quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Acordo Ortográfico - a discórdia acesa


A entrada em vigor do Acordo Ortográfico está a causar grandes discórdias nos meios académicos, entre Professores da Universidade, do Secundário e das Escolas Superiores de Educação. Até o bem conhecido Albino Almeida, da Confederação das Associações de Pais se meteu a defender a "velha gramática".

Não se trata de fundamentos de Gramática mas de estrutura Linguística, que obviamente radica numa Lógica. Eu diria mais: numa lógica historicista, mas com alguma razão de ser.

É falacioso o argumento de que deixaremos de saber escrever e, consequentemente, os nossos alunos também. É falacioso o argumento de que o Acordo provoque ou agrave a iliteracia. É falacioso o argumento segundo o qual ficarão "inutilizados" os milhões de livros existentes nas Bibliotecas escritos na grafia antiga.

Mas é uma realidade que o período de transição entre a grafia tradicional e a nova grafia consignada no Acordo vai acarretar algum esforço de adaptação a todos os profissionais da escrita e a toda a classe docente, a começar pelos professores correctores de Português.

Que há riscos, também é verdade: há nomeadamente o risco de perdermos de vista certas regras lógicas que para nós faziam sentido. Como por exemplo, no caso das consoantes mudas que servem para abrir o som da vogal anterior: "recepção" escrito sem o "p" corre o risco de, com o tempo e o uso, começar a ser pronunciado pelos falantes como "recessão", o que tem um significado completamente diferente.

Enfim, de um lado os puristas da língua, avessos a toda e qualquer mudança e do outro uma equipa de trabalho que ao longo de anos desenvolveu uma tentativa de unificação da grafia do português de Portugal com o português dos outros países de expressão oficial portuguesa, agora considerado por muitos sectores da vida intelectual como um mau trabalho.

Terá também sido mau o trabalho dos que fizeram com que deixássemos de escrever "quasi", "mãi" ou "pharmacia", como vi nos escritos do meu avô?

É evidente que há porventura algumas coisas que nos vão custar a assimilar ou que violam a lógica da língua, mas não será também ela, uma lógica de convenção?

Se não se fosse alterando nada na grafia, ainda estaríamos hoje a escrever como D. Dinis.

Qual a vossa opinião?

8 comentários:

  1. Leninha, a minha opinião não é uma opinião, é um testemunho, a de um escritor, e por aí corre que nem mau escritor.

    O meu primeiro poema, já com a nova ortografia, data de 2/1/09.
    Quando os textos são bons, só se repara na ortografia ao fim, e quando se repara, porque se não se reparar, é sinal de que os textos pairam bem acima do grafado, portanto, compete aos escritores escreverem bem, porque, se não escrevem bem, o "falazar" e o "escrevinhazar" popular encarregam-se de corrigir pronúncia e grafia, como fizeram, desde o tempo que nos separou, do Latim, ao Português corrente.

    Este outro poema, é de 2/1/2010:

    "O Sol do Poente quebrado
    E os ritmos do ocre incandescente
    A marcar a ascensão da estrela inteira,
    Mapa dos Céus da ancestralidade,
    Um deus e mais outro e outro deus ainda,
    A semear de signos a Abóbada dos Lugares Sagrados,
    E quando a lenda se consumou,
    Cumpriu-se o rito,
    E a profecia e a voz do ato anunciado.
    Pois chegara a hora do repouso.
    E foi assim."

    Ficaram chocados com o Accordo Ortográphico?... Então escrevam um melhor, com a grafia antiga...

    :-*

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  2. É lindíssimo!
    Obrigada, Luís.
    Beijo grande.

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  3. Eu sou perfeitamente contra o acordo e recusar-me-ei a escrevê-lo, enquanto e sempre que tal seja possível.

    O porquê é simples. Eu lecciono aulas de inglês e, nessa língua tão universal, não há acordo ortográfico nenhum nem tão pouco se pensa nisso. Não faz sentido alterar as coisas quando todos se entendem na perfeição.

    Acrescento ainda que este acordo e tal mudança devia ser decidido por aqueles que falam a língua. Por referendo, por aclamação nas ruas pouco me importa. O certo é que não houve debate, não houve sondagem sobre se os portugueses, brasileiros, angolanos etc... queriam ou não isto. Certamente que não me parece que tal fosse preocupação de quem fosse.

    Os brasileiros conseguem ler o nosso português e os portugueses conseguem ler o deles. O mesmo se passa com angolanos, cabo verdianos e os restantes países lusofonos.

    Então, se tudo está bem, se não há problemas para a população em geral, nem tão pouco para as minorias migrantes, para que raio se vai mexer nas coisas?

    Digo mais, não reconheço autoridade a qualquer estado para dizer ao seu povo como deve ou não falar ou escrever. As línguas são património do povo, são algo que são criadas pelo povo e que evoluem e sofrem alterações naturalmente. Foi assim que se passou do latim para o português. Não vejo razão nenhuma para agora um painel de uns senhores que não foram eleitos por ninguém virem agora ditar leis de como escrever seja que língua for e muito menos a língua do país onde nasci e cresci e que é minha também.

    É um absurdo provocar evoluções línguisticas por decretos. Já basta as distorções que os castelhanos fizerem ao galego e que os portugueses fizerem ao mirandês, numa tentativa de aproximar essas línguas do país onde se inserem. É ridiculo e apenas é feito por motivações politicas. Como de resto já toda a evolução mais recente da língua portuguesa foi feita. Basta!

    A questão dos sotaques em Portugal é notória da trabalhada que os supostos intelectuais de Olisipo impuseram ao país. Nota-se no facto de no sul não se dizerem os ditongos e no norte se acentuarem os ditongos à boa maneira castelhana e francesa. O -ão passa a -on no norte e o -ou a -ô no sul. Só se escreve da mesma maneira por questões politicas.

    Por isso repito: basta de forçar uniformidades línguisticas onde elas não existem. Deixem as línguas evoluirem naturalmente. Deixem liberdade às pessoas de criarem e recriarem aquilo que é delas naturalmente sem ditames governativos ou, pior, ditames de intelectuais que nem sequer mostram a cara por aquilo que criam.

    Sou contra e hei-de ser sempre contra qualquer normalização línguistica que altere a história da mesma.

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  4. Ora aqui está uma questão que subscrevo por completo: neste caso justificar-se-ía plenamente um referendo.
    Ninguém nos perguntou nada e a classe docente no seu conjunto deveria ter tido o direito de se pronunciar, em vez de apanhar por cima com uma coisa cozinhada nos corredores das universidades, independentemente de o Malaca Casteleiro ter feito um bom ou um mau trabalho...

    Muito obrigada pelo excelente contributo, Elenáro.

    Abraços.

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  5. Sobre o acordo tenho uma opinião difusa e nem pensava escrever sobre o assunto. Mas já que me puxaste para a conversa, cá vai. Vejo a questão por dois aspectos:

    1. a abordagem da questionável mudança pela força da lei e

    2. o prisma das vantagens que a união traz.

    A língua não é uma coisa estática, di-lo alguém (eu) leigo na matéria mas ciente das abordagens prescritivas em oposição às correntes descritivas da língua.

    Os acordos normativos são importantes. Não fossem eles, ainda em Portugal se media o milho em alqueires e em outras unidades nos restantes países. Neste aspecto, a língua como ferramenta ganha com a uniformização. Textos publicados cá seriam iguais noutras regiões onde se fale português. Mas é precisamente neste aspecto que entra a inutilidade da mudança, já que a escrita não passará a ser comum. Haverá algumas aproximações e, a não ser que outras se sucedam, a inutilidade do acordo é patente.

    Quanto à mudança pela legislação, parece-me um caminho sem destino. Se alguém teimar em escrever de acordo com a ortografia que aprendeu, o que lhe sucederá? Vai presa? E quem escrever com a nova ortografia mas com erros, fica livre?

    Na minha opinião e porque entendo a língua como algo que muda, aceito que um acordo ortográfico definisse um dicionário e uma gramática comuns. Mas julgo que estes instrumentos da língua devem reflectir a língua viva e não a língua idealizada por alguns. O resto é política.

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  6. Foram precisos decretos ou imposições de natureza editorial para se passar de pharmácia a farmácia?

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  7. Caros amigos

    As vossas reflexões, pela importância de que se revestem vão ser passadas para a homepage deste Blogue.

    Muito obrigada e um abraço.

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  8. Gus
    Imposições editoriais não sei, a mudança não é do meu tempo; mas estou em crer que decretos, ou algo do género, terá de ter havido, uma vez que a grafia mexe com os processos de ensino e os professores não podem decidir sozinhos quando e como vão alterar a ortografia.

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