quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Jacques Martin subiu ao Olympo





Jacques Martin, autor de banda desenhada, notável ilustrador e inspirado contador de histórias, exigente criador de sete séries das quais ALIX e LEFRANC são as mais famosas, faleceu esta madrugada.

Nasceu em Estrasburgo no dia 25 de Setembro de 1921; tinha, portanto, 88 anos e deixa uma obra ímpar, a solo ou com diversos colaboradores, sobretudo desde a doença ocular que o afligiu a partir do final dos anos 80.

Conheci-o pessoalmente em Março de 1990 no Salão de BD da Sobreda. Mais recentemente, em Outubro de 2002 comecei a trabalhar sob a sua supervisão no álbum LE PORTUGAL, de “Les Voyages de Loïs”, que deverá ser publicado pela Casterman no próximo mês de Abril.

E a verdade é que tivemos em certa época alguns conflitos relacionados com esse trabalho; na sua bela casa de Bousval, ele chamou-me “têtu” por não querer acatar ou compreender os seus pontos de vista.

Mas Jacques Martin era, ele próprio, um homem teimoso. Se não o fosse, aliás, jamais teria feito o que fez. Eu, que já conhecia a sua competência, pude testemunhar o seu profissionalismo irrepreensível.

Entrou para a revista Tintin dois anos após a sua criação, em 1948. Bastante ao improviso, estreava a série Alix. “Nessa época era mais fácil do que hoje. Não havia tanta exigência do ponto de vista da qualidade, felizmente... pois eu desenhava mal” – confidenciou ele a Vasco Granja, que o entrevistou a 12 de Outubro de 1972.

– “E foi assim que me estreei no Tintin, em Outubro de 1948, com Alix l’Intrépide. Tive sorte. A história não era bem desenhada mas a personagem agradou imediatamente”, conta ainda Martin. Agradou e evoluiu bastante, “felizmente”.

Jacques Martin criou, ao longo de muitos anos, um público vasto e uma enorme legião de fãs. Praticamente inaugurou o género da BD histórica, baseada no rigor da documentação e da reconstituição minuciosa. Em 1952 conseguiu impor à direcção da revista Tintin uma nova personagem, desta feita contemporânea: o jornalista Lefranc.

Martin, que não prezava muito a inteligência dos editores, disse em 2001 que, após a “tintinite aguda” na revista Tintin, era então a época da “jacobite aguda”. O próprio reconheceu ter sido influenciado por Jacobs mas que se libertou disso, assim como da influência de Hergé; e afirmou que sempre se recusou a fazer de “sub-Hergé” ou “sub-Jacobs” (1).

Em 1953 mudou-se de Verviers para Bruxelas, a fim de integrar e dirigir os quadros dos recém-formados Studios Hergé. Aí trabalhou durante 19 anos. E aí produziu, na verdade, boa parte das suas histórias, beneficiando da contribuição anónima das coloristas, sobretudo em clássicos magníficos como “Les Légions Perdues” ou “Le Dernier Spartiate”.

Não obstante, as relações entre ele e Hergé foram-se degradando; Jacques Martin mostrava-se particularmente descontente com o abandono progressivo a que Hergé votava a banda desenhada e os Studios. Parece ter metido o bedelho nas aventuras amorosas de Hergé com Fanny Vlamynck (2) e nunca lhe perdoou o facto de não reconhecer publicamente os seus colaboradores, sobretudo o mais fiel, Bob de Moor, que nunca beneficiou de direitos autorais.

Jacques Martin fazia questão de tratar os seus colaboradores como tal, não como empregados, dando-lhes em geral o crédito que mereciam. Esse é certamente um ponto a seu favor e que posso testemunhar pela minha experiência pessoal.

Com a sua morte, encerrou-se nesta madrugada a trindade Hergé – Jacobs – Martin, os mais eminentes representantes da denominada Escola de Bruxelas, feita de atenção à minúcia e ao rigor da produção.

A sua obra permanecerá.

Au revoir, Maître!

LUÍS DIFERR

Notas:

(1) À Propos de Lefranc, Nautilus Éditions nº 5, 2001.
(2) Philippe Goddin, Hergé Lignes de Vie, Éditions Moulinsart, 2007.


Imagens:

1. Alix, uma das personagens mais conhecidas de Jacques Martin;
2. Jacques Martin com Olivier Pâques, co-criador da personagem Loïs;
3. e 4. Jacques Martin nos Studios Hergé em 1958 e 1959.

Nota da editora do Blogue:
Luís Diferr foi colaborador de Jacques Martin, até ao dia de ontem, nas Éditions Casterman, Bruxelas, conforme se pode ver aqui.

Para saber mais sobre Jacques Martin, clique aqui, aqui, aqui e aqui.

3 comentários:

  1. Com o desaparecimento de Jacques Martin perde-se um dos últimos grandes referenciais da Banda Desenhada franco-belga da linha clara, que marcou de forma indelével várias gerações.

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  2. Desapareceu um grande colosso da BD Franco-Belga!
    Ficam a obra, e as memórias!

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