugar, felicito-a, sinceramente, pelo seu blogue, que não conhecia. Foi um boa surpresa. É um blogue cuidado na forma e no conteúdo. Parabéns, portanto.
    Quanto ao seu comentário acerca da vergonhosa história da proibição das saias curtas, dos decotes generosos e dos perfumes agressivos, não posso estar mais de acordo consigo.
    Infelizmente, há muitos candidatos a tiranetes por aí escondidos, que sentindo o ar que se respira e inspirando-se nos exemplos que vêm de cima logo se aprontam para dar sinal de vida.
    Felizmente que a liberdade ainda não foi perdida e que, por isso, é possível pôr a nu estes casos que, se não forem publicamente criticados, tenderão a espalhar-se como cogumelos.
    Um abraço.

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