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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sobre o dia mundial de luta contra a SIDA

Gustav Klimt - Water serpents 
Portugal continua a ser campeão dos infetados por VIH na União Europeia; uma vergonha e uma tristeza. 
Este ano foi diagnosticado um milhar de novos casos. Haverá falta de informação sobre esta doença? Nem por sombras! 

Dos estudos realizados, a maioria das pessoas inquiridas, em amostras de população diversificadas, conhece os riscos, as formas de transmissão e os procedimentos a adotar para a contenção desta epidemia.

As populações mais jovens, nomeadamente nas Universidades, são as que mais conhecem sobre a doença, desde os sintomas até às formas de contágio, mas são também as que mais assumem comportamentos de risco. 

Isto para mim constitui um paradoxo e, como todos os paradoxos, é irresolúvel. 
Segundo relato de especialistas, esses jovens confessam em consulta que sabem os riscos que correm, assumem-nos, e vão fazendo testes de despistagem de 3 em 3 ou 4 em 4 meses, a fim de driblar aquilo que eles calculam como ‘período de janela’ do vírus. 

Isto é como andar a dar voltas na borda do poço da morte em busca da adrenalina.
Mas o paradoxo não fica por aqui: esses indivíduos, muitas vezes de origem socio-cultural média ou elevada, um dia recebem um teste de VIH positivo e depois indignam-se com as situações de discriminação social com que mais tarde ou mais cedo se deparam.

Os estereótipos e o preconceito ainda por aí andam instalados e estes doentes continuam muitas vezes a ser conotados com os anteriormente designados “grupos de risco”, conceito hoje em dia obsoleto. A prostituição, os consumidores de drogas (por via intra-venosa) e os homossexuais masculinos foram inicialmente os grupos onde a doença mais se difundiu. Hoje em dia estas são situações cujos envolvidos passaram a proteger-se muito mais, o que fez com que o número de infetados tenha vindo a diminuir drasticamente. Primeiro nos EUA e depois em toda a Europa.

É no continente africano que o problema persiste de forma mais grave em todas as faixas da população, inclusivamente com muitas crianças a nascerem já infetadas. A escassez de meios de combate à doença, mas também as dificuldades profundas no âmbito da educação para a saúde, com todo um desfazer de mitos que isto implica, são os maiores obstáculos.

No mundo ocidental hoje já não se fala em grupos de risco, mas continua a falar-se em comportamentos de risco. E esses continuam a existir, e muitas vezes com consciência, à revelia de todas as campanhas e avisos por parte das instituições de Saúde, técnicos especializados e publicidade institucional. 
Em Portugal nem ONGs como a Abraço ou outras, têm conseguido com as suas campanhas, mudar este estado de coisas.

As relações sexuais fortuitas desprotegidas e o número elevado de parceiros são a principal causa de transmissão do VIH entre a população jovem portuguesa; a frequência de prostitutas e o subsequente contágio da parceira são a maior causa de disseminação da doença entre a população idosa (consideremos, para facilitar, os maiores de 65 anos). Ainda assim, as pessoas sabem disto. 

Sabemos que é muito difícil alterar comportamentos nas camadas mais idosas. Mas seria de esperar que as gerações mais jovens, mais esclarecidas, pudessem ter uma consciência maior da necessidade de assumir certos hábitos saudáveis, tanto sobre a educação para a Saúde, como a consciência de Cidadania que consiste em não se estar nas tintas para o outro com quem se está. Quer esse "estar" signifique uma vida, um ano ou apenas uma noite.

Faço questão de chamar a atenção dos meus alunos para o sentido de responsabilidade que deve estar associado à sexualidade, nas aulas de Educação Sexual. Mas parece não ser suficiente quando chegam à Universidade. No meio das praxes e dos copos, não se sabe bem, mas parece que tudo pode acontecer.

Poderemos neste ponto perguntar: - E as faixas etárias intermédias, como estão? As dos trintões, quarentões, cinquentões? Ou já se safaram entre os pingos da chuva e entretanto ganharam juízo, ou já morreram, ou então ainda fazem parte dos que continuam a jogar à roleta russa… Até um dia! 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Andamos todos de garras afiadas?


Ainda há poucos dias uma colega na sala de professores me dizia que as pessoas andam agressivas e disparam por tudo e por nada. Hoje tive ocasião, infelizmente, de sentir isso na pele. 
De garras afiadas, uma senhora com idade para ser minha mãe destratou-me em público, sem pudor algum e com bastante agressividade. Pensei, no fim de tudo e para com os meus botões, que certamente o seu poder económico era inversamente proporcional à sua boa educação e cultura de cidadania.
Senhora certamente habituada a mandar em subalternos a quem fala de alto, deixou transparecer em voz alta e para duas outras pessoas que estavam na fila, o seu desagrado por eu estar a demorar alguns minutos na caixa multibanco, onde, sem qualquer prazer, tive de fazer cinco operações: duas para consultar saldos, outra para consultar NIB, uma para pagar a mensalidade do telemóvel (luxo de que ainda não prescindi por ter família), e outra para fazer uma transferência. Ao todo, cerca de 5 minutos. Uma eternidade, para quem, visivelmente, não está habituada a esperar uns minutos numa fila. 
- "Está a ver papeis". 
- "Está a fazer a escrita do mês". 
- "Ai, valha-me Deus, parece impossível!" 
Fui escutando calada, a ver se não me enganava nos algarismos do NIB, na quantia a transferir, no nº do telemóvel. Calada, incomodada, terminei as cinco operações inadiáveis que tinha de fazer,  guardei os cartões e fechei a carteira. A dita senhora era a quarta pessoa da fila. A segunda e a terceira esperavam atrás de mim civilizadamente e em silêncio aqueles cinco longuíssimos minutos.
Olhei a senhora de frente e perguntei se tinha alguma coisa para me dizer. Disparou que era uma grande falta de educação da minha parte fazer aquelas operações todas. Devia fazer duas e retirar-me para o lado, dar a vez às pessoas e depois voltar e fazer as restantes quando já não estivesse lá mais ninguém. As outras duas pessoas parecem ter ficado tão estupefactas quanto eu.
- "Perdão???" reagi com surpresa.
A senhora repetiu a mesma frase e eu, ainda incrédula respondi se não seria falta de educação dela, a senhora emitir comentários nas minhas costas enquanto eu estava a fazer o que precisava. Afinal de contas, eu tinha tanto direito a usar o multibanco como qualquer outra pessoa.
- "Mas a escrita faz-se em casa. E conversa acabada, não lhe dou o direito de continuar!"
- "Mas eu não estive a fazer a escrita, apenas umas operações que não podia adiar. E porque deveria dar-lhe a vez?"
- "Acabou, já lhe disse, acabou a conversa. Acabou!!!", vociferou já a gritar.
Então baixou-me a minha condição de povo e respondi à senhora que não a conhecia de lado nenhum e que ela não sabia com quem estava a falar. E dei meia volta afastando-me.
Sabem o que mais aconteceu? 
A senhora ficou subitamente mansinha e, acorbardada, respondeu-me "Boa noite".
Eu, que já ia a descer a rua, fiquei furiosa e repliquei:
- "Vá para o diabo que a carregue, minha senhora!"

Aquela senhora não tinha aspeto de quem anda a contar euros e a ver se tira daqui para ali para não ficar com as contas a descoberto. Coisa que eu me vejo, no segundo semestre deste ano, compelida a fazer. 
Não tinha o direito de me condenar e chamar mal-educada. Não sei porque tinha tanta pressa e tanta agressividade. Acabei por perder a paciência e falar tão alto quanto ela, o que parece tê-la feito descer à terra e perceber que não estava a dar um fora à sua criada, ao seu jardineiro ou ao seu chauffeur. Eu não costumo dizer estas coisas. Mas que há pessoas que as merecem, há!

Fiquei preocupada e a pensar na agressividade latente que os cidadãos andam a carregar consigo, num quotidiano cada vez mais difícil. 
Vamos lá a ver se pelo Natal não vamos para aí andar à estalada uns aos outros na via pública.
Se calhar não era bem ao cidadão do lado que nos apetecia dar um par de estaladas...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ter filhos: os melhores e os piores países



Pela segunda vez comento o relatório do estudo anual sobre as condições da maternidade em alguns países do mundo. Portugal ocupa um honroso 15º lugar; embora no ano passado estivesse em 14º lugar, em 2012 estava em 19º. 
Efetivamente, desde há algumas décadas, sobretudo com a criação do Serviço Nacional de Saúde (que devemos, entre outros, ao Dr. António Arnauld), a mortalidade infantil decresceu enormemente. Com o acesso aos cuidados de saúde primários nos Centros de Saúde da área da residência (dos quais, em teoria, todos os cidadãos devem poder usufruir), monitoriza-se a gravidez, ensina-se a contraceção e acompanha-se o crescimento das famílias.


Embora as taxas de natalidade só se mantenham neste momento à custa das famílias de imigrantes residentes em Portugal, as crianças que nascem dispõem de bons cuidados de neonatologia e as mães podem contar com um acompanhamento com uma razoável eficácia de meios durante o período da gestação.


Também a educação ocupa um papel importante neste ranking, pelo que é expectável que as raparigas portuguesas, antes de serem mães, tenham frequentado a Escola pelo menos até aos 16 anos e sejam portanto alfabetizadas. 

Segundo o State of the World's Mothers 2012, a lista está assim ordenada:


1. Noruega 
2. Islândia
3. Suécia
4. Nova Zelândia
5. Dinamarca
6. Finlândia
7. Austrália
8. Bélgica
9. Irlanda
10. Holanda
11. Reino Unido
12. Alemanha
13. Eslovénia
14. França
15. Portugal
16. Espanha
17. Estónia
18. Suiça
19. Canadá
20. Grécia
21. Itália
25. EUA
27. Áustria


Nas posições finais surgem países como:
- Afeganistão
- Iémen
- Guiné-Bissau
- Mali
- Eritreia
- Chade
- Sudão
- Sudão do Sul 
- República Democrática do Congo 
- Níger


O documento de estudo que serve de suporte a este ranking assenta em diversos critérios: 
1. as condições imediatas, como a nutrição e o estado de saúde das mães; 
2. as condições intermédias, como a facilidade de acesso aos bens alimentares, aos cuidados de saúde materno-infantil e as condições de higiene e de serviços de saúde em geral;
3. as causas subjacentes à maternidade, como as instituições, o enquadramento político e ideológico, a estrutura económica e os recursos humanos, tecnológicos e ambientais.


Não admira pois que a Noruega seja o melhor país para ter filhos e o Níger o pior do mundo. Olhando para as classificações melhores e para as piores, o que se constata, é o de sempre: as melhores condições encontram-se nos países ricos, com predomínio para o Norte da Europa e Oceania e os piores em África. Este continente cheio de assimetrias, tem ainda regiões onde a pobreza e a fome continuam a ser os campeões, aliados de excelência das condições de higiene deficitárias, a doença, a falta de escolaridade e de instituições de apoio em todas estas áreas de intervenção prioritárias.


Notícia aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Formação Cívica - posição da Amnistia Internacional Portugal


A Amnistia Internacional Portugal defende a manutenção da Formação Cívica nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e no 10.º ano dos cursos científico-humanísticos. A supressão da Formação Cívica contribuirá para o empobrecimento do currículo nacional, desvalorizando o papel da escola enquanto instituição que forma e educa para a cidadania. 
A AI Portugal considera que a Formação Cívica não pode ter um estatuto de menoridade relativamente às outras áreas curriculares nem pode ser considerada apenas um tempo letivo dos diretores de turma para apoio aos alunos na resolução de conflitos e problemas.  
A Formação Cívica tem de ser assumida como um espaço privilegiado de educação para a cidadania onde necessariamente são abordados as temáticas dos direitos humanos.
Nesse sentido, a AI Portugal propõe que a Formação Cívica do ensino básico passe a ter o estatuto de área disciplinar com um programa mínimo de finalidades, objetivos e conteúdos definidos pelo Ministério da Educação, cabendo depois às escolas, no âmbito do seu projeto educativo e autonomia pedagógica, aprovar o seu plano curricular geral. 
A Amnistia Internacional Portugal considera igualmente essencial a existência de programas de formação adequada para os docentes com responsabilidades na lecionação da Formação Cívica.


Pode ler aqui o texto integral do parecer da Amnistia Internacional Portugal sobre a Revisão Curricular.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Noruega, o país mais feliz do mundo


"Num relatório divulgado esta semana, a revista Forbes lançou uma lista dos 20 países 'mais felizes' do mundo e uma outra com os 20 países 'mais tristes'. A Noruega lidera a primeira, enquanto a República de África Central se assume como líder da segunda."
(Ler a notícia completa aqui.)

Verdadeiramente, esta notícia não constitui para mim qualquer surpresa. Nem acerca dos mais felizes nem dos mais tristes. O que faz traçar inevitavelmente uma relação entre a "felicidade", ou o que dela se entenda, e a riqueza per capita. As condições de vida concretas determinam o bem estar dos povos, e, desde logo, a sua saúde, física e mental. A pessoa deve sentir-se bem na sua integralidade, tal como o determina a OMS, para poder considerar-se saudável. E isso implica condições de higiene, alimentação, habitação e segurança, à cabeça. Ninguém pensa em construir bibliotecas ou salas de concertos se não tiver um leite e um pão para comer ou uns sapatos para calçar. É isso infelizmente o que ainda vem acontecendo em alguns países de África, sobretudo aqueles que estão mais sujeitos à desertificação.


A Noruega em épocas mais remotas foi um país pobre e conheceu tempos de miséria e fome. Noutros tempos os Vikings vieram por essa Europa abaixo roubar e pilhar devido à fome, às dívidas e às más condições de vida numa região de clima duríssimo.  Após anos de ocupação nazi, o país estava de rastos, mas conseguiu levantar-se graças a muito trabalho e persistência. Mas não só: a Natureza foi generosa, apesar de o clima não ser fácil. Foi a descoberta de jazidas de petróleo no Mar do Norte que permitiu à Noruega ser o que é hoje: um país rico. Assegurando uma gestão equilibrada dos recursos naturais, a política tem uma vertente marcada de consciência social e sentido de cidadania. Assim, os lucros do Estado são entendidos como lucros dos cidadãos. E isto faz toda a diferença em relação à forma de encarar a riqueza, comparando,  por exemplo, com países como Angola, em que a par de uma população faminta e descalça, se encontram fortunas privadas fabulosas.


Na Noruega não se deita abaixo uma árvore; a madeira que é necessária para as casas é comprada à Suécia. As florestas estão virgens, os rios impolutos, a Natureza em estado puro, com poluição próxima do zero. Igualmente próxima do zero está a corrupção e a criminalidade. Não fosse o desmando do louco do Breivik e a criminalidade norueguesa continuaria a nem sequer ser falada. Cada norueguês tem no Banco 100 mil euros em coroas atribuídos pelo próprio Estado, como participação nos lucros do país. E ainda atribui ajudas  externas, como por exemplo, a Portugal! Onde é que isto já se viu? 
A exportação do bacalhau e dos salmões, que são criados em viveiros nas águas tranquilas e frias dos fiordes, também ajudam os cofres do país. 


As contrapartidas deste desafogo económico sentem-se em vários aspetos. Se por um lado os cidadãos dispõem de assistência médica e escolaridade praticamente gratuitas e reformas exemplares, por outro, pagam taxas muito altas sobre os seus - também muito elevados - salários. (Os professores, por exemplo, têm um salário três vezes superior aos de Portugal.) As rendas de casa de um apartamento pequeno em Oslo são altíssimas e o custo dos bens de consumo elevado. Mas, mesmo assim, compensa, pois o desemprego é muito baixo, a mortalidade neo-natal também e a escolaridade e a cultura das pessoas muito elevada, assim como a consciência cívica. Estes são indubitavelmente marcadores daquilo que pode constituir o bem estar de um povo e logo a sua "felicidade". Ou não?


Dos dois referendos já realizados sobre a entrada na UE, resultou um "não" dos noruegueses. Não me admira. Eles estão bem e são felizes. Apesar da loucura terrorista e xenófoba que manchou de sangue o seu "pacific way of life".


Seria o meu país de eleição para viver, não fossem os 18º negativos em Oslo no Inverno.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O que valem as sondagens?


Sondagem do dia 13/05 - Público e TVI

No dia 5 de Junho teremos a resposta a esta velha questão.
Só é pena não dispormos de dados relativos às intenções de abstenção, um fenómeno crescente nas sociedades europeias e sobre o qual deveríamos reflectir.
Sou levada a crer que estarão a passar de validade as tradicionais fórmulas de seduzir o eleitorado, mediante uma retórica já gasta e inadequada a um tempo em que as velhas dicotomias esquerda/direita deixaram, eventualmente, de fazer sentido.
Não será tempo de repensar um novo homem político, mais humano, mais sensível e menos calculista?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os partidos sem representação parlamentar


Este Blogue muito raramente se aventura na análise política, fazendo raramente comentários acerca de actividades político-partidárias. Não é essa a sua vocação. Ao contrário de vários colegas da blogosfera docente, que vão puxando a brasa aos seus partidos de eleição, este Blogue não faz campanha por ninguém e não dá indicações de voto. Porém, vê-se que os que o fazem, se centram nos cinco partidos com assento no parlamento. Pela Lei de Hondt, os pequenos partidos nunca deixarão de o ser e as hipóteses de eleger deputados são mínimas.

A propósito do debate de ontem na RTP1 com responsáveis de partidos sem representação parlamentar, decidi partilhar convosco o meu sentir a respeito das diversas prestações. Para mim, o debate revelou aquilo de que já suspeitava: alguns deles mereciam, sem dúvida lá estar, constitundo uma mais valia para a democracia parlamentar, enquanto outros é melhor que de lá continuem arredados.

- Garcia Pereira do PCTP/MRPP foi o mais eloquente, assertivo e certeiro; dono de uma capacidade retórica difícil de ultrapassar, é um jurista muito bem conceituado no mundo do Direito do Trabalho e tem muitos anos de experiência na militância política. Daí que não seja surpreendente a sua eficácia no discurso sobre os problemas que mais afligem o país neste momento.

- Paulo Borges, do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza) foi o maior defensor da Ética. Filósofo de formação humanista, tem vasta obra de reflexão sobre Agostinho da Silva, Fernando Pessoa e muitos outros. É professor universitário de Filosofia e presidente da União Budista Portuguesa, seguindo muitos dos ensinamentos do Dalai-Lama.

- Rui Marques, do Movimento Esperança Portugal, tem uma intervenção notável ao nível da Juventude, da Emigração e de várias causas sociais e humanitárias. Defende os direitos de protecção à família.

- Pedro Quartin Graça, do Movimento Partido da Terra, defende uma linha de ambientalismo antropocentrista, como partido ecologista que é, com provas dadas.

- Paulo Estevão do Partido Popular Monárquico, defende uma monarquia constitucional, com aliança aos valores da Igreja e a manutenção do número de deputados por distrito.

Todos estes representantes estiveram bem, demonstrando estar perfeitamente à altura de participar num debate televisivo. Foram correctos, esclarecedores, educados, respeitando as ideias alheias.

Chegámos a José Manuel Coelho, do Partido Trabalhista Português, e ficou tudo, mas mesmo tudo estragado: provocação, insulto, boçalidade, impreparação, enfim, uma participação ao mais baixo nível. Estas atitudes fizeram por mais de uma vez perigar a continuação do debate. Deplorável!

Por fim o representante do sector mais à extrema-direita, como eu pensava já não existir em Portugal: José Pinto Coelho, do Partido Nacional Renovador puxou dos valores mais retrógrados que se possa imaginar, defendendo a saída da zona euro, o fechamento das fronteiras aos emigrantes, imputando-lhes a culpa da criminalidade crescente em Portugal, a revogação da lei do aborto e do casamento dos homossexuais, chamando-lhes aberrações; sempre numa perspectiva de regresso ao nacionalismo, em tudo faz recordar o isolamento dos tempos de Salazar, em que vivíamos "orgulhosamente sós". Uma tristeza sem tamanho, fora do tempo e de toda a razoabilidade, como se o tempo pudesse, alguma vez, voltar para trás!

Espero muito sinceramente que estes dois partidos não elejam um único deputado. Para bem da democracia e da liberdade, num caso, e do civismo e educação para a cidadania, no outro.

sábado, 2 de abril de 2011

Porque não há pilhagens no Japão?

(Imagem do Cafferty File)

Após o terramoto e tsunami de há três semanas no Japão, o mundo assiste com estupefacção a um fenómeno completamente inusual nestas circunstâncias: quando uma boa parte do país sofre com o caos e a destruição, ninguém ouve falar de roubos ou pilhagens, como aconteceu em 2005 nos EUA com o furacão Katrina, e após os terramotos do Haiti e do Chile.

O povo japonês, devastado pela perda de habitações, indústrias e campos de cultivo, anda ainda à procura dos seus familiares desaparecidos e conta os seus mortos. A acrescer a tudo isso, a ameaça nuclear é um perigo real que se abate sobre este país, já castigado no passado com duas bombas atómicas.

Tem sido notada a contenção, o civismo e a cidadania demonstarda pelos habitantes das zonas mais devastadas, que choram a sua desgraça, evidentemente, mas não se esquecem de ajudar o vizinho. No terreno multiplicam-se equipas de voluntários, que, sem nada ganhar, se vão revezando na busca de sobreviventes e resgate de pessoas e haveres no meio da destruição.

Nos supermercados os preços baixaram drasticamente logo que foi possível restabelecer o funcionamento dentro da "normalidade" possível na vida das populações. Os donos de máquinas de venda de bebidas passaram a distribui-las gratuitamente, por via do entendimento de que "todos trabalham para a sobrevivência de todos".

Onde nos outros países haveria vandalismo, ali há solidariedade. Onde haveria pilhagens, ali há generosidade. Qual a diferença? Como se explicam comportamentos em tudo contrários àquilo que é historica e sociologicamente expectável em situações de catástrofe?

Não páro de me espantar com esta elevada postura de cidadania e de me interrogar sobre os seus fundamentos, que contrastam aparentemente com o resto do mundo em condições idênticas.


Jack Cafferty, da CNN no seu artigo "Why there's no looting in Japan?" refere a possibilidade de haver uma relação entre esta demonstração de civismo e prática do Budismo e do Xintoísmo no Japão, decorrente dos valores éticos e morais inerentes à sua interiorização. Como refere Caffferty "values of conformity and consensus are considered virtues in their culture".

Cafferty fala num "vazio de moralidade" que acompanha os sentimentos das pessoas em situação de perdas múltiplas. No Japão, definitivamente, mesmo perdendo quase tudo, (algumas pessoas perderam mesmo tudo, incluindo a sua família e amigos), não se perdeu a moralidade.

(Obrigada ao Francisco Trindade pelo envio do artigo de Jack Cafferty).