sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O desacordo do Acordo (Ortográfico)


Para fazer o ponto da situação relativamente ao Acordo Ortográfico importa esclarecer que:
- entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2009;
- manter-se-á em período de transição até 1 de Janeiro de 2012, altura em que se tornará obrigatória a nova grafia.
- até lá admitem-se em contexto escolar e nos órgãos de comunicação social as duas formas.

Fica aqui a síntese do que mais importante ficou escrito pelos comentadores de ontem, a quem agradeço a colaboração nesta discussão.



"O Krónikas Tugas foi ao cerne da questão e da trafulhice que é este acordo ortográfico. Vou transcrever para aqui o que foi dito então no referido blogue.

«5 – Quanto às consoantes mudas, aí até sou capaz de compreender, porque apesar da sua função de abrir a vogal seguinte, a pronúncia não terá grande tendência a alterar-se. Essa ainda será a mudança que menos me incomoda, apesar de tornar difícil distinguir um “corrector” ortográfico dum “corretor” da bolsa de valores. O que já não faz sentido é uma série de alterações que, longe de trazerem algum ganho, só vêm lançar a confusão, nomeadamente ao nível dos hífenes. Qual é a vantagem de transformar mini-saia em minissaia? E director-geral em director geral? Isto é que é o caos, porque há hífenes que desaparecem e as palavras separam-se, enquanto noutros casos dobram a vogal.

6 – Mas a grande aberração ainda vem a seguir: é que ao admitir a escrita de acordo com a pronúncia entra-se no domínio do vale tudo. Se cada um escreve como fala, então tudo é legítimo, até um portuense escrever que “eu beijo o cu daquela baca” enquanto um lisboeta escreve “eu vejo o cu daquela vaca”! Pior que isso, com a obsessão de fazer cair consoantes mudas, a “uniformização” cria situações de dupla grafia quando antes e grafia era igual. Como os brasileiros lêem o “c” de “perspectiva” ficam com ele. Como os portugueses não o lêem o “c” cai, e assim se tornou diferente o que antes era igual.»

A isto, a não ser que com o acordo se tenha mudado o significado das palavras, não se dizer que seja uniformização.

Quando aquilo que antes era igual agora fica diferente e quando as coisas mudam de duas ou três maneiras diferentes, juntando a questão da escrita conforme os sons, então o que se tem é 50 ortografias diferentes. Em vez de passarmos de meia dúzia de maneiras de escrever para uma, estamos é a multiplicar as coisas para 10 vezes mais.

E já agora aproveito para levantar uma questão. Para se escrever com a nova ortografia vai ser preciso aprende-la, certo? Assim sendo, quanto tempo acham que será preciso para ensinar 250 milhões de pessoas, muitos deles até sem acesso a escolas, outros ainda com já décadas de grafia antiga em cima a escrever com a nova? Arrisco dizer, 50 anos.

Por isso pergunto: em 50 anos a língua vai permanecer estática? É que se calhar, quando toda a gente já souber escrever conforme as regras deste acordo será já preciso outro.

(...) não vai haver grafia comum nenhuma. Essa é que é a questão. A grafia, com a possibilidade de se escrever "foneticamente", vai criar imensas maneiras diferentes de escrever a mesma coisa, mesmo dentro dos próprios países.

De resto é como se diz, no inglês há grafias e sotaques diferentes de país para país. Na Commonwealth of Nations eles entendem-se perfeitamente sem precisarem de acordos. Para que raio vamos nós inventar coisas?

(...) só entra em vigor se as pessoas quiserem. Se ninguém escrever como o acordo quer, ou se forem poucos a fazê-lo, se os professores baterem o pé e não o ensinarem, se os jornais não forem na onda do acordo e baterem eles também o pé e por aí fora, não há nada para ninguém."


Elenáro


"Em Portugal é instituída uma lei específica (Lei n.º 107/01) que no artigo 2º conceitua o património Cultural como:
Artigo 2º

1. Para os devidos efeitos da presente lei “integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização.”

2. “A língua portuguesa, enquanto fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português.”

Estou totalmente em desacordo com o acordo. Não percebo como é que a língua portuguesa, que faz parte do nosso património nacional pode ser assim tão maltratada, com estes atropelos.

Como dizia o Jorge Amado "não há acordo que me faça escrever de forma diferente""


Safira

(Foto de Ramiro Marques)

5 comentários:

  1. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 está em vigor, decorrendo o período da sua aplicação.
    Em meu entender, o momento actual é o do melhor e mais eficaz esclarecimento do conteúdo do Acordo, com clareza científica e honestidade intelectual, e não o dos «prós e contras» que, para mim, está ultrapassado. Foi suficientemente longo (já lá vão vinte anos)e muitíssimo diversificado.
    Um instrumento imprescindível para a aplicação do Acordo é o da fixação de um Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa com carácter oficial.
    Nesta altura, estão vários publicados, sem que sobre o assunto haja qualquer tomada de posição oficial.
    Em meu entender, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de Malaca Casteleiro corresponde bem a essa necessidade.

    Maria Almira Soares

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  2. Obrigada, Maria Almira.
    Aguardemos então a tomada de posição oficial por parte da ministra Isabel Alçada, que prometeu debruçar-se sobre o assunto.

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  3. Eu continuo a achar que andamos a legislar sobre aquilo que não é passivel de ser legislado.

    E depois prende-se também a pergunta. O que acontece a quem não cumprir? Vai para cadeia? É uma palhaçada de políticos de treta e intelectuais que pelos vistos não têm mais nada que fazer.

    Desculpa Lelé. Mas este tema tira-me do sério.

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  4. Não tens que pedir desculpa de nada, Elenáro!
    Desculpa se contribuí para te tirar do sério.
    Mas se calhar até ficas engraçado quando te irritas...

    O que vai acontecer a quem não obedecer é que vai ser apelidado de fóssil jurássico, velho do Restelo, retrógrado, etc.

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  5. Nada de preocupar então. Já isso me chamam hoje por isso... XD

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